Fazer “uma bet” na partida de um time de futebol ou até mesmo “jogar no tigrinho” viraram expressões cada vez mais comuns no vocabulário do brasileiro, alcançando o auge no ano de 2025. Dados do estudo A saúde dos brasileiros em jogo, publicado no início de dezembro de 2025, evidenciam que danos ligados às apostas e jogos de azar no Brasil geram uma perda econômica e social de R$ 38,8 bilhões.
O estudo estima que R$ 17 bilhões foram perdidos por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão, R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão. Com isso, o custo total ligado à saúde chega a R$ 30,6 bilhões (78,8% do total).
O estudo é uma parceria de organizações sem fins lucrativos dedicadas à saúde pública: o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) e a Umane, e da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM), que reúne quase 200 parlamentares no Congresso Nacional.
CPI das Bets
Com a necessidade de investigar “a crescente influência dos jogos virtuais de apostas on-line no orçamento das famílias brasileiras”, a comissão parlamentar de inquérito (CPI) das Bets do Senado Federal foi instalada em novembro de 2024 e encerrou as atividades no dia 12 de junho de 2025, com a rejeição do parecer final.
Presidida pelo senador Dr. Hiran (PP-RR) e com a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) como relatora, a CPI foi marcada por polêmicas, participação de famosos e audiências mornas.
O auge da comissão foi em maio, quando alcançou o pico de alcance midiático, ao receber grandes influenciadores como Virginia Fonseca, Rico Melquiades e Frei Patrick. Os depoimentos eram uma tentativa do colegiado de compreender a influência de personalidades da internet na promoção de apostas e jogos de azar.
O depoimento mais polêmico foi o da influenciadora Virginia Fonseca, que movimentou não só o plenário como também as redes sociais. Ela tinha contrato com a Esportes da Sorte, uma das bets investigadas pela Polícia Federal.
Funcionários da Casa e fãs lotaram a sala da comissão para acompanhar a sessão que começou com a frase “Deus abençoe nossa audiência, bora para cima”, dita pela influenciadora.
Trajada com casaco despojado com a imagem da filha Maria Flor, conhecido como Flô Flô, e com um copo Stanley rosa de quase 30cm, Virginia foi alvo de críticas por apresentar uma postura inadequada para o ambiente.
Uma das falas mais polêmicas durante a sessão foi a resposta da influenciadora ao ser questionada se estava arrependida de divulgar os jogos.
“Eu não me arrependo de absolutamente nada que já fiz e acredito que tudo serviu de ensinamento. Então eu fiz e hoje estou aqui depondo para colaborar com vocês. Espero que ajude”, afirmou a influenciadora.
O influenciador Rico Melquiades também foi destaque na CPI. Durante o depoimento, ele chegou a jogar na plataforma “Jogo do Tigrinho” e ganhar R$ 120, mas logo afirmou estar nervoso e não quis continuar apostando. Usando o direito ao silêncio parcial, ele se negou a responder 10 perguntas, entre elas, quanto lucrou com a divulgação dos jogos.
Contrariando os motivos pelo qual Virginia e Rico depuseram em frente ao colegiado, o padre e influenciador digital Patrick Fernandes chegou a receber convites para publicidade de apostas on-line, mas negou. O padre pediu para participar da comissão e afirmou que os estragos das apostas é “gerado nos pobres, nas pessoas mais simples”.
CPI da manipulação
Instalada em abril de 2024, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) entregou o relatório em março de 2025, quase um ano depois do início dos trabalhos. A comissão ouviu jogadores de futebol e empresários do mercado da bola para entender sobre supostas manipulações de resultados em partidas de futebol.
O relatório final trouxe o pedido de indiciamento de três pessoas por manipulação de resultado. O primeiro é o tio do jogador da seleção Brasileira Lucas Paquetá, Bruno Tolentino. O relator, senador Romário Faria (PL-RJ), pediu também o indiciamento dos empresários William Pereira Rogatto e Thiago Chambó Andrade, pelos crimes de manipulação de resultados. A CPI decidiu não indiciar o empresário Bruno Lopez, que confessou participar da manipulação de jogos, devido a um acordo fechado com o Ministério Público.
De acordo com o relator, a CPI evidenciou que praticamente todos os recentes escândalos de manipulação de competições estavam relacionados com apostas em eventos isolados, especialmente aqueles casos envolvendo atletas consagrados. O senador acrescentou que as apostas pontuais facilitariam manipulações feitas por apostadores e grupos criminosos, sem necessariamente afetar o resultado da partida. Ele defendeu a restrição dessa atividade e recomendou que as entidades esportivas informem os atletas sobre a legislação em vigor e eventuais punições.
O relatório propõe três projetos de lei para coibir manipulação de jogos. O primeiro aumenta a pena do crime de fraude para resultado em evento esportivo, de quatro a dez anos de prisão e multa. Hoje, a pena prevista é de dois a seis anos.
O projeto também institui na legislação o crime de fraude no mercado de apostas; prevê punição “para o atleta que fornecer informação relevante não divulgada ao público que seja usada para obter vantagem nesse mercado”; e institui a criação do crime de divulgação ou propaganda de ganhos irreais em apostas.
Outro projeto de lei recomendado prevê a obrigatoriedade de avisos de desestímulo ao jogo e de advertência sobre os malefícios, a serem veiculados pelos agentes operadores. Além disso, o relatório propõe um terceiro projeto de lei, com o objetivo de restringir a oferta de apostas em eventos isolados que ocorram durante eventos esportivos.
Caso Bruno Henrique
Apesar de não ter sido punido por manipulação de resultado, o caso do atacante Bruno Henrique, do Flamengo, tomou grande parte dos holofotes durante todo o ano. O jogador se tornou réu por fraude em jogo e por estelionato por supostamente ter forçado um cartão amarelo na partida do Campeonato Brasileiro de 2023, contra o Santos, em Brasília.
Bruno Henrique foi indiciado em abril pela Polícia Federal (PF) por fraude em jogo e estelionato. O caso foi revelado com exclusividade pelo Metrópoles. O documento apontava que o atacante rubro-negro forçou cartão contra o Santos para beneficiar o irmão, Wander Nunes Pinto Júnior, e outros apostadores.
Com base no indiciamento, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apresentou, em junho, a denúncia contra o atacante por suposta participação em um esquema de apostas.
Um mês depois, a 7ª Vara Criminal de Brasília aceitou parcialmente a denúncia do MPDFT e tornou Bruno Henrique réu por manipulação de resultado. A instituição não ficou satisfeita com o entendimento da Justiça e recorreu quanto à aceitação do crime de estelionato.
No dia 4 de dezembro, a 3ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) acatou o recurso do MPDFT e abriu uma ação penal contra Bruno Henrique por estelionato.
Agora, Bruno Henrique responde na Justiça comum por manipulação de resultado e estelionato.
A manipulação de resultado também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). A Segunda Turma da Corte decidiu trancar a ação penal contra o lateral Igor Cariús, do Sport Recife, denunciado na Operação Penalidade Máxima, que investigou manipulação em jogos do Campeonato Brasileiro de 2022.
O processo chegou ao STF após a defesa do atleta recorrer da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Relator do caso, o ministro André Mendonça havia negado o pedido da defesa do lateral em agosto, mas o julgamento foi interrompido após vista de Gilmar Mendes.
O decano da Corte divergiu do relator e salientou que o atleta foi suspenso por ordem do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O ministro também disse que a referida manipulação não comprometeu o resultado da partida; por isso, deu provimento ao habeas corpus da defesa.










