O mercado brasileiro deve acompanhar com atenção, nesta quarta-feira (28), a decisão sobre a política de juros do Banco Central. Apesar de algumas casas já verem espaço ainda em janeiro para o corte do juro, que está em 15%, as apostas para o início da flexibilização nesta reunião perderam força. O mercado já passou a precificar uma redução em março – com algumas instituições projetando corte apenas em abril.
Além do início da redução de juros, o ritmo de cortes deve ditar a economia neste ano. Para isso, o Copom ficará de olho em dados de inflação, mercado de trabalho, atividade econômica e, principalmente, na perspectiva de corte de gastos do governo em 2027 a partir de reformas fiscais, tema que deve aparecer nas propostas dos candidatos na eleição.
Ritmo de corte
Para a XP, os cortes começam em março, e serão seguidos por cinco cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual, até a reunião de setembro, seguido por pausa em novembro e dezembro, chegando ao fim de 2026 em 12,5%.
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Já o JP Morgan também projeta que o ciclo de cortes começa em março, em 0,50 ponto percentual. Mas antevê que o ritmo de cortes deve ser de 1 ponto percentual por trimestre, o que daria seis cortes consecutivos até chegar a 11,50% no fim do ano.
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Para o Itaú, o corte começa em março, com 0,25 ponto percentual, chegando a 12,25% ao fim de 2026 – uma redução de 2,75 pontos percentuais.
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| Até quanto a Selic vai cair? | |
| Instituição | Projeção ao fim de 2026 |
| Banco Pine | 11,50% |
| JP Morgan | 11,50% |
| Bradesco | 12,00% |
| Boletim Focus | 12,25% |
| Itaú | 12,25% |
| Rio Bravo Investimentos | 12,25% |
| XP | 12,50% |
| Blue3 Investimentos | 13,25% |
As palavras do comunicado
Em buscas de pistas sobre como o Copom deverá reagir aos dados da economia, o mercado ficará de olho nas expressões usadas no comunicado e na ata da reunião.
O JP Morgan avalia que é “improvável” que o Copom cite o momento, o ritmo ou a extensão do ciclo de flexibilização, mas deve reconhecer a atividade econômica em desaceleração, embora não muito fraca, e a redução das pressões inflacionárias desde a última reunião.
Para a XP, é esperado que a política monetária siga “contracionista”, mas não “significativamente contracionista”, como vem sendo usado nos comunicados mais recentes. É esperado também que a expressão “resiliência” da atividade econômica seja retirada, mantendo a redação “desaceleração apenas gradual da atividade econômica”.
O banco Daycoval afirma não esperar “sinalização explícita” de corte de juro já em março, reforçando o cenário de cautela.
‘Horizonte relevante’: os dados da inflação por trás dos juros
A decisão do Copom vai se basear em dados já divulgados e nas projeções dos dirigentes para o horizonte relevante, que é o terceiro trimestre de 2027. É neste período estendido que a autoridade monetária tenta converter a inflação à meta.
Este horizonte à frente é o tempo estimado para que as decisões da política monetária sejam transmitidas aos preços – ou seja, a decisão tomada agora não vai impactar a inflação do primeiro semestre de 2026. O foco está à frente.
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Para isso, será preciso reduzir a inflação para algo próximo à meta, de 3%. Em 2025, a inflação fechou o ano com alta de 4,26%, ficando dentro da margem de tolerância, que é de até 1,5 ponto percentual.
Até a última reunião, em dezembro, a projeção de inflação no horizonte relevante era de 3,2%. Para o Bradesco e o Itaú, o Copom não deve mudar esta análise. Os bancos esperam que a projeção se mantenha em 3,2%. Já a XP avalia que há espaço para reduções. A expectativa é que ela irá ceder para 3,1%, segundo a instituição.
Para o Bradesco, a moderação da atividade, da inflação e das expectativas de inflação oferecem condições para o início do ciclo de corte de juros, mas a cautela do BC deve prevalecer.
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Instabilidades eleitorais: o custo inflacionário das urnas
Roberto Simioni -Economista Chefe da Blue3 Investimentos, destaca que previsões de variáveis como juros, inflação, câmbio ou crescimento econômico são “desafiadoras” em anos com instabilidades geopolíticas e processos eleitorais, como é o caso de 2026.
Para ele, a expectativa de corte da Selic reflete um processo de ancoragem das projeções de mercado. Neste contexto, a disciplina fiscal (controle de gastos públicos) se torna “condição essencial” para a política monetária. “Déficits primários elevados ou mesmo a percepção de fragilidade fiscal reduzem a eficácia da Selic como instrumento desinflacionário, ampliam o prêmio de risco e intensificam o pass-through cambial, adicionando pressão sobre os preços internos”, diz.
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Na mesma linha, José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, afirma que a maior preocupação econômica em ano eleitoral é a flutuação do câmbio, que interfere na inflação. Isso pode ocorrer com o fluxo de investimento estrangeiro do país.
Isso ocorre porque o Brasil tem uma conta-corrente financiada por operações de carry trade, onde investidores pegam dinheiro emprestado em moedas com juros baixos e aplicam em títulos brasileiros, com juros altos. Dependendo das perspectivas eleitorais, esses investidores podem retirar o dinheiro do Brasil rapidamente, causando uma forte depreciação do câmbio – ou seja, desvalorizando o real e valorizando o dólar, o que torna os preços internos mais caros.
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Segundo Alfaix, historicamente os meses mais voláteis em ano de eleição são entre abril e julho, quando são definidos os nomes que vão entrar na corrida das urnas. Até lá, o Copom deve observar o ritmo de corte e a inflação para 2027, a depender das variáveis eleitorais.





