O “regime dos aiatolás”, que comanda o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, está cada vez mais ameaçado pelos Estados Unidos. O presidente Donald Trump tem renovado com veemência possibilidade de realizar ataques ao país, justificando a ação tanto pela forte repressão que o governo local praticou contra manifestantes como pelo contínuo programa nuclear iraniano. E ampliou a frota naval na região, elevando as tensões.
Nos últimos dias, vários especialistas em estratégia militar têm desenhado cenários de um possível ataque americano e também sobre suas consequências. Essas hipóteses variam em intensidade e impactos, mas todas elas têm em comum uma probabilidade grande de mudança política na segunda maior nação do Oriente Médio.
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Vários órgãos de imprensa nos EUA têm trazido um leque de possíveis alvos que o Pentágono poderia priorizar, como as instalações nucleares do Irã (já bombardeadas no ano passado); centros de produção de mísseis balísticos e drones; locais onde residem líderes-chave e comandantes das forças armadas do Irã ou do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica; posições militares estratégicas; e centros de comunicação, para diminuir a capacidade de Teerã de retaliar.
Nunca é demais lembrar que os navios de guerra americanos ancorados na região carregam dezenas de jatos de combate e centenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk, oferecendo aos comandantes americanos opções de longo alcance.
Do outro lado, segundo cálculos da inteligência israelense, o Irã tinha entre 1.000 e 1.500 mísseis balísticos após os 12 dias de guerra em junho de 2025. Embora seja um número bem abaixo dos 2.500 que possuía anteriormente, também havia informações que Teerã estava reconstruindo seu arsenal.
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A CNN lembrou em reportagem recente que o drone suicida Shahed, que provou ser uma ferramenta destrutiva na guerra da Rússia na Ucrânia, é de fabricação iraniana. E que o regime iraniano também desenvolveu, testou ou implantou mais de 20 tipos de mísseis balísticos, incluindo sistemas de curto, médio e longo alcance capazes de ameaçar alvos até o sul da Europa.
Não é por outro motivo que o secretário de Estado Marco Rubio alertou nesta semana que entre 30 mil e 40 mil soldados americanos estacionados em bases no Oriente Médio estão em risco no caso de uma retaliação do Irã com mísseis ou drones.
Outra Venezuela?
Para Michael Eisenstadt, diretor do Programa de Estudos Militares e de Segurança do Washington Institute, os EUA têm várias opções militares em estudo para minar o regime iraniano, sempre com objetivo de obter algum tipo de alinhamento com suas posições. Mas ele também alerta que as retaliações também virão, com maior ou menor intensidade.
A primeira opção citada pelo especialistas é a repetição da “diplomacia coercitiva” exercida na Venezuela. Nessa hipótese, os EUA garantiriam uma “gestão do regime” e não uma mudança radical – isso tem sido feito no país sul-americano, desde a prisão de Nicolás Maduro.
Isso passaria pela deposição do Líder Supremo Ali Khamenei, envolvendo até uma pressão na liderança da Guarda Revolucionária (IRGC) para entregar o aiatolá aos americanos. Essa saída passaria por acordos envolvendo o programa nuclear do Irã, exportações de petróleo e garantias de direitos humanos no país.
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Mas até Eisenstadt vê essa abordagem como improvável, dada a lealdade do IRGC ao sistema. E demandaria muita vigilância e pressão contínua dos EUA para evitar retrocessos.
Ataques cirúrgicos
A segunda opção é tentar colapsar regime por meio de ataques aéreos e operações cibernéticas para perturbar o funcionamento da máquina de repressão iraniana. Isso incluiria bombardear as sedes de segurança, interromper o sistema de vigilância do país e bloquear o esforço logístico necessário para apoiar a repressão.
Mas é preciso levar em conta que as forças de segurança do país não seriam alvos viáveis a partir do ar, já que a maioria estaria dispersa por áreas urbanizadas e misturada com civis. E até o vasto contingente dessas forças representaria um desafio.
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O especialista pondera que uma esperada fragmentação dessas forças de segurança, com algumas delas se juntando aos manifestantes contra o governo provavelmente só ocorreria se se acreditassem que um ponto de inflexão foi alcançado e que o regime estaria à beira do colapso. No entanto, a ausência de uma oposição organizada continua sendo um grande obstáculo para uma transição bem-sucedida.
Ataques simbólicos
Uma terceira opção seria os EUA realizar ataques simbólicos e performáticos, destinados a demonstrar a determinação americana, mas sem alterar fundamentalmente as condições no terreno. Essas ações poderiam satisfazer as demandas políticas internas para “fazer algo” enquanto evitam envolvimentos militares mais profundos. No entanto, essas medidas correm o risco de não mudar o comportamento do regime ou a trajetória dos eventos dentro do Irã, diz Eisenstadt. Isso poderia expor as ameaças dos EUA como vazias, enfraquecendo a dissuasão americana.
Sanções econômicas
Richard Nephew, pesquisador adjunto do The Washington afirma que as sanções de “pressão máxima” sobre o Irã hoje em vigor já esgotaram grande parte da alavancagem econômica disponível contra o regime. “Embora as sanções imponham pressão significativa, elas também limitam opções punitivas adicionais e não impediram o regime de empregar violência extrema. Ameaças relacionadas, como tarifas, dificilmente gerarão efeitos políticos significativos de curto prazo, especialmente porque não impõem custos às empresas que fazem negócios com o Irã”, comenta.
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Assim, diz ele, as opções restantes incluem a fiscalização intensificada contra as instituições financeiras chinesas que facilitam a venda de petróleo iraniano; sanções direcionadas adicionais a indivíduos envolvidos na repressão; proibições de viagem ampliadas, potencialmente incluindo familiares de figuras do regime envolvidas em repressões; e um amplo embargo de sanções secundárias que abrange a maior parte das atividades econômicas fora dos canais humanitários.
“No entanto, além de exigir capacidade substancial de fiscalização e apoio de inteligência, essas medidas dificilmente produzirão choques econômicos decisivos capazes de alterar o comportamento do regime. Sanções são mais eficazes quando combinadas com um caminho crível para alívio em troca do cumprimento. No contexto atual dos assassinatos em massa, no entanto, não está claro quais concessões justificariam aliviar a pressão. Em última análise, manter sanções sem um quid pro quo realista corre o risco de perpetuar o sofrimento do povo iraniano sem o efeito pretendido de influenciar as decisões das elites.”
Saída política
Uma outra solução não-bélica para a crise seria o surgimento de líderes políticos capazes de conduzir o Irã a um caminho democrático, diz Simon Gass, especialistas do britânico Royal United Services Institute. Mas ele admite que seria uma opção difícil em um país que não tem infraestrutura política fora do regime islâmico. “Mas pode haver um caminho para um Irã melhor. Uma segunda variante levaria às forças de segurança a uma disputa de poder, talvez levando a um derramamento de sangue extenso”, afirma.
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Gass lembra, no entanto, que o ex-presidente Hassan Rouhani teria dito a clérigos na cidade sagrada de Qom que a governança islâmica do Irã estará ameaçada sem reformas. Portanto, se o clero mais alto do Irã concluísse que a reforma é uma necessidade existencial, até as forças de segurança poderiam refletir nesse sentido.
E qual pode ser a resposta do Irã?
Teerã já alertou que qualquer ataque vai desencadear uma retaliação imediata e poderosa, enquanto os líderes iranianos rejeitaram publicamente as ameaças dos EUA e insistiram que as negociações não podem prosseguir “em um ambiente de ameaças”. Enquanto isso, a Força Aérea e as unidades de mísseis do Irã foram colocados em alerta máximo, e exercícios militares foram anunciados próximos ao Estreito de Ormuz — uma rota crítica de transporte de petróleo.
Para Eisenstadt, se acreditar que está enfrentando uma ameaça existencial, o regime dos aiatolás pode responder com todos os meios ao seu dispor, incluindo ataques a bases americanas, ataques a aliados americanos e a interrupção do tráfego de petroleiros no Golfo. Porém, se não acreditar que sua sobrevivência está em risco, o governo responderá mais ou menos proporcionalmente aos ataques, tentando causar dor suficiente para que os EUA não ataquem novamente.
A dependência do Irã do Estreito de Ormuz para seu próprio comércio provavelmente impediria qualquer esforço do regime para bloquear essa via navegável (com minas, por exemplo), exceto nas circunstâncias mais extremas. Em vez disso, Teerã provavelmente continuaria sua atual política de “controle inteligente”, que envolve o desvio de petroleiros em resposta às ações de seus adversários.





