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Juliano Floss no BBB 26 gera debate sobre “homem de verdade’ e avanço da ‘masculinidade red pill e Legendários’



A forma com que o influenciador e dançarino Juliano Floss, um dos participantes do BBB 26, escolhe performar a própria masculinidade, tem provocado debates sobre “o que é ser homem” dentro e fora das redes sociais. Antes de entrar no reality show, ele já era alvo de comentários homofóbicos e machistas nos vídeos em que aparecia dançando. Com sua entrada no programa, as reações se intensificaram e passaram a ecoar discursos que defendem papéis de gênero rígidos, difundidos por movimentos como o “red pill” e Legendários, que reforçam a ideia de um único modo aceitável de ser homem.

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Nesta semana, o debate sobre masculinidade ganhou mais um capítulo através do BBB 26, já que depois da dinâmica do Sincerão, o modelo Jonas Sulzbach usou termos como “afetadinho” e “loirinha” e fez comentários associando o dançarino a hormônios femininos, ao afirmar que ele “nunca vai ter testosterona” e que teria “progesterona”. A fala reforça a rejeição masculina por qualquer traço ligado ao feminino, ampliando as críticas sobre como expressões de gênero seguem sendo usadas como forma de ataque e humilhação. 

Ao Olhar Conceito, o psicólogo Lucas Guerra explica que comportamentos que fogem do roteiro esperado para os homens costumam provocar reações de contenção e punição social. Ele explica que não é o ato em si, como dançar, que gera incômodo, mas o fato de essa expressão acontecer fora dos limites autorizados pela norma, que permite apenas determinadas formas de performance masculina. 

“Sempre houveram os meninos que dançavam, mas os meninos são autorizados a dançar o quê? Danças tradicionais ou dança de salão acompanhados de uma menina. Então o problema não é dançar, mas sim dar aquele passo fora do roteiro da norma. Socialmente, serve como recado a muitos meninos: se vocês escolherem dançar fora daquela linha rígida, nós ‘homens de verdade’ vamos debochar de você. Talvez agredir você. Talvez te matar”. 

Ele alerta que o “deboche” de alguns pode custar a vida de outros. “Em 2014, no Rio de Janeiro, um pai matou o filho de 8 anos porque o menino gostava de lavar a louça e fazer outras tarefas domésticas”, diz Guerra ao usar como exemplo o assassinato de Alex, que foi espancado diversas vezes pelo pai para “aprender a andar como homem”. 

A socialização masculina ensina muitos homens a conter emoções e a restringir sua expressão, criando a ideia de que sentir é sinal de fraqueza e que o autocontrole se dá pelo silenciamento afetivo. Guerra explica que proibir alguém de expressar emoções e empobrecer seu território de possibilidade afetivas vai, mais cedo ou mais tarde, desembocar em respostas extremas e distorcidas. 

“Quantos homens justificam crimes contra as mulheres em nome do ‘amor’, por exemplo? Mas como ele foi socializado para viver e expressar o sentimento de amor? É uma distorção. Um repertório paupérrimo de possibilidades de expressão, somado a interdição do sentir, só pode produzir extremismo emocional, e distorção de afetos”.

Masculinidade tóxica e saúde mental 

A imposição de um modelo rígido de masculinidade acaba produzindo impactos profundos na saúde mental de muitos jovens, especialmente daqueles que não conseguem ou não desejam corresponder a esse ideal hegemônico amplamente reforçado nas redes sociais, segundo Guerra. Enquanto alguns como Juliano Floss conseguem se abrir para outras performances masculinas, outros homens atravessam processos de frustração e insegurança. 

 “Sofrem no processo de identificação, e sentem-se rebaixados, diminuídos, e podem até se voltar contra signos de feminilidade, quando não adotam explicitamente discursos e performances misóginas. É o caso dos incels, que nos esgotos das redes sociais atacam mulheres, porque não atingem um ideal de masculinidade capaz de sustentar suas identidades”. 

Para o psicólogo, o estigma em torno de homens que fogem de comportamentos considerados tradicionais está ligado à permanência de uma masculinidade hegemônica. “A masculinidade apresentada enquanto tal segue sendo a hegemônica, que se contrapõe, ou se coloca como antônimo daquilo que é feminino”. 

Ele destaca ainda que “não existe uma masculinidade no singular, mas a masculinidade que supõe se diferenciar daquilo que seja feminino, ainda é uma masculinidade idealizada, e imposta como a forma de um homem ser ‘homem de verdade’”.

A ideia de que esse tipo de cobrança estaria restrita a gerações mais velhas também não se sustenta. O psicólogo chama atenção para a reprodução desses discursos violentos entre jovens. “Narrativas atuais como ‘meninos vestem azul e meninas vestem rosa’, por exemplo, demonstra o desespero de parte da população para tentar controlar a forma como o gênero deve ser performado num corpo. E são muitas vezes pessoas jovens a reproduzirem esse movimento. Observemos a geração de jovens deputados e deputadas federais e estaduais de extrema direita que emergiu na última década defendendo pautas de costumes. Somos capazes de ver a olho nu como isso tem sido popular entre jovens”. 

Movimento Legendários revela fragilidade 

De acordo com o psicólogo, a organização desses grupos em torno de uma suposta masculinidade única revela mais fragilidade do que força. “Homens organizados para legitimar a suposta masculinidade única e a verdade sobre ela, e garantir que as outras pessoas sejam como os ideais de seus imaginários pobres de referências, ou então em sua fantasia, são diminutas frente a eles, apenas demonstra a fraqueza da masculinidade”. 

Guerra afirma que movimentos como red pills, incels e Legendários precisam reiterar esse discurso de forma insistente justamente porque ele não se sustenta de maneira natural, exigindo reafirmação constante para continuar produzindo homens moldados por uma lógica unilateral. 

“Eles sabem que terão que reafirmar constantemente sua forma unilateral de ser, para continuar produzindo homens como eles próprios. Ainda bem que existe toda uma geração de jovens, e não necessariamente jovens, homens que tem se construído em outras rotas, livres para viver suas masculinidades sem cooptação para a violência e a imposição de papeis, e o desespero de que o outro precisa ser um clone para ser validado”. 

Sobre o papel do BBB nesse debate, Guerra faz uma ponderação crítica. “Não sei se contribui para alguma discussão que tome uma proporção de fato, ou se apenas fica num debate efêmero”, afirma. Para ele, o impacto depende do que se faz depois da exposição. “Se as discussões surgidas do entretenimento não se tornarem ganchos para discussões concretas, que têm impacto na vida das pessoas, podem ser apenas pautas que se preenchem de forma efêmera, e esvaziam mais rapidamente ainda”.

Segundo o psicólogo, o entretenimento tem potencial, mas precisa ser levado além. “É o caso de o entretenimento não ser usado como raso e efêmero, mas catapultado para algo que solidifique um sentido social”.



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