Em meio a expectativas bastante modestas para o quarto trimestre de 2025 (4T25), o Banco do Brasil (BBAS3) divulgou seus dados para o período na noite da última quarta-feira (11) com alguns números que surpreenderam o mercado, mas ainda com questionamentos sobre a qualidade dos ativos.
A instituição financeira estatal teve lucro líquido ajustado de R$ 5,7 bilhões no quarto trimestre do ano passado, queda de 40,1% em relação ao mesmo período de 2024, mas avanço de 51,7% ante o terceiro trimestre, superando previsões no mercado. Projeções compiladas pela LSEG apontavam lucro de R$ 4,5 bilhões.
O BB voltou a mostrar um retorno sobre patrimônio líquido de dois dígitos no quarto trimestre, de 12,4%, acima dos 8,4% do trimestre anterior, mas ainda bem abaixo dos 20,8% registrados um ano antes. No primeiro trimestre do ano passado, a retorno havia sido de 16,7% e no segundo, de 8,4%.
Viva do lucro de grandes empresas
A XP Investimentos aponta que o resultado marca uma recuperação sequencial em relação ao 3T25. No entanto, a surpresa positiva foi amplamente impulsionada por um efeito tributário positivo de R$ 1,8 bilhão no trimestre (EBT, ou lucro antes de taxas, 7% acima da projeção da XP), enquanto os custos de crédito permanecem elevados em R$ 18 bilhões (-1% versus a expectativa da XP), o índice de cobertura continua em queda e as tendências de qualidade de ativos no agronegócio continuam pressionando. Já as despesas controladas (-4% versus a projeção da XP) foram um fator positivo no 4T.
O Morgan Stanley, por sua vez, destaca que foi mais um trimestre fraco e vê um lucro operacional ligeiramente abaixo das expectativas. O resultado abaixo do esperado foi impulsionado por maiores provisões para perdas com empréstimos, crescimento mais lento da carteira de crédito e receita de tarifas reduzida.
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“Ainda assim, um resultado fraco já estava amplamente precificado, considerando os desafios bem conhecidos no agronegócio”, avalia.
Por outro lado, o JPMorgan vê que, apesar das reversões de impostos tenham continuado a contribuir positivamente, o resultado também superou as suas expectativas em relação ao lucro antes dos impostos (+20% versus a projeção do banco). “Para sermos claros, um ROE de 12,6% está longe de ser um trimestre excelente, mas considerando as baixas expectativas e a projeção para 2026 em linha com o esperado (R$ 22-26 bilhões vs. consenso de R$ 24,3 bilhões), nossa avaliação inicial é positiva”, aponta.
O Goldman Sachs também aponta o lucro antes dos impostos em alta de 27% em relação ao trimestre anterior (27% acima da estimativa do Goldman Sachs e 17% acima do consenso), superando suas estimativas principalmente devido ao aumento da receita líquida de juros. A visão é de que as principais preocupações em relação à qualidade dos ativos rurais provavelmente persistirão, com o índice de inadimplência superior a 90 dias no segmento rural subindo 130 pontos-base (ou 1,3 ponto percentual) em relação ao trimestre anterior, para 6,1%.
Fernando Siqueira, head de análise da Eleven Financial, ressalta um aumento nas perdas relacionadas ao crédito agrícola, acompanhado por um aumento na inadimplência. Apesar desse cenário, o aumento das provisões não foi proporcional, o que contribuiu para o lucro acima do esperado. Essa discrepância se explica, em parte, pela redução das provisões em outras carteiras de crédito, notadamente na área institucional, avalia.
Apesar do lucro positivo, a qualidade do resultado é considerada menos favorável, avalia, ressaltando também o aumento das despesas gerais administrativas, que se mostra superior ao de outros bancos privados.
A visão de resultados fracos é compartilhada pelo Itaú BBA, destacando que o BB reportou tendências subjacentes fracas para o 4º trimestre de 2025 e para as projeções para o ano fiscal de 2026. A carteira total de empréstimos expandiu 1,4% em relação ao trimestre anterior e apenas 2,5% em relação ao ano anterior, enquanto a receita líquida de juros (NII) avançou 5% em relação ao trimestre anterior devido a menores custos de captação e aos resultados da Patagônia.
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As provisões permaneceram elevadas em R$ 18 bilhões, embora abaixo da formação de crédito inadimplente (NPL). A qualidade dos ativos continuou a se deteriorar, com o indicador de NPL subindo 70 pontos-base em relação ao trimestre anterior, para 5,2%, pressionado pelo agronegócio, varejo e por um caso específico de R$ 3,6 bilhões no segmento de Empresas. O lucro líquido ajustado do ano fiscal foi de R$ 20,7 bilhões, uma queda de 45% em relação a 2024, marcando um ano difícil impulsionado por um aumento expressivo nos custos de crédito.
A Genial Investimentos também ressalta que, apesar do lucro ter vindo substancialmente acima das expectativas, a qualidade do resultado permanece fragilizada. Ajustando pelo benefício fiscal, o resultado operacional permanece pressionado pelo custo de crédito elevado (R$ 18 bilhões) e deterioração contínua do agronegócio.
“Apesar do resultado antes de impostos e do lucro líquido terem superado as expectativas, acreditamos que o Banco do Brasil apresentou tendências mistas. Por exemplo, o resultado antes de impostos acima do esperado foi impulsionado principalmente por uma receita mais forte e melhores despesas operacionais, enquanto a qualidade dos ativos continua a apresentar dinâmicas desafiadoras”, avalia o Bradesco BBI.
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E 2026?
O guidance para 2026 aponta para um crescimento modesto da carteira de crédito e lucro líquido entre R$ 22–26 bilhões, implicando cerca de 20% de crescimento anual no ponto médio e um ROE implícito próximo de 14%.
A XP vê que isso sugere uma recuperação gradual sustentada por melhores spreads e provisões ligeiramente menores, embora o ritmo de melhora na qualidade de crédito continue sendo uma variável chave e possa ainda ser visto com alguma cautela pelos investidores. Já os índices de capital melhoraram no trimestre, principalmente impulsionados pelos efeitos positivos da MP 1.314.
“De forma geral, os resultados do 4T reforçam sinais de estabilização, mas não mudam materialmente nossa postura cautelosa”, avalia a XP. A corretora segue com recomendação neutra para os ativos, vendo um cenário ainda pressionado de qualidade de ativos, visibilidade moderada sobre a velocidade de normalização, custos de crédito ainda elevados, múltiplos mais altos e menor dividend yield (dividendo sobre o preço da ação).
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O Morgan aponta que o ponto médio da projeção de lucro líquido para 2026 está exatamente em linha com o consenso dos analistas, oferecendo pouca margem para revisões para cima dos lucros no curto prazo. “O tom da administração em relação à projeção e os comentários sobre a qualidade dos ativos do agronegócio durante a teleconferência de resultados serão cruciais para as ações no curto prazo”, avalia.
Olhando para 2026, o BBI vê riscos de queda em sua estimativa de lucro líquido, já que se encontra no topo da faixa de projeção de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões, onde o crescimento do crédito ficou abaixo do esperado.
Já a Genial Investimentos avalia que o guidance 2026 frustra expectativas. A projeção de lucro de R$ 22-26 bilhões fica significativamente abaixo das suas estimativas iniciais (cerca de R$ 29 bilhões), sinalizando que a recuperação será mais lenta e menos intensa que o esperado. A recomendação da Genial é de manutenção das ações, com preço-alvo de R$ 25,30, equivalente à visão neutra do JPMorgan, Bradesco BBI e Goldman Sachs e marketperform do Itaú BBA. O Morgan Stanley, por sua vez, possui recomendação overweight (desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra), com preço-alvo de R$ 39.
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A maior parte do mercado segue com recomendação neutra ou equivalente para BBAS3, conforme aponta compilação da LSEG: de 10 casas, 2 recomendam compra, 1 recomenda venda e 7 recomendam manutenção, indicando que ainda há cautela com os ativos.






