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Copom deve cortar juros de olho no petróleo e no risco de inflação, mas a que ritmo?


A esperada reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) acontece nesta terça (17) e quarta-feira (18), mas em um cenário diferente do que era projetado pelo mercado há pouco mais de duas semanas. Até então, a expectativa era de que a autoridade monetária teria um contexto mais confortável para começar o início do ciclo de corte de juro, e que faria isso em uma intensidade moderada, de 0,50 ponto percentual, saindo de 15% para 14,5%. Mas os ataques contra o Irã e a consequente alta na cotação do petróleo trouxeram cinzas e fumaça em um horizonte próximo.

As incertezas se colocam sobre o impacto na inflação. Caso os preços comecem a subir devido ao choque externo, o Copom precisará manter os juros elevados para controlar a escalada. Assim, neste Copom, os economistas vão observar não apenas a decisão da autoridade monetária, mas também o tom do comunicado e o andamento do conflito no Oriente Médio.

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Viva do lucro de grandes empresas

Tamanho do corte da Selic em março

Economistas ouvidos pelo InfoMoney avaliam que, embora o conflito no Oriente Médio adicione incertezas no curto prazo, o Copom deve manter o corte na reunião, o que já estava sinalizado no comunicado emitido após o encontro de janeiro.

O que pode mudar, na análise dos economistas, é a intensidade desse corte.

Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos, afirma a projeção da casa saiu da expectativa de corte de 0,50 p.p. para uma mais modesta, de 0,25 p.p. “Nossa projeção é que chegaremos ao fim de 2026 com a mesma Selic terminal, de 12%, mas o ritmo ao longo do ano ainda é incerto”, avalia.

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Perri avalia que o Copom deve começar o corte cauteloso e aguardar o desenrolar do conflito e o impacto na economia para definir se manterá pequenos cortes para, depois, acelerar essa redução assim que a situação ficar mais definida. “Não tem sido o perfil do Copom começar um ciclo de cortes e fazer pausas, por isso o mais provável é que os cortes sejam menores para depois acelerarem com um possível fim do conflito”, estima.

O C6 também estima corte de 0,25 p.p. devido ao conflito no Irã.

Já Rodolfo Sartori, economista da Austin Rating, mantém a projeção de corte de 0,50 p.p., com uma Selic terminal em 11,5%. “Nosso cenário é mais otimista que o do mercado. Apesar da guerra no exterior, achamos que o Copom manterá o corte de 0,50 p.p. e apontará na ata algum comentário sobre as incertezas no exterior”, avalia.

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O que sustenta o cenário da Austing Rating é que os juros altos já mantêm a atividade restritia há bastante tempo, com a economia desacelerando, o que demonstra que a política de juros está cumprindo seu papel. “Nosso juro real está em torno de 10%, tem espaço para cortar”, afirma.

A Warren Investimentos também projeta corte de 0,50 p.p., embora assuma a possibilidade de o Copom ser mais cauteloso. A instituição mudou a expectativa da Selic ao fim de 2026, de 12% para 13%, já que a instabilidade internacional levaria o Copom a interromper os cortes mais cedo.

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Na mesma linha, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, mantém o cenário-base de corte de 0,50 p.p. na Selic. Ele argumenta que os dados recentes da economia indicam moderação gradual da atividade, desaceleração da inflação (embora serviços ainda esteja acima da meta).

Porém, dada a incerteza em relação ao conflito no Oriente Médio, a projeção é que o Copom irá cortar o juro em 0,25 p.p. nesta primeira reunião. “A principal dúvida neste momento não é mais se os juros começarão a cair, mas qual será a magnitude do primeiro movimento”, afirma. A projeção é que a Selic encerre 2026 em 12,5%.

Projeção de corte de juros e Selic ao fim de 2026
Corte (p.p.) Selic em 2026 (%) Magnitude
Austin Rating 0,5 11,5 350
C6 0,25 12,5 250
Forum Investimentos 0,25 12 300
Suno 0,25 12,5 250
Warren 0,5 13 200

Prudência no comunicado

Sung destaca que o Copom deverá manter a postura de prudência e reiterar que a Selic atual permanece compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta dentro do horizonte relevante. 

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“Esperamos a manutenção da sinalização de cortes nas próximas reuniões, sem indicação explícita da magnitude das reduções. Essa estratégia preserva maior flexibilidade diante das incertezas do cenário”, avalia Sung.

O C6 também segue a mesma avaliação, e afirma que o comitê deve justificar a decisão citando a inflação corrente menor e os reflexos da política monetária mais evidentes. “No entanto, o cenário marcado por desancoragem das expectativas de inflação, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho exige ainda uma política monetária contracionista”, avaiam os economistas do C6.

“A possibilidade de uma alta permanente nos preços do petróleo, diante da tensão no Oriente Médio, reforça a necessidade de cautela na condução dos juros, o que sugere uma postura mais gradual até que a incerteza seja dissipada”, dizem.

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Política de preços da Petrobras como ‘escudo’ da inflação

A avaliação de Sartori leva em conta a política de preços da Petrobras, que não segue o modelo de paridade internacional. Para ele, esta é a nossa “carta na manga”. Por aqui, a empresa consegue blindar a economia segurando os repasses de preços. Assim, a recente aceleração da cotação do petróleo ainda não chegou às bombas dos postos de combustíveis. Mas há um limite para esta proteção.

O barril de petróleo Brent saiu de uma média de US$ 66 em janeiro para US$ 94,3 em 9 de março e US$ 100 na última sexta (13). 

Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem dos preços dos combustíveis já atingiu níveis recordes, chegando a 72% no caso do óleo diesel. Neste cenário, os economistas avaliam que a Petrobras não conseguirá segurar os preços por muito tempo e, em algum momento, terá que repassar o valor aos combustíveis, o que provoca um efeito cascata na inflação.

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Duração da guerra ditará ritmo de cortes

Para Sartori, da Austing Rating, se a guerra durar até um mês, não haverá impacto negativo no cenário da inflação. 

Ferri, da Forum Investimentos, diz que se o petróleo permanecer no patamar de US$ 100 por mais dois ou três meses, o impacto na economia será mudado radicalmente. Neste caso, a reunião seguinte do Copom, prevista para 27 e 28 de abril, poderá ocorrer em um contexto ainda mais duro para os dados de inflação, o que pode penalizar ainda mais os setores que já sofrem desde meados do ano passado com os juros restritivos.

Toda esta incerteza coloca o ritmo dos cortes sob uma penumbra difícil de dissipar. Além do fim do conflito, será preciso reestabelecer o fluxo dos navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz e esperar que a inflação arrefeça novamente no Brasil.

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Inflação e mercado de emprego

Além das incertezas da guerra, o Copom colocará à mesa de análise os dados de inflação e do mercado de trabalho do Brasil para mensurar o andamento da economia e estimar se o corte da Selic irá acelerar demais a atividade ou trazer apenas o estímulo necessário antes da estagnação.

Luis Felipe Vital, chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública da Warren, afirma em relatório que desde a última reunião do Copom foram divulgados dados “com sinais mistos” de atividade e mercado de trabalho, mas que ainda apontavam um processo de desacelração da economia. 

Ele destaca o dado mais forte do Caged, com criação de 112.334 postos de trabalho, quando a expectativa era de 95 mil; e a produção industrial mais forte em janeiro, apesar da revisão do dado de dezembro. 

Na inflação, no entanto, Vital avalia que o quadro foi “menos benigno”. Ele cita que o IPCA-15 de fevereiro surpreendeu para cima, com alta de 0,84%, ante expectativa de 0,56% e pressões disseminadas entre diversos itens, e que o IPCA de fevereiro confirmou essa leitura, com alta de 0,70%, ante expectativa de 0,61%, com abertura bastante negativa. 

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A análise do Copom será para avaliar como equilibrar essas forças na economia, já que os reflexos são bastante punitivos a alguns setores. Ferri, da Forum Investimentos, cita o aumento das recuperações judiciais ou extrajudiciais das empresas e da inadimplência como alguns dos fatores que indicam deteriorização da atividade.

Os cenários que incluem a ameaça do petróleo sobre a inflação apontam que se o preço do barril do petróleo se mantiver em US$ 80, a inflação poderá se elevar de 3,4% para 5% em 2026 e de 3,2% para 3,7% no 3° tri de 2027, que é o atual horizonte relevante para a política monetária. 

Mas, se os preços do petróleo subirem a US$ 80 e retornem aos níveis pré-conflito após seis meses do início do choque, os efeitos sobre o HR poderiam ser até baixistas, segundo a análise do Departamento de Pesquisas Econômicas (Dpec) do Banco Daycoval.



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