Agência Câmara
Sete deputados federais buscam a reeleição e as pré-chapas não têm grandes lideranças e evidenciam a familiocracia
Em tese a disputa para a Câmara dos Deputados tem favoritos e favoritas, mas quem puder ouvir o travesseiro, que o faça, pois ao pé do ouvido ele certamente dirá: “teime, mas não aposte”, pois nenhuma candidatura agita a massa e o descrédito da classe política é grande. Porém, renovação em relação a 2022 haverá, pois três dos oito deputados da bancada mato-grossense estarão fora da disputa. O cenário de incerteza partidária é visível e não deverá mudar até a data-limite em 4 de abril para filiação de modo a poder ir às convenções. Até lá, o partido não será levado em conta: o que vale é a acomodação que facilite a eleição ou a reeleição. Em paralelo, os caciques movem as peças do tabuleiro em busca de nomes tentando fortalecer suas chapas. Alguns candidatos serão lançados apenas para o preenchimento do número de 10 por partido e outros por acomodação familiar – a chamada familiocracia. Algumas legendas fora do cerne do poder político terão papel secundário na corrida para Brasília, como é o caso do Avante, Novo, PSB e PSDB; outros terão que descartar pretendentes, o que deverá acontecer com o PL, Federação União Progressista, Federação Fé Brasil, Podemos e Republicanos. As candidaturas são as de sempre: quem está no cargo em busca de reeleição, ex-deputados federais e outros com militância política. Não há nenhuma bala de prata ou cereja do bolo. A classe política tem uma renovação muito lenta. Não há nenhuma pré-candidatura nascida junto à juventude, meios empresariais, intelectuais ou de servidores públicos. Uma silenciosa reserva de mercado fecha todas as portas possíveis à renovação. Mato Grosso irá às urnas para votar em quem está ou esteve no poder. Pior é que esse quadro é o mesmo para os demais cargos em disputa. O cenário de momento é focalizado nesta reportagem, mas poderá sofrer uma mudança significativa caso haja ruptura na cúpula do União Brasil.
O Avante na prática se resume ao produtor rural e sindicalista patronal Antônio Galvan, que até recentemente era pré-candidato ao Senado pelo Democracia Cristã, que lhe legou legenda para a disputa. O Novo não tem nomes de dimensão estadual. Com Pedro Taques o PSB perdeu seus quatro deputados estaduais e continua sem assento no Congresso. O tucanato presidido pelo deputado estadual Carlos Avallone conseguiu montar uma chapa competitiva para a Assembleia, mas para a Câmara – aquele que foi o maior partido de Mato Grosso – perdeu na caminhada.
Dentre os eleitos em 2022 para a Câmara, Amália Barros (PL) morreu na Capital paulista, em 12 de maio de 2024, após uma cirurgia para a retirada de um nódulo benigno no pâncreas; Abílio Brunini (PL) renunciou no final de 2024, para assumir a Prefeitura de Cuiabá, para a qual foi eleito naquele ano; e José Medeiros (PL) é pré-candidato ao Senado no palanque no bolsonarismo. A cadeira de Amália é ocupada por Nelson Barbudo (PL), e a de Abílio, por Rodrigo da Zaeli (PL).
Na Câmara, sete tentarão a reeleição: Nelson Barbudo, Rodrigo da Zaeli, Coronel Fernanda e Coronel Assis, todos do PL; Juarez Costa (Republicanos), Emanuelzinho Pinheiro (PDS) e Fábio Garcia (União).
MDB – A bancada do MDB, que era formada por Juarez e Emanuelzinho foi dissolvida. Juarez se filiou ao Republicanos, e Emanuelzinho ao PSD, acompanhando seu pai e xará Emanuel Pinheiro, ex-prefeito de Cuiabá, que também saiu do MDB para aquele partido. Com essas saídas e as anteriores dos suplentes de deputado federal Valtenir Pereira e Juliana Kolankiewicz a legenda sofreu esvaziamento. Valtenir será candidato a deputado federal pelo PSD de Carlos Fávaro, e Juliana pelo Republicanos de Otaviano Pivetta.
O esvaziamento pode ser dimensionado pela votação em 2022 dos que deixaram o partido: Juarez recebeu 77.528 votos, Emanuelzinho (74.720), Valtenir (22.563), Juliana (16.385) e o ex-presidente regional do partido, Carlos Bezerra (45.358); Bezerra foi aposentado pela política de renovação do MDB.
Quatro são os nomes considerados mais fortes para compor a chapa do MDB: Jéssica Riva, Kalil Baracat, Luluca Ribeiro e a vereadora por Rondonópolis, Mariuva Valentin. Jéssica é irmã da presidente regional do MDB, a deputada estadual Janaína Riva, pré-candidata ao Senado; ela é filha do ex-presidente da Assembleia, José Riva; e ex-nora de Silval Barbosa, que foi governador. Kalil foi prefeito de Várzea Grande e não conseguiu se reeleger em 2024; Luluca é servidor lotado no gabinete de Janaína Riva; e Mariuva é antiga militante emedebista em seu município.
FÁVARO – Alinhado, porém independente da Federação Fé Brasil (PT/PCdoB e PV), o PSD deverá ir às urnas com Irajá Lacerda, Valtenir Pereira, Procurador Mauro e, possivelmente com o vice-prefeito de Barra do Garças, Professor Sivirino, que foi eleito pelo MDB.
Irajá é filho do suplente de senador José Lacerda, advogado e secretário-executivo do Ministério da Agricultura, nomeado por Fávaro.
Valtenir foi vereador por Cuiabá e deputado federal; é suplente de deputado federal e foi filiado a diversos partidos.
O Procurador Mauro foi militante do PSOL e disputou mais de uma dezena de eleições para diversos cargos; em 2022 recebeu 16.720 votos para deputado federal.
O Professor Sivirino é vice-prefeito reeleito de Barra do Garças, onde foi vereador: é um dos nomes mais conhecidos do atletismo nacional.
Em 2022 o PSD não elegeu deputado federal, por conta de tropeços de percurso com sua pré-chapa. O ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Nilton Borgato, foi preso em 19 de abril de 2022, pela Polícia Federal, na Operação Descobrimento, sob a acusação de chefiar um esquema de traficava cocaína para a Europa; e Gaspar Domingos Lazzari, ex-prefeito de Confresa, foi preso pela Polícia Federal na Operação Tapiraguaia que apurava supostos desvios na execução de emendas parlamentares federais, inclusive algumas de autoria de Valtenir, quando deputado federal. Irajá recebeu 54.607 votos, mas seu partido não alcançou o quociente para eleger deputado.
LULA-LÁ – A Federação Fé Brasil é engolida pelo PT, que tenta em primeiro lugar eleger Rosa Neide, o que não aconteceu em 2022, quando ela recebeu 124.671 votos – a maior votação para o cargo, mas seu partido não alcançou o quociente. Secundando Rosa Neide o PT espera lançar James Cabral, Edna Sampaio, Altir Peruzzo, Julier Sebastião da Silva, Professora Graciele, Wendell Girotto e Robinson Cireia.
James é irmão do deputado estadual Lúdio Cabral, que tentará a reeleição. Residente em Cáceres, James fará dobradinha com o mano naquela cidade, que é um reduto petista; sua chance de eleição é remota, mas seu trabalho reforçará a votação de Lúdio.
Edna Sampaio foi vereadora por Cuiabá e a Câmara cassou seu mandato por improbidade administrativa, mas ela reverteu judicialmente a cassação, muito embora não tenha reassumido o cargo.
Altir Peruzzo foi vereador, vice-prefeito e prefeito de Juína, e deputado estadual. É suplente na Assembleia e superintendente estadual do Ministério da Saúde. É um dos principais nomes do PT, mas o partido não lhe dá legenda para disputar uma cadeira na Assembleia.
Julier Sebastião de Silva foi juiz federal e insiste em candidaturas inglórias.
A Professora Graciele é Graciele Marques dos Santos, que foi vereadora por Sinop, não conseguiu se reeleger e milita no sindicalismo do Sintep.
Wendell Girotto é vereador em primeiro mandato em Rondonópolis.
Robinson Cireia foi suplente de vereador em Cuiabá.
Integrante da Fé Brasil, o PV poderá lançar Neuma Morais, que no próximo dia 26 se filiará àquele partido. Neuma é mulher de Zé Carlos do Pátio, pré-candidato a deputado estadual e ex-prefeito de Rondonópolis. Em 2022 Neuma disputou a eleição para deputada federal pelo PSB e recebeu 44.931 votos, mas seu partido não conquistou cadeira.
Parte da mesma federação, o PCdoB poderá lançar algum nome, mas nenhum capaz de se destacar nas urnas.
BOLSONARO – O bolsonarismo filiado ao PL ganhou a adesão do Coronel Assis, que deixou o União, pelo qual foi eleito com 47.479 votos. Com essa adesão a bancada liberal ocupa cinco cadeiras: Coronel Assis, José Medeiros, Coronel Fernanda (60.304 votos) e os suplentes que ganharam titularidade, Nelson Barbudo (53.285) e Rodrigo da Zaeli (6.965).
À exceção de José Medeiros, os demais tentarão a reeleição numa chapa que deverá ser engrossada com Rosângela Martinelli, ex-prefeita de Sinop e segunda suplente de senadora e com Thiago Boava.
Boava é produtor rural em Campo Novo do Parecis. Nunca disputou eleição e se apresenta como sucessor de sua mulher, Amália Barros, falecida, e que foi deputada federal em 2022, por indicação de Michelle Bolsonaro. Amália tinha visão monocular e militava no jornalismo no interior paulista; casou-se com Boava, veio para Mato Grosso, onde viveu por pouco tempo. A deputada morreu em São Paulo e seu corpo foi sepultado em 13 de maio de 2024, no Cemitério da Saudade, em Mogi Mirim, sua terra, e sequer foi velado em Mato Grosso.
SITUAÇÃO – A Federação União Progressista divulgou a composição de uma pré-chapa com Fábio Garcia, Gisela Simona, Virgínia Mendes e Wagner Ramos, todos pelo União; e Nilson Leitão, Victorio Galli e Marcelo Sandrin, pelo PP.
A parte que toca ao União, na federação, tem quatro nomes entre os principais: Fábio Garcia, o mais votado entre os eleitos, cravou 98.704 votos, mas deixou a Câmara para ser chefe da Casa Civil de Mauro Mendes. Sua cadeira é ocupada por Gisela Simona (28.897 votos), que preside o União Mulher em Mato Grosso.
Virgínia Mendes nunca disputou eleição. É primeira-dama sem função oficial no governo. Virgínia é a segunda figura mais divulgada pelos sites mato-grossenses, somente ficando atrás do governador Mauro Mendes.
Wagner Ramos, de Tangará da Serra, foi deputado estadual e coleciona suplências na Assembleia Legislativa. É servidor comissionado no governo estadual.
Nilson Leitão, Victorio Galli e Marcelo Sandrin são considerados puxadores de votos para o PP.
Leitão foi vereador, deputado estadual e duas vezes prefeito de Sinop, e deputado federal. Assessora a Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso.
Victorio Galli acumula suplências de deputado federal e foi deputado federal. É ligado à Igreja Evangélica Assembleia de Deus.
Marcelo Sandrin é um dos médicos há mais tempo em atividade na Capital mato-grossense, onde é empresário da saúde. Em 2024, em Cuiabá, foi candidato a vice-prefeito do deputado estadual Eduardo Botelho (União), mas sua chapa sequer chegou ao segundo turno, no pleito vencido por Abílio Brunini (PL).
Internamente o União Brasil está ao fio da navalha. Seus principais líderes, o governador Mauro Mendes e o senador Jayme Campos, caminham em direções opostas. Jayme quer ser candidato ao governo, e Mauro apoia o vice-governador Otaviano Pivetta para sucedê-lo. Nem mesmo os dois sabem o que será no amanhã. Poderá haver uma grande ruptura na cúpula do União, com um dos líderes deixando o partido, acompanhado por seu grupo. Caso isso ocorra, haverá uma reconfiguração para as eleições e não somente para a Câmara cujo cenário de momento é mostrado nesta reportagem.
PODEMOS – O presidente da Assembleia, Max Russi, trocou o PSB pelo Podemos e levou nomes de relevância política para aquela sigla. Porém, para a Câmara, Max não encontrou expressivo número de bons pré-candidatos.
O pastor Marcos Ritela é o principal nome; Ritela foi candidato a governador em 2022, pelo PTB, ficando em terceiro lugar com 233.543 votos (14,34%) – Mauro Mendes (União) venceu o pleito em primeiro turno com 1.114.549 votos (68,45%) com Márcia Pinheiro (PV) em segundo lugar, com 267.172 votos (16,41/%).
O empresário do agronegócio Fernando Gorgen, que acumula mandatos de prefeito de Querência, no Vale do Araguaia, é um dos destaques do Podemos, que tenta completar sua chapa com o vice-prefeito de Rondonópolis, médico e pastor Altemar Lopes; e a vereadora por Várzea Grande, Gisa Barros. Altemar e Gisa são destaques no partido, mas no contexto ambos não têm expressão eleitoral.
REPUBLICANOS – O Republicanos de Pivetta ganhou um nome de peso: Juarez Costa, que se junta a Neri Geller, Dr. Leonardo Albuquerque e Acácio Ambrosini.
Juarez é uma das principais lideranças do Nortão; foi vereador e por duas vezes prefeito de Sinop; exerceu mandato de deputado estadual e é deputado federal reeleito.
Neri foi vereador por Lucas do Rio Verde, ministro da Agricultura e deputado federal.
O Dr. Leonardo é domiciliado em Cáceres, onde exerce a medicina e disputou a prefeitura; foi deputado estadual e deputado federal.
Acácio Ambrosini foi vice-prefeito de Sorriso, que é um dos principais municípios mato-grossenses.
TUCANOS – O deputado estadual e presidente regional do PSDB, Carlos Avallone, tenta montar chapas competitivas para a Câmara e a Assembleia, mas para a primeira não conseguiu nomes considerados de peso.





