A taxa básica de juros segue em lenta queda. Com a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (29), para 14,50%, o investidor se vê diante de um cenário de transição: embora mais baixos, os juros devem permanecer na casa dos dois dígitos por um longo período, criando um ambiente onde o conforto do alto rendimento da renda fixa passa a dividir as atenções com as oportunidades deixadas pelo desconto nos ativos de risco.
Mas o consenso entre especialistas é de que não adianta só comprar índice e ver o tempo passar. Na renda fixa, ainda não é hora de abandonar o Tesouro Selic, mas os papéis de inflação continuam sendo a “bola da vez”. Já no crédito privado, passa por turbulências, a alta dos spreads abre janela para travar boas taxas em empresas sólidas.
Já na renda variável, small caps, setores ligados à economia doméstica e fundos de tijolo, que ainda negociam abaixo do valor patrimonial, despontam como as grandes oportunidades do momento para quem tolera a volatilidade. Confira as recomendações dos especialistas para cada classe de ativos:
Títulos públicos: difícil bater o Tesouro Selic
Avaliando o impacto do corte, as perspectivas para a inflação e o risco fiscal, especialistas apontam que o Tesouro IPCA+ tem a melhor relação entre risco e retorno no Tesouro Direto, enquanto o Tesouro Prefixado exige cautela e o Tesouro Selic mantém seu papel de âncora do portfólio.
“Acreditamos que, em um primeiro momento, os títulos prefixados tendem a reagir de forma mais rápida em um ciclo de corte de juros, porém, as maiores assimetrias ainda se encontram nas NTNs-B (Tesouro IPCA+), que apresentam um juro real em torno de 7,5% ao ano para vencimentos de 10 anos”, avalia Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos.
Para quem deseja alocar nesse segmento, João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria, orienta ajustar o vencimento ao nível de risco tolerado: “se é um investidor mais conservador, ele vai estar ali no comecinho da curva para ter um carrego de real próximo ao CDI, talvez um pouco acima. Se é um investidor mais moderado para arrojado, vai para a parte intermediária ou para a parte longa da curva”. Ou seja, só escolha vencimentos longos se suportar a volatilidade.
A expectativa da SulAmérica e da Suno é de que a Selic encerre o ciclo na casa dos 13%. Na XP, um pouco acima, em 13,5%. Com isso, o Tesouro Selic segue relevante: “entendemos que os investidores ainda devem manter uma parcela relevante do portfólio em ativos pós-fixados, com movimentações marginais nesta classe de ativo”, oriente Mello.
Crédito privado: taxas compensam o risco?
Os investimentos em títulos de renda fixa emitidos por empresas demandam cautela e seletividade há alguns meses, mas o aumento recente nos spreads – prêmio em relação aos títulos públicos – abriu uma janela de oportunidade para os investidores de perfil moderado ou arrojado.
“Estamos otimistas, mas com cautela”: é assim que Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP, define a visão da casa para o crédito privado. “De fato, a abertura de spreads proporciona uma janela de oportunidades, mas em bons ativos”, alerta.
Alguns desses bons ativos sofrereram abertura de spreads por uma contaminação da aversão a risco que tomou o mercado após eventos de crédito em empresas importantes, como Raízen (RAIZ4), GPA (PCAR3) e Braskem (BRKM5). O trabalho do investidor agora é selecionar boas empresas que ainda têm fundamentos sólidos. “O mercado tem hoje uma liquidez muito maior do que tinha há dois anos e isto é saudável, mas, ao mesmo tempo, cria alguns exageros que podem ser oportunidades”, afirma Nicole Vieira, head de crédito privado da Polo Capital.
Os papéis de empresas com nota de crédito elevada ainda estão entre os preferidos. Daniel Palaia, gestor de crédito privado da Asset1, lista os setores de energia, bancos, saneamento e rodovias como boas opções: “têm empresas de ótima qualidade”.
Ações: hora de ir às compras?
Para quem se pergunta se o corte da Selic cria um bom momento para investir em ações ou ainda é preciso esperar mais para comprar ativos de risco, Luan Aral, analista da Genial Investimentos, tem um alerta: “esperar a Selic atingir o piso para comprar ações é deixar dinheiro na mesa, um erro clássico das pessoas físicas”.
Para ele e outros especialistas ouvidos pelo InfoMoney, as small caps – empresas de menor capitalização – e companhias posicionadas em setores sensíveis aos juros, como varejo e construção civil – representam as melhores oportunidades de ganho de capital atualmente. “A Bolsa subiu muito por causa da entrada de fluxo de capital estrangeiro, que entra comprando a ‘cesta Brasil’, composta basicamente por Ibovespa, Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), Banco do Brasil (BBAS3), Itaú (ITUB4) e assim por diante”, explica Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital: “as small caps acabam ficando de fora.”
Para quem quer fugir da volatilidade natural nos investimentos em empresas menores, Vagner Franceschi, especialista de Investimentos do Sistema Ailos, ainda recomenda gigantes que entregam resultados constantes: “os setores um pouco mais promissores são grandes bancos, energia e seguradoras, que têm empresas mais consolidadas, sofrem menos com as oscilações de mercado e já vêm mantendo bom crescimento mesmo em meio à inadimplência”.
Para quem vai entrar na Bolsa, Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, diz que “a melhor estratégia é diluir a entrada no tempo, via aportes recorrentes. Isso reduz o risco de comprar no pico e evita decisões emocionais”.
Fundos imobiliários: a vez dos fundos de tijolo?
Mesmo modesto, o corte de 0,25 na Selic deve levar a uma reação positiva dos fundos imobiliários devido ao alto desconto em relação ao valor patrimonial dos ativos, afirma Larissa Nappo, analista de fundos imobiliários do Itaú BBA.
- Os fundos de tijolos (que investem em ativos reais) , um impasse: se de um lado a queda mais lenta da Selic pode adiar o fluxo da renda fixa para os FIIs, a postura cautelosa do BC pode ser bem vista pelo mercado e ajudar a aliviar o juro de longo prazo, contribuindo para o desempenho dos fundos.
- Nos fundos de papel (que investem em títulos), o corte pode pressionar o rendimento dos fundos indexados ao CDI no curto prazo, mas, em compensação, melhora o risco de crédito.
Segundo Isabella Almeida, gestora de fundos imobiliários da Rio Bravo Investimentos, o desconto médio das cotas em relação ao valor patrimonial está em torno de 10%, chegando em alguns casos a 30% em fundos de tijolos. “Neste momento de maior incerteza, surgem boas oportunidades de alocação em fundos com fundamentos sólidos, e no médio prazo, os FII se mostram resilientes mesmo com movimentos macro que impactam mais o curto prazo.”
Mesmo com a redução dos proventos, Marx Gonçalves, head de fundos listados do research da XP Investimentos, lembra que os FIIs de papel mais expostos ao CDI devem continuar apresentando rendimentos atrativos. Já os fundos atrelados ao IPCA não devem ter impactos diretos, explica, uma vez que eles são influenciados por um IPCA de curto prazo mais elevado por conta da alta da inflação provocada pela guerra no Irã.
Nos fundos de tijolo, a chance de o cenário mais benigno se concretizar não é trivial. O juro longo ainda está muito elevado e precisaria cair forte para beneficiar os FIIs, destaca Marcos Baroni, head de FIIs da Suno Research. Segundo ele, a alta de 4% do IFIX no ano reflete basicamente os rendimentos de dividendos do período, o que indicaria uma inércia das cotas. “Teríamos de considerar que os juros neste ano fechariam entre 12% e 12,5% e caminhando no ano que vem para 10,0% a 10,5% para ter um avanço mais consistente dos fundos imobiliários”.
Internacional: dólar fraco é bom ou ruim?
A Selic ainda atrativa para o estrangeiro deve manter o real forte, então o investidor terá que fazer um cálculo: o câmbio deve ajudar a comprar dólar mais barato, mas é preciso ter visão de longo prazo para vislumbrar ganhos nas aplicações internacionais. Ou seja, foco total na estratégia de diversificação, não de ganho com câmbio no curto prazo.
“O investidor abre mão de um juro alto e em um ambiente em que o câmbio se valoriza muito e continua se valorizando, então a atratividade para investir fora não está tão elevada”, alerta Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco.
“Estamos em processo de deterioração da dívida pública, mas a moeda se aprecia, muito pelos efeitos internacionais, e, talvez, passada a eleição, o tema fiscal volte e haja nova pressão de desvalorização cambial.”
Já para Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos, a valorização do real representa uma janela de alocação porque, no longo prazo, a moeda americana é mais forte. “O real é uma moeda emergente, muito dependente de commodities, que acaba sujeita a pressões de preços muito grandes”, diz.
Por isso o horizonte de investimento é importante, ressalta, Robson Ferreira, especialista em investimentos:
- no curto prazo, o câmbio é altamente volátil e difícil de prever pode gerar alguma perda em aplicaçoes internacionais;
- mas, no médio e longo prazos, a exposição a ativos internacionais e à moeda forte tende a fazer sentido como forma de diversificação e proteção patrimonial.
Ele cita os ETFs como uma alternativa acessível, com baixo custo e diversificação, permitindo exposição a diferentes mercados e setores. “São instrumentos úteis tanto para iniciantes quanto para investidores mais experientes”, diz.
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Atualmente, a Morningstar recomenda para crescimento, entre outros, os ETFs:
- Capital Group Growth ETF CGGR
- Natixis Loomis Sayles Focused Growth ETF LSGR
- Vanguard Growth Index Fund VUG
E, para valor, os ETFs:
- Fidelity Equity-Income K6 Fund FEKFX
- Hartford Multifactor US Equity ETF ROUS
- Invesco RAFI US 1000 ETF PRF





