Uma derrocada de quase 6% das ações da Vale (VALE3) na última quarta-feira (29) após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) levou a um questionamento sobre se a baixa das ações foi exagerada.
O lucro do 1T26 foi de US$ 1,9 bilhão no primeiro trimestre, alta de 36% em relação ao mesmo período do ano passado, com maiores volumes e preços de seus principais produtos, mas o que pesou mesmo na percepção do mercado foi a visão de altos custos.
O custo caixa C1 do minério de ferro, entretanto, subiu 12% na comparação anual, para US$23,6/tonelada, principalmente impactado pela apreciação do real frente ao dólar. Os custos all-in do minério de ferro ficaram em US$55,4/tonelada no trimestre, 8% maiores ano contra ano.
Em teleconferência, o vice-presidente executivo Comercial e Desenvolvimento da Vale, Rogério Nogueira, afirmou que a alta dos preços do petróleo e dos fretes marítimos em meio à guerra no Irã está elevando os custos globais de produção de minério de ferro, ameaçando a oferta de mineradoras menos competitivas e dando suporte aos preços da commodity. Ao falar em conferência online com investidores, o executivo disse que os custos médios na indústria cresceram em um intervalo entre US$ 5 e US$ 10 por tonelada.
Apesar da alta dos custos, analistas de mercado reiteraram visão positiva para os ativos.
Na véspera, antes da abertura do mercado, o JPMorgan apontou que os resultados foram ligeiramente do esperado, mas que compraria ações da Vale em caso de queda, destacando que não esperava grandes mudanças no consenso. O banco tem recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra).
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Em relatório no meio do pregão na última quarta para comentar a teleconferência da mineradora, o Bradesco BBI destacou que a queda das ações pós-balanço foi exagerada e reiterou recomendação “outperform” (desempenho acima da média, equivalente à compra).
Em primeiro momento, aumento de despesas para o minério de ferro, como os custos caixa C1 (valores da mina ao cliente e excluindo compras de terceiros) e os custos all in (representam todos os valores despendidos pela Vale desde a mina até o porto, sem considerar o frete) preocupou analistas e lançou dúvidas sobre a qualidade do balanço.
No entanto, para a casa, a administração conseguiu enfatizar que mesmo com pressões de custos os tetos das faixas de orientação (guidance) fornecidos pela empresa serão alcançados. “Além disso, vemos com bons olhos a visão construtiva da gestão sobre o mercado de minério de ferro e o posicionamento da companhia para capturar prêmios mais elevados. Do ponto de vista de alocação de capital, também avaliamos positivamente a confiança da administração na capacidade de pagar dividendos extraordinários e intensificar a execução de recompras”, ressaltou o BBI.
O BTG Pactual ressaltou o trimestre mais fraco da Vale, mas com impacto limitado na narrativa.
“Após uma sequência de desenvolvimentos positivos nos últimos trimestres, os números vieram menos empolgantes. Ainda assim, vale destacar o efeito negativo de fatores sazonais (chuvas, menor volume e menor diluição de custos fixos)”, apontou.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ficou 2% abaixo da sua estimativa, mas majoritariamente explicado por resultados mais fracos em metais básicos (VBM), refletindo ajustes de preços provisórios — por naturezas difíceis de modelar e não incorporados em sua prévia (cerca de US$ 140 milhões de impacto negativo). Em outras linhas, o FCF (fluxo de caixa livre) veio razoável, mas pressionado por consumo relevante de capital de giro, implicando um yield anualizado inferior a 5% (com tendência de melhora à frente).
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“Com os preços de commodities novamente próximos aos picos, normalização dos efeitos sazonais e a companhia bem protegida contra inflação de custos (inclusive ligada ao petróleo), entendemos que a tese de compra permanece intacta. Em termos de valuation, o papel já não parece tão descontado, mas ainda vemos espaço para re-rating adicional”, complementou o BTG, tendo recomendação de compra com preço-alvo de R$ 85 para os ativos.
Após o 1T26, o Morgan Stanley manteve recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra), seguindo com preço-alvo de US$ 19,50 por ADR (recibo de ações negociado na Bolsa de Nova York).
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O banco projeta um Ebitda ajustado de US$ 4,677 bilhões no 2T26 (+14,1% em relação à previsão anterior), US$ 18,181 bilhões em 2026 (+7,5%), US$ 18.066 bilhões em 2027 (-1,4%) e US$ 18.930 bilhões em 2028 (-0,6%).
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“Classificamos a Vale como overweight, pois vemos um perfil de risco-retorno atraente, impulsionado por uma alocação de capital disciplinada, melhorias operacionais no negócio de minério de ferro e opções de crescimento atrativas no cobre. Embora as ações estejam sendo negociadas em linha com seus múltiplos médios de P/L [preço sobre lucro] e EV (valor da firma)/Ebitda deprimidos dos últimos 10 anos, elas estão descontadas com base no percentual de FCF (fluxo de caixa livre), e vemos um sólido potencial de valorização em relação ao nosso preço-alvo”, aponta.
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Por outro lado, após o balanço, XP Investimentos e Genial mantiveram recomendação equivalente a neutra para os ativos. Contudo, a XP segue relativamente mais atrativo versus os pares globais, o que ainda pode dar algum momentum para as ações, particularmente em momentos de entrada de fluxo estrangeiro em ações brasileiras.
A Genial também tem recomendação de manutenção para os ativos, com preço-alvo de R$ 90. “Nossa postura permanece inalterada, embora o equilíbrio de oferta/demanda do minério de ferro esteja parecendo menos baixista do que nossas premissas anteriores implicavam”, avalia.
De acordo com compilação de análises feita pela LSEG, o mercado se mostra dividido sobre VALE3, com 8 recomendações de compra e 7 de manutenção entre 15 casas consultadas. O preço-alvo médio é de R$ 89,20, um valor 12,3% maior em relação ao fechamento de quarta.
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