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Mercado esfria após estreia da Compass na Bolsa e adia retomada de IPOs


O mercado se animou com o IPO da Compass, que encerrou no começo de maio um jejum de cinco anos na B3 e captou R$ 3,2 bilhões. Mas a ação cai 3% desde a estreia e nenhuma outra empresa anunciou planos de abertura de capital desde então.

Parte da resposta está no comportamento do investidor estrangeiro, que retirou R$ 11,8 bilhões da Bolsa apenas neste mês, reagindo a ruídos da guerra no Irã, ao adiamento da queda dos juros locais e à incerteza política.

Com isso, apesar de muitas empresas estarem se preparando para ingressar na bolsa, a retomada mais consistente dos IPOs pode demorar. Segundo agentes de mercado, no entanto, os gatilhos estão numa combinação de fatores que está no horizonte.

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Os gatilhos

“Não vai ter IPO agora, por conta da volatilidade, mas quando o mercado tiver uma leitura melhor do que vai ser inflação, velocidade do corte de juros, resolução da guerra e cenário político, se tem segunda via ou se o governo atual vai acenar com medidas fiscais, volta a possibilidade de novas aberturas de capital”, explica George Costa e Silva, diretor do Bradesco BBI responsável pela área de mercado de capitais e renda variável.

Ainda assim, ele mantém o otimismo. “A volatilidade que vemos agora é passageira, temos mercado para a retomada dos IPOs porque conseguimos atrair investidores de qualidade, especialmente estrangeiros, como ficou claro na oferta da Compass”, diz.

A queda dos juros tem papel duplo nessa equação, pois estimula a migração da renda fixa para a variável e amplia o interesse estrangeiro pelo Brasil, cuja participação no MSCI Emergentes, índice de referência dos investidores globais, caiu muito nos últimos anos.

“Os estrangeiros ganharam muito dinheiro na bolsa brasileira do ano passado para cá, é normal que vendam um pouco para aproveitar a queda das ações de tecnologia nos Estados Unidos ou para participar das grandes ofertas de ações como SpaceX”, afirma. “Mas o importante é que esses fundos que entraram na Compass, esse dinheiro de longo prazo, continua vindo, e tem espaço para o estrangeiro estar mais posicionado em Brasil, e vai estar”, acrescenta.

Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore, considera o IPO da Compass um sinal positivo para a reabertura da janela, mas ainda não uma retomada consistente. Para ele, a operação funciona mais como um teste de apetite do mercado. “Se a oferta tiver boa performance no pós-IPO, condições de mercado e ambiente político forem construtivos, poderia ajudar a destravar outras empresas de porte e histórico relevantes que já estejam preparadas, mas aguardando uma janela mais favorável”, diz.

Essa janela, comenta, pode surgir quando houver queda mais clara da curva de juros, melhora da percepção de risco, maior fluxo de capital estrangeiro e valuations que façam sentido para as duas partes, mas a queda da bolsa e a recente saída de estrangeiros podem reduzir o apetite por IPOs no curto prazo.

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Quando IPOs devem voltar – e quais?

Costa e Silva espera que os IPOs voltem em duas ondas. A primeira é formada por grandes empresas, mais conhecidas, de setores como financeiro, infraestrutura e elétrico, com captações acima de R$ 3 bilhões. Em seguida, quando houver cenário político mais definido, juros em queda e maior participação do investidor local, haverá espaço para empresas e IPOs menores, com valores em torno de R$ 1,5 bilhão.

O cenário mais provável, para ele, é de uma retomada dos grandes IPOs antes do fim do ano, com o fim da guerra e o cenário eleitoral definido, e a segunda onda no primeiro semestre de 2027, depois que o novo governo assumir e definir sua política econômica. “Claro que isso pode mudar, se tivermos soluções para essas incertezas, podemos ter novas ofertas já nos próximos meses”, diz. “Temos nomes muito bons para fazer IPOs, tem bancos olhando, outras empresas do setor financeiro, infraestrutura olhando”, afirma.

As primeiras empresas a buscar o mercado devem ser as mais maduras, rentáveis, com boa governança, geração de caixa previsível e tese clara de crescimento, avalia Wainstein. Setores com teses mais defensivas ou estruturais, como infraestrutura, energia, saneamento e utilities, têm maior potencial para liderar essa reabertura. “São segmentos que tendem a atrair mais atenção por terem maior previsibilidade de receita”, diz.

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Para o investidor, Wainstein avalia que os IPOs permitem acessar novas empresas, setores e teses de crescimento que ainda não estão disponíveis na bolsa, mas que é importante avaliar caso a caso. Preço, governança, liquidez, endividamento e uso dos recursos captados são pontos essenciais para determinar se a oferta representa uma boa oportunidade.

O histórico recente reforça essa cautela, e um estudo de Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta, ilustra bem o ponto. Dos 66 IPOs feitos em 2020 e 2021 cujas empresas ainda permanecem na bolsa, apenas 20 tinham retorno positivo e somente 9 superavam o Ibovespa. Dos 46 com perda, 32 tinham queda superior a 50%, com Sequoia (SEQL3) evaporando 99,99% e Cury (CURY3) liderando as altas com 444,58%, ou 363,67% acima do índice.



FONTE

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