Pedro Kirilos/Estadão
Flávio Bolsonaro tentou esconder sua ligação direta com Daniel Vorcaro, mas não conseguiu: ex-banqueiro deve delatar o presidenciável do PL
As mensagens em que o pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro não alteraram a lógica de polarização que deve marcar mais uma disputa presidencial.
No entanto, tiveram um impacto relevante sobre sua candidatura: abalaram a credibilidade que o senador vinha construindo junto ao eleitorado independente, considerado por especialistas em opinião pública o fiel da balança desta eleição.
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É o que mostram duas pesquisas qualitativas realizadas pela Genial/Quaest em maio, às quais o Estadão teve acesso com exclusividade.
Uma delas acompanha, desde agosto do ano passado, os mesmos 20 eleitores independentes.
A outra reúne cinco grupos focais das diferentes regiões brasileiras, com o mesmo perfil.
Os dois estudos apontam na mesma direção: as revelações sobre o financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro afastaram eleitores independentes que vinham se aproximando de Flávio Bolsonaro e os levaram novamente para mais perto de Lula.
O movimento foi reforçado pela boa repercussão de iniciativas recentes do governo federal.
Nas duas dinâmicas, alguns dos entrevistados que cogitavam votar em Flávio para “tirar o PT do poder”, mas ainda não estavam totalmente convencidos da escolha, passaram a se declarar indecisos no primeiro turno.
Outros voltaram a citar Lula como uma opção mais segura na disputa polarizada, embora mantivessem críticas ao seu governo e ao próprio presidente.
ÁUDIO AFASTA IMAGEM DE MODERADO – O áudio em que Flávio cobra do dono do Master pagamentos milionários foi descrito por eleitores que não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo como uma “decepção” e uma “pouca vergonha”.
“(O áudio) foi uma bomba para mim. Só comprova que a gente precisa pensar muito antes de votar”, disse um eleitor independente da região Sudeste.
Outro entrevistado, morador de Santa Catarina — Estado em que o bolsonarismo tem bom desempenho eleitoral —, afirmou que tinha planos de votar em Flávio, mas agora vai repensar sua decisão.
“No Brasil, a gente se surpreende a cada dia e tem cada vez menos certeza do que vai decidir. Quando acha que vai para um lado, surge uma notícia. A princípio eu ia votar no Flávio, mas, depois desse áudio vazado, a gente não tem mais em quem acreditar”, diz o catarinense. Na opinião ele, é difícil não imaginar que exista “alguma coisa por trás” do repasse do banqueiro ao filme. “Não tem como defender (o Flávio)”, sustentou.
As pesquisas qualitativas sugerem que o caso abalou alguns dos pilares de imagem que Flávio vinha construindo.
Entre os eleitores independentes, perdeu força especialmente a percepção de que o senador representa uma alternativa moderada, renovadora e antissistema, segundo a Quaest.
“PEGO NA MENTIRA” – Mais do que o conteúdo do áudio, os participantes demonstraram incômodo com a forma como o senador lidou com o episódio, inicialmente negando sua relação com Vorcaro.
Nos grupos focais, a sequência dos acontecimentos reforçou a percepção de que Flávio é desonesto e trouxe à memória controversas anteriores envolvendo o senador e sua família, como o caso das rachadinhas e a suposta ligação com milicianos.
“Por que não falou logo sobre a relação com o Vorcaro? Então estava mentindo…”, questionou um eleitor independente.
Uma eleitora do Paraná, que também não se alinha nem a Lula nem a Bolsonaro, afirmou que o episódio “queimou o filme” do senador e poderia ter sido evitado. “Ele já sabia que isso podia acontecer. Sabia que não estava imune.”
A visita do senador a Vorcaro, por sua vez, foi recebida com desconfiança.
“Você não vai visitar alguém preso se não for uma pessoa próxima ou se não tiver algum negócio sólido com ela. Impacta no meu voto, sim. É mais um motivo para eu não votar nele”, afirmou uma eleitora de Porto Alegre.
“Parte desse eleitor que depositou em Flávio uma esperança de renovação na política, de rompimento com práticas do que eles denominam como a velha política, ficou muito frustrada ao ouvir o áudio”, afirma Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest.
“O episódio fez com que, para esse eleitor independente, o Flávio Bolsonaro perdesse o discurso de combate à corrupção e se igualasse a Lula nesse quesito. Com isso, o eleitor independente passou, em vez de olhar para a corrupção como algo que diferencia, a comparar as entregas e as propostas de cada candidato.”
A especialista da Quaest pondera que o cenário não é imutável, já que o eleitor independente se movimenta de acordo com os acontecimentos da campanha e não tem fidelidade a nenhum candidato nem uma avaliação definitiva sobre eles.
DESGASTE, FIM DA ESCALA E DESENROLA AJUDAM LULA – O caso Dark Horse ajudou Lula a recuperar terreno entre os eleitores independentes, mas a reaproximação também foi impulsionada por iniciativas do governo bem avaliadas por esse segmento.
Nos grupos focais, participantes elogiaram a possibilidade de limpar o nome e fugir do que consideram “juros abusivos” com o Desenrola 2.0., embora parte afirme que a iniciativa é uma resposta do governo a um problema que ele próprio criou.
Já em relação à proposta que acaba com a escala 6×1, houve ampla adesão no grupo, que criticou Flávio por se opor à ideia em um primeiro momento.
“A briga está feia sobre a redução da escala 6×1. Eu estava vendo uma entrevista do Flávio Bolsonaro, que eu acho que ele é contra isso, falando que vai ter desemprego. Eu acho que vai dar é mais emprego porque vai abrir mais vaga. Acho que é porque ele nunca trabalhou de CLT, então não sabe como é a vida do trabalhador”, afirmou um eleitor do Amazonas.
Outro, do Rio Grande do Sul, foi na mesma direção: “Eu acho que ele se queimou com o negócio da pauta da redução da escala 6×1 e com o financiamento do filme. Ele estava indo bem, mas agora ele deu uma rateada e deu liberdade para o Lula passar ele”.
Luciana Andrade afirma que a redução de jornada de 44 para 40 horas semanais tem demonstrado forte apelo entre os eleitores independentes e chegou a influenciar a intenção de voto de uma participante no grupo de 20 pessoas que a Quaest acompanha mensalmente.
“O que a gente vê é uma avaliação mais pragmática desse eleitor, que busca soluções não apenas para o bolso, mas para a qualidade de vida. Uma participante que pretendia votar em Flávio no segundo turno por uma questão de renovação e mudança passou a apoiar Lula por acreditar que ele será capaz de levar adiante a redução da jornada.”
Também repercutiu favoravelmente o encontro de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Entre os independentes, o gesto foi interpretado como uma demonstração de pragmatismo político e uma tentativa do petista de defender a soberania brasileira e estimular a agenda econômica entre os dois países .
A pesquisa, porém, foi realizada antes de os Estados Unidos decidirem classificar os grupos criminosos Primeiro Comando da Capital(PCC) e Comando Vermelho(CV) como organizações terroristas globais e antes de o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propor a aplicação de uma tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros.
Se, por um lado, os eleitores independentes demonstram hoje mais disposição para votar em Lula do que em Flávio Bolsonaro, por outro, continuam acumulando críticas ao governo e avaliam que o presidente não foi capaz, neste terceiro mandato, de melhorar a vida do trabalhador.
“Em comparação aos dois governos anteriores, esse deixou a desejar bastante. Ele (Lula) culpa o Bolsonaro e não faz as coisas. Ele tinha que fazer, mostrar serviço. Me desapontei. Pode ser porque ele pegou o Brasil endividado, pode ser que piorou um pouco as coisas, mas deixou a desejar”, afirmou um leitor independente do Norte.
Segundo Luciana Andrade, a queixa é ampla: o eleitor independente relata nas pesquisas que não viu sua condição de vida melhorar na atual gestão.
“Especialmente os eleitores com mais de 35 anos lembram que, nos governos Lula 1 e 2, tiveram ganho de poder de compra e ascensão social. Hoje, o custo do básico consome uma parcela tão grande da renda que, mesmo quando ela aumenta, o status social não muda. A expectativa de que o Lula 3 trouxesse uma melhora de vida não se confirmou. Em todo os grupos sociais a promessa da picanha na mesa é citada. A picanha virou o símbolo dessa decepção”, diz a especialista, acrescentando que esse o sentimento que anula qualquer dado positivo de desemprego ou PIB que o governo tente apresentar.




