Início NACIONAL Sob desmandos de Trump, Copa do Mundo começa cercada por polêmicas dentro...

Sob desmandos de Trump, Copa do Mundo começa cercada por polêmicas dentro e fora de campo – CartaCapital


A bola começa a rolar nesta quinta-feira 11, mas a Copa do Mundo de 2026 já entrou para a história pelos motivos errados. Antes mesmo da partida de abertura entre México e África do Sul, no Estádio Azteca, às 16h, o torneio já está marcado por deportações, vistos negados, revistas rigorosas a delegações, protestos no México, preços recordes de ingressos e pela presença de uma seleção iraniana cujo país está sob bombardeio dos Estados Unidos, um dos anfitriões da competição.

O estádio Azteca, no México, foi o cenário onde o Brasil de Pelé, Jairzinho e Tostão conquistou o tricampeonato em 1970 e a Argentina de Maradona levantou a taça em 1986. Foto: Carl de Souza/AFP

Poucas vezes uma Copa do Mundo começou tão atravessada por questões políticas quanto a edição organizada por EUA, México e Canadá. Em vez da tradicional celebração da integração entre povos que costuma acompanhar os discursos da Fifa, os dias que antecederam a abertura foram marcados por relatos de interrogatórios em aeroportos, endurecimento de controles migratórios, restrições a torcedores estrangeiros e uma crescente preocupação com os efeitos da política implementada pelo presidente norte-americano Donald Trump.

O episódio que melhor simboliza esse cenário envolveu o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Considerado um dos principais juízes do futebol africano e eleito árbitro do ano pela Confederação Africana de Futebol em 2025, ele havia sido selecionado pela Fifa para atuar no Mundial e poderia se tornar o primeiro somali da história a apitar uma partida de Copa do Mundo.

Nada disso foi suficiente. Mesmo portando visto diplomático válido, Artan teve sua entrada barrada pelas autoridades americanas ao desembarcar em Miami. Dias depois, a própria Fifa confirmou sua exclusão do quadro de arbitragem da competição. O governo Trump afirmou posteriormente que a decisão estaria relacionada a supostas informações de segurança envolvendo pessoas investigadas por terrorismo. O árbitro, porém, afirmou não ter recebido explicações concretas e declarou acreditar que o problema está relacionado ao seu país de origem.

O caso provocou repercussão internacional e colocou a Fifa numa posição desconfortável. Questionado sobre o episódio na quarta-feira 10, o presidente da entidade, Gianni Infantino, classificou o ocorrido como “lamentável”, mas procurou afastar a responsabilidade da organização. “Não controlamos tudo”, afirmou. Em outro momento, declarou que a Fifa “não é dona do mundo” e não pode determinar as ações de governos ou forças policiais.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino. Foto: Alfredo Estrella/AFP

As declarações não encerraram as críticas. Afinal, o episódio ocorreu justamente em uma competição que a própria Fifa costuma apresentar como um símbolo de inclusão global.

O caso de Artan não foi isolado. Nas semanas que antecederam o início do torneio, diferentes delegações relataram procedimentos de segurança considerados excessivos em território norte-americano. A seleção do Uzbequistão denunciou que seus integrantes foram submetidos a inspeções completas de bagagem, revistas com cães farejadores e longos períodos de espera para liberação. O técnico da equipe, o italiano Fabio Cannavaro, campeão como jogador em 2006, afirmou nunca ter passado por situação semelhante.

A Bélgica também foi submetida a revistas detalhadas na chegada aos Estados Unidos. Imagens compartilhadas nas redes sociais mostraram jogadores sendo examinados com detectores de metal até mesmo nos calçados. Integrantes da delegação do Senegal passaram por procedimentos semelhantes, em cenas que rapidamente ganharam repercussão internacional.

Jogadores da Bélgica, como De Bruyne, tiveram até os pés revistados. Foto: Reprodução redes sociais

O atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a cerca de sete horas de interrogatório antes de receber autorização para entrar no país. Já um fotógrafo da seleção do Iraque teve destino diferente e acabou deportado para Bagdá.

Os episódios ocorrem em meio ao endurecimento da política migratória promovida pela Casa Branca. Desde a volta de Trump ao poder, os Estados Unidos ampliaram restrições de entrada para dezenas de nacionalidades e endureceram critérios para emissão de vistos. Em alguns casos, visitantes vindos de países considerados de “risco” chegaram a ser obrigados a apresentar depósitos de até 15 mil dólares como garantia de retorno após o torneio.

Na prática, isso significou a exclusão de milhares de torcedores. Países como Haiti, Somália e Irã enfrentaram enormes dificuldades para obter vistos, contrariando promessas históricas da própria Fifa de que todas as nações participantes teriam acesso garantido ao Mundial.

Situação do Irã

Nenhuma situação, porém, expõe tanto as contradições desta Copa quanto a do Irã. Enquanto a seleção do país disputará partidas em território americano, seu país vive uma escalada militar com Washington.

Na terça-feira 9 e na quarta-feira 10, os Estados Unidos realizaram bombardeios contra alvos iranianos após acusarem Teerã de derrubar um helicóptero Apache na região do Estreito de Ormuz. O governo iraniano respondeu com ataques contra instalações militares americanas no Oriente Médio, aprofundando uma crise que já vinha se agravando nos últimos meses.

O conflito impactou diretamente a participação iraniana no Mundial. A delegação precisou transferir sua base de preparação dos Estados Unidos para o México. Dirigentes tiveram vistos negados pelas autoridades americanas e a Federação Iraniana denunciou que a Fifa revogou a cota de ingressos destinada aos torcedores do país para os jogos da fase de grupos.

Poucos iranianos poderão acompanhar os jogos de sua seleção na Copa – foto: Guillermo Arias / AFP

A medida afetou não apenas pessoas residentes no Irã, mas também integrantes da diáspora iraniana que vivem legalmente nos Estados Unidos e esperavam acompanhar a seleção durante a competição.

Protestos no México

Se os Estados Unidos vivem tensões ligadas à imigração e à política internacional, o México também chega à abertura em clima de contestação social.

Nos dias que antecederam a estreia da Copa, professores organizaram protestos em diferentes regiões da Cidade do México. Moradores denunciaram impactos das obras realizadas para o torneio e comerciantes reclamaram de prejuízos provocados pelas mudanças urbanas e pelos bloqueios.

A principal reivindicação dos professores mexicanos é a retomada das aposentadorias públicas para a categoria, Foto: Yuri Cortez/AFP

Na tarde de quarta-feira, o presidente Lula (PT) telefonou para a presidente do México, Claudia Sheinbaum. O petista demonstrou preocupação quanto aos protestos e disse que o país pode estar passando pelo mesmo processo que o Brasil passou em junho de 2013: quando manifestações por uma causa simples (o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo, à época) se tornou um grande estopim para a extrema-direita tomar as ruas e o poder, segundo o presidente. Ainda conforme Lula, um “agente de outro país” pode estar envolvido.

Ingressos

Também não faltam críticas ao modelo comercial adotado pela Fifa. A edição de 2026 já é considerada uma das mais caras da história para os torcedores. Com a adoção do sistema de preços dinâmicos, os valores passaram a variar de acordo com a demanda. Em alguns casos, ingressos ultrapassaram a marca de 10 mil dólares. Assentos para a final chegaram a ser anunciados por até 690 mil dólares.

Entidades de defesa do consumidor e organizações de torcedores acusam a Fifa de transformar a Copa em um produto cada vez mais elitizado e distante do público popular que ajudou a construir a história do futebol.

Torcedora usa chapéu mexicano antes da abertura da Copa do Mundo 2026. Foto: Alfredo Estrella/AFP

Assim, quando México e África do Sul entrarem em campo para abrir oficialmente a competição, a Copa do Mundo de 2026 já terá deixado sua marca. Não apenas pelo faturamento e tamanho, mas por ter transformado questões de imigração, guerra, desigualdade e política internacional em personagens centrais de um torneio que deveria ser lembrado apenas pelo futebol.

Quando a bola rolar, a Copa do Mundo de 2026 já entra para a história como uma das edições mais controversas da era moderna do futebol.

Jogos da primeira fase (horários de Brasília)

GRUPO A

México x África do Sul — 11/06, 16h
Coreia do Sul x República Tcheca — 11/06, 23h

República Tcheca x África do Sul — 18/06, 13h
México x Coreia do Sul — 18/06, 22h

África do Sul x Coreia do Sul — 24/06, 22h
República Tcheca x México — 24/06, 22h

GRUPO B

Canadá x Bósnia e Herzegovina — 12/06, 16h
Catar x Suíça — 13/06, 16h

Suíça x Bósnia e Herzegovina — 18/06, 16h
Canadá x Catar — 18/06, 19h

Suíça x Canadá — 24/06, 16h
Bósnia e Herzegovina x Catar — 24/06, 16h

GRUPO C

Brasil x Marrocos — 13/06, 19h
Haiti x Escócia — 13/06, 22h

Escócia x Marrocos — 19/06, 19h
Brasil x Haiti — 19/06, 21h30

Marrocos x Haiti — 24/06, 19h
Escócia x Brasil — 24/06, 19h

GRUPO D

Estados Unidos x Paraguai — 12/06, 22h
Austrália x Turquia — 14/06, 1h

Estados Unidos x Austrália — 19/06, 16h
Turquia x Paraguai — 20/06, 1h

Turquia x Estados Unidos — 25/06, 23h
Paraguai x Austrália — 25/06, 23h

GRUPO E

Alemanha x Curaçao — 14/06, 14h
Costa do Marfim x Equador — 14/06, 20h

Alemanha x Costa do Marfim — 20/06, 17h
Equador x Curaçao — 20/06, 21h

Equador x Alemanha — 25/06, 17h
Curaçao x Costa do Marfim — 25/06, 17h

GRUPO F

Holanda x Japão — 14/06, 17h
Suécia x Tunísia — 14/06, 23h

Holanda x Suécia — 20/06, 14h
Tunísia x Japão — 21/06, 1h

Tunísia x Holanda — 25/06, 20h
Japão x Suécia — 25/06, 20h

GRUPO G

Bélgica x Egito — 15/06, 16h
Irã x Nova Zelândia — 15/06, 22h

Bélgica x Irã — 21/06, 16h
Nova Zelândia x Egito — 21/06, 22h

Egito x Irã — 27/06, 0h
Nova Zelândia x Bélgica — 27/06, 0h

GRUPO H

Espanha x Cabo Verde — 15/06, 13h
Arábia Saudita x Uruguai — 15/06, 19h

Espanha x Arábia Saudita — 21/06, 13h
Uruguai x Cabo Verde — 21/06, 19h

Cabo Verde x Arábia Saudita — 26/06, 21h
Uruguai x Espanha — 26/06, 21h

GRUPO I

França x Senegal — 16/06, 16h
Iraque x Noruega — 16/06, 19h

França x Iraque — 22/06, 18h
Noruega x Senegal — 22/06, 21h

Senegal x Iraque — 26/06, 16h
Noruega x França — 26/06, 16h

GRUPO J

Argentina x Argélia — 16/06, 22h
Áustria x Jordânia — 17/06, 1h

Argentina x Áustria — 22/06, 14h
Jordânia x Argélia — 23/06, 0h

Jordânia x Argentina — 27/06, 23h
Argélia x Áustria — 27/06, 23h

GRUPO K

Portugal x RD Congo — 17/06, 14h
Uzbequistão x Colômbia — 17/06, 23h

Portugal x Uzbequistão — 23/06, 14h
Colômbia x RD Congo — 23/06, 23h

RD Congo x Uzbequistão — 27/06, 20h30
Colômbia x Portugal — 27/06, 20h30

GRUPO L

Inglaterra x Croácia — 17/06, 17h
Gana x Panamá — 17/06, 20h

Inglaterra x Gana — 23/06, 17h
Panamá x Croácia — 23/06, 20h

Croácia x Gana — 27/06, 18h
Panamá x Inglaterra — 27/06, 18h



FONTE

Google search engine