Marcio Ishizuka
Mauro Mendes e Virgínia, durante lançamento de pré-campanha ao Senado, na última terça-feira
A semana que deveria marcar exclusivamente o início da caminhada de Mauro Mendes (União Brasil) rumo ao Senado acabou transformando-se no primeiro grande teste político de sua pré-campanha.
Em menos de 48 horas, o ex-governador passou de protagonista de um grande ato político em Cuiabá a alvo de uma investigação sigilosa no Superior Tribunal de Justiça (STJ), revelada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
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Na terça-feira (23), Mendes reuniu mais de uma centena de prefeitos, deputados, secretários estaduais, lideranças partidárias e representantes do setor produtivo para lançar oficialmente sua pré-candidatura ao Senado.
O evento também apresentou a ex-primeira-dama Virginia Mendes como pré-candidata à Câmara dos Deputados e simbolizou o início da nova fase política do grupo após sua desincompatibilização do Governo de Mato Grosso, em março.
No discurso, Mauro apostou no legado dos sete anos e três meses à frente do Executivo estadual.
Destacou obras de infraestrutura, recuperação das finanças públicas, duplicação da BR-163, construção de hospitais e investimentos em todas as regiões do Estado.
Também afirmou iniciar a disputa com o apoio de mais de 100 prefeitos e procurou apresentar uma agenda nacional voltada à revisão da legislação, à eficiência do Estado e a mudanças no sistema de Justiça.
O ex-governador ainda aproveitou o evento para reforçar o apoio ao governador Otaviano Pivetta (Republicanos), defender que o candidato ao governo tenha autonomia para escolher seu vice e colocar um ponto final nas disputas internas do União Brasil, afirmando que apenas a convenção partidária decidirá quem disputará o Palácio Paiaguás pela legenda, descartando qualquer prévia ou antecipação da escolha.
A estratégia era clara: transformar os elevados índices de aprovação conquistados ao deixar o governo em capital político para a disputa ao Senado.
Mas o roteiro mudou na manhã seguinte.
Na quarta-feira (24), a coluna de Malu Gaspar revelou que o STJ abriu investigação, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), para apurar suposto favorecimento ao Banco Master no credenciamento do Credcesta, modalidade de cartão-benefício consignado destinada aos servidores públicos estaduais.
Segundo a publicação, a investigação questiona a rapidez com que o Banco Master obteve autorização para operar o programa após a edição de um decreto estadual que criou uma margem consignável específica para esse tipo de operação.
A reportagem também relacionou o caso à presença de Mauro Mendes em Nova York, em maio de 2023, quando participou de um evento empresarial no mesmo período em que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, organizou um jantar para o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).
Embora a própria reportagem destaque que Mauro Mendes não é citado nos trechos do relatório da Polícia Federal sobre Cláudio Castro nem seja mencionado como beneficiário de qualquer pagamento realizado por Vorcaro, a informação sobre a existência da investigação alterou completamente o ambiente político em Mato Grosso.
A revelação produziu forte repercussão justamente no momento em que o ex-governador buscava consolidar sua imagem como principal nome da base governista para o Senado.
A reação foi imediata.
No mesmo dia, Mauro Mendes negou qualquer irregularidade e afirmou que todos os atos de sua gestão observaram a legalidade.
Sustentou que o Banco Master foi apenas uma entre 24 instituições financeiras credenciadas pelo Estado, que sequer foi a primeira a obter autorização e que programas semelhantes já existiam em diversos estados brasileiros.
Dois dias depois, voltou às redes sociais para endurecer o discurso.
Classificou a divulgação da investigação como uma ação de natureza eleitoral e afirmou que um “comitê da maldade” teria sido ativado logo após o lançamento de sua pré-candidatura ao Senado.
No vídeo, voltou a defender a legalidade do processo de credenciamento, lembrou que a ampliação da margem consignável foi proposta pela Assembleia Legislativa, afirmou que 24 bancos foram habilitados para operar no Estado e questionou onde estaria o suposto favorecimento ao Banco Master.
Também reiterou que nunca participou de jantar privado com Daniel Vorcaro em Nova York, afirmando que pagou integralmente suas despesas e que jamais manteve qualquer relação com o empresário.
Do ponto de vista político, a semana produziu dois fatos distintos.
O primeiro consolidou Mauro Mendes como principal liderança da base governista para a disputa ao Senado, respaldado por um amplo arco de apoio político e pelo legado administrativo de oito anos à frente do Executivo.
O segundo abriu um novo capítulo em sua trajetória eleitoral.
Embora a investigação ainda tramite sob sigilo, sem denúncia ou acusação formal, ela passa a integrar o debate político justamente no momento em que a campanha começa a ganhar as ruas.
Assim, a semana que seria lembrada apenas pelo lançamento da pré-candidatura acabou marcando também o início de uma disputa que tende a combinar o capital político acumulado por Mauro Mendes com o desgaste provocado pelo avanço das investigações relacionadas ao programa Credcesta.





