Se a Receita Federal do Brasil e o Tribunal Superior Eleitoral firmassem um convênio verdadeiramente sério para cruzamento e compartilhamento de dados, a quantidade de políticos – candidatos e eleitos – que teriam de se explicar a um ou a outro órgão faria com que concursos para contratação imediata de novos servidores se tornassem urgentes.
Não vou nominar ou fulanizar os casos. A um porque, no país, a segurança jurídica é tão sólida quanto gelatina de framboesa sob o sol, e mera análise factual poderia acabar se tornando uma ação criminal. Pior. Vai que o “ofendido” é amigo dos capas pretas. A dois porque o Google está aí para nos auxiliar e facilitar a vida de todos.
Uma pesquisa rápida irá esclarecer ao leitor que ainda não compreendeu. Digite “fulano de tal + declaração de bens TSE + patrimônio + Polícia Federal”. Em seguida, estoure um pacote de pipoca e divirta-se. Digo, passe raiva. Uma lista de picaretas irá saltar aos olhos. Gente que declara patrimônio de 10 mil reais e que, na verdade, tem 10 milhões para cima.
Quem nasceu primeiro
A sonegação de impostos no Brasil é praticamente um traço cultural. Como o paradoxo da galinha e do ovo, não se sabe quem veio primeiro: se a sanha arrecadatória do Estado, para distribuir a riqueza alheia confiscada entre os seus, ou a avareza de quem ganha mais e não quer contribuir com a organização e infraestrutura estatais.
Sim. Eu sei. No mundo inteiro ninguém gosta de pagar impostos, mas em sociedades desenvolvidas em que o coletivo importa, a arrecadação e o manuseio de impostos são levados a sério, tanto que sonegar ou se apropriar indevidamente do dinheiro arrecadado são crimes pesados. Em Banânia, nem um nem outro costuma render grandes punições.
A própria família Bolsonaro é um caso. Os caras declaravam ninharias patrimoniais, mas a multiplicação dos pães por lá é real. Imóveis comprados e vendidos – em parte com dinheiro vivo – fizeram a alegria dos cofres dos patriotas. Não à toa Flavinho Rachamaster Tarantino Wonka morar em mansão e Dudu Bananinha curtir a vida adoidado nos EUA.
Porta da esperança
Para não me acusarem de ser comunista, socialista, marxista e sei lá quantos “istas” mais, vou lembrar aqui do caso envolvendo a “alma mais honesta desse país”, que tinha sítio, que não era dela; tríplex, que não era dela; filha morando no exterior em imóvel que não era dela. Mas estes dois exemplos são parcos diante da miríade de casos similares.
A verdade é que, no Brasil, enriquecer na política virou quase uma etapa natural da carreira pública. O sujeito entra pela porta da frente carregando uma declaração de bens modesta e, anos depois, sai dono de imóveis, fazendas, empresas, aplicações e uma coleção de explicações criativas que fariam inveja aos maiores escritores de ficção.
Já o cidadão comum, o otário contribuinte – ou contribuinte otário -, aquele que não tem foro privilegiado, sobrenome poderoso e amizade nos gabinetes certos de Brasília, sabe o que acontece se esquecer uma mísera vírgula no Imposto de Renda. A navalha fina da malha fina cortará fundo na sofrida carne.





