A suspensão das visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao pai motiva comparações entre as prisões de Lula, por corrupção, e de Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.
Os bolsonaristas têm chamado atenção para o fato de que o petista pôde se comunicar de dentro da cadeia, na carceragem da Polícia Federal de Curitiba. O Instituto Lula fez até um compilado de das entrevistas concedidas enquanto esteve preso.
As redes sociais do petista seguiram ativas e ele recebia visitas de aliados, como Fernando Haddad, que concorreu à Presidência da República contra Bolsonaro em 2018 no lugar de Lula, e usou o mesmo subterfúgio de Flávio para ter acesso livre à cadeia, ao se tornar advogado do condenado.
Mas Bolsonaro está em casa, enquanto Lula permaneceu preso em um estado diferente daquele onde morava, e em regime fechado. Nesse caso, o ex-presidente parece estar em melhores condições — o benefício da prisão domiciliar humanitária já vinha sendo criticado pelos lulistas.
Desafio à Justiça
Bolsonaro não teve, contudo, o benefício concedido a Lula de discursar para uma multidão de seguidores antes de se entregar às autoridades em Curitiba.
O petista praticamente escolheu o momento de se apresentar à polícia e, antes disso, reuniu centenas de apoiadores em São Bernardo (SP), para desafiar apoteoticamente a ordem de prisão.
Além disso, ele desafiou a Justiça mais uma vez, ao sustentar sua candidatura à Presidência mesmo preso. Bolsonaro não ousou ir tão longe e indicou logo seu filho mais velho para concorrer.
Há uma sutil diferença entre os dois casos, pois Lula não chegou a ser condenado em última instância, como o adversário, mas estava claro que ele não poderia ser candidato em 2018.
Outro benefício concedido a Lula e negado a Bolsonaro é a mobilização de apoiadores próximo ao local de prisão. Enquanto a prisão do petista foi marcada pelo acampamento Lula Livre (foto), ponto de peregrinação política e de manifestações contra sua prisão, os bolsonaristas não podem chegar nem perto do condomínio de Bolsonaro sem provocar uma decisão de Alexandre de Moraes.
O ex-presidente foi preso preventivamente na Superintendência da Polícia Federal por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) antes mesmo de ser condenado, em novembro de 2025, após a convocação de uma vigília próxima a sua casa.
Contexto
Os contextos das prisões de Lula e Bolsonaro ajudam a entender algumas dessas diferenças.
Moraes lida com o ex-presidente a partir da perspectiva de que ele liderou uma tentativa de golpe de Estado, o que transforma qualquer manifestação sua em potencial ameaça à democracia.
Já Lula se beneficiou de seu prestígio popular — inclusive entre a elite intelectual do país —, para sustentar o discurso de injustiçado num caso de corrupção comandado por um juiz de primeira instância, que não tinha o poder definitivo de um ministro do Supremo.
A narrativa lulista acabaria embasando a derrubada de toda a Operação Lava Jato pelo STF.
Que os apoiadores do dois estejam hoje debatendo quem ficou preso em melhor ou pior condição é mais um sinal da tragédia política vivida pelo Brasil nos últimos anos.
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