Início GERAL Heritage coloca Pivetta entre manter Garcia ou afastar União no 1º turno

Heritage coloca Pivetta entre manter Garcia ou afastar União no 1º turno


Fábio Garcia e Otaviano Pivetta

A Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (6), colocou o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) diante de uma escolha que pode redefinir a composição de sua candidatura à reeleição: manter o deputado federal Fábio Garcia (União) como candidato a vice-governador ou buscar uma fórmula que permita ao Republicanos disputar o primeiro turno sem uma coligação formal com o União Brasil.

A discussão ganhou força nesta segunda-feira (10), primeiro dia útil após a operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação apura suspeitas relacionadas ao pagamento de R$ 308 milhões pelo Governo de Mato Grosso em acordo envolvendo créditos da Oi S.A. A ofensiva policial cumpriu 25 mandados de busca e apreensão e atingiu integrantes do núcleo político que governou o Estado durante a gestão de Mauro Mendes (União).

O reflexo chegou ao Palácio Paiaguás. Durante todo o dia, o entra e sai de aliados e integrantes do grupo político no gabinete de Pivetta, inclusive pela entrada privativa, evidenciou a intensidade das articulações em torno dos efeitos políticos da operação. Uma entrevista coletiva do governador chegou a ser anunciada para as 16h30, mas acabou cancelada pela Secretaria de Estado de Comunicação.

No centro das discussões está Fábio Garcia.

Escolhido por Pivetta para a vice apenas três dias antes da Operação Heritage, Garcia figura entre os investigados. A situação colocou em discussão uma composição que já havia sido construída com dificuldades e depois de negociações entre Pivetta e Mauro Mendes.

Antes da operação, o União Brasil havia rejeitado a possibilidade de candidatura própria ao Governo e optado pela aliança com o Republicanos. Garcia e Virginia Mendes, por sua vez, haviam sido apresentados como candidatos à Câmara Federal. A indicação do deputado para vice alterou esse desenho e reforçou a presença do grupo de Mauro na chapa governista.

TROCA TERIA CUSTO POLÍTICO

A substituição de Garcia permitiria a Pivetta estabelecer maior distância eleitoral dos investigados e concentrar a campanha em sua própria administração. O governador, que assumiu definitivamente o Palácio Paiaguás em 31 de março, não está entre os investigados na Operação Heritage.

A decisão, entretanto, teria custo político.

Mauro Mendes e aliados resistem à possibilidade de retirada de Garcia. A avaliação nesse grupo é de que uma substituição imediatamente após a operação poderia ser interpretada politicamente como reconhecimento das suspeitas investigadas, embora a existência de uma investigação não represente condenação ou comprovação de responsabilidade.

Esse dilema explica parte da dificuldade enfrentada pelo grupo: manter Garcia significa levar para a chapa o desgaste de uma investigação que tende a ser explorada pelos adversários; substituí-lo pode ser apresentado pelos mesmos adversários como um recuo provocado pela operação policial.

A situação de Pivetta é diferente. Apesar de ter sido vice-governador durante praticamente toda a administração Mauro Mendes, entre 2019 e março deste ano, o atual governador não figura entre os investigados.

Até mesmo Joci Piccini, megaempresário, vice-prefeito de Lucas do Rio Verde e politicamente próximo de Pivetta, aparece entre os nomes alcançados pela investigação. Isso reforça, dentro do núcleo do governador, a avaliação de que sua candidatura precisa evitar que a Operação Heritage passe a dominar a agenda eleitoral.

PALANQUES SEPARADOS ENTRAM NO DEBATE

Uma alternativa que passou a circular nos bastidores seria mais ampla do que simplesmente trocar o candidato a vice.

Republicanos e União Brasil poderiam disputar separadamente o primeiro turno, preservando uma aliança política para eventual segundo turno. Nesse cenário, Pivetta seguiria candidato pelo Republicanos enquanto o grupo hoje reunido em torno do União buscaria uma candidatura própria.

Entre as possibilidades discutidas aparece o nome do ex-senador Cidinho Santos (PP), aliado do grupo, como eventual candidato ao Governo.

A engenharia permitiria aos aliados evitar um rompimento definitivo e, simultaneamente, estabelecer alguma distância entre as campanhas durante a fase mais sensível da Operação Heritage. Uma eventual recomposição ficaria para o segundo turno, dependendo do resultado das urnas.

Até agora, entretanto, essa possibilidade permanece no terreno das articulações políticas e não foi confirmada publicamente pelos partidos.

SEGUNDO TURNO ENTRA NOS CÁLCULOS

A hipótese considera ainda um cenário pouco habitual em Mato Grosso: uma eleição para governador decidida em segundo turno.

Para vencer no primeiro turno, um candidato ao Governo precisa obter mais da metade dos votos válidos. Caso ninguém alcance a maioria absoluta, os dois mais votados voltam às urnas no último domingo de outubro.

Em uma eleição fragmentada, forças políticas hoje aliadas poderiam apresentar candidaturas distintas e reconstruir a unidade posteriormente, caso uma delas chegasse à segunda votação.

A estratégia, contudo, envolve riscos. As disputas pelo Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa são definidas no primeiro turno. Assim, uma separação entre Republicanos e União Brasil teria consequências que ultrapassariam as candidaturas de Pivetta e Garcia e atingiriam os demais palanques e interesses eleitorais dos partidos.

RESPOSTA PODE SAIR HOJE

A resposta para o dilema de Pivetta poderá ser conhecida às 10 horas desta terça-feira (11). Para esse horário foi reagendada, caso não haja uma nova mudança, a entrevista coletiva que estava prevista para as 16h30 de segunda-feira e acabou cancelada pela Secretaria de Estado de Comunicação.

A expectativa é de que o governador se manifeste não apenas sobre os efeitos da Operação Heritage em seu governo, mas também sobre a composição eleitoral construída com o União Brasil e a permanência de Fábio Garcia como candidato a vice.

Pivetta terá de indicar qual custo político considera administrável: preservar a composição anunciada antes da Heritage e enfrentar durante a campanha o desgaste provocado pela investigação ou reorganizar a aliança às vésperas do fechamento das chapas.

O pronunciamento poderá mostrar também até onde permanece de pé o acordo político que manteve Pivetta e Mauro Mendes unidos nos últimos anos e que, até a semana passada, parecia destinado a chegar praticamente intacto às urnas.

Mais do que o futuro de Fábio Garcia na vice, portanto, a decisão poderá definir a configuração do principal grupo governista para a eleição de outubro e o grau de distância que Pivetta pretende estabelecer da crise política provocada pela Operação Heritage.





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