O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,07% em julho, um resultado que está acima do esperado, mas traz alívio ao acomodar o acumulado de 12 meses de volta à banda de tolerância do Banco Central.
A análise dos economistas aponta um cenário qualitativo adverso, marcado pela forte resiliência da inflação de serviços e pela pressão contínua nos núcleos de preços, fatores que devem limitar o espaço para novos cortes na taxa básica de juros.
Hoje, o Comitê de Política Monetária (CopoM) divulgou a ata com informações mais detalhadas sobre os argumentos que embasaram a decisão de cortar juros na semana passada, levando a Selic a 14%. O teor do texto dividiu economistas sobre os próximos passos, já que a autoridade dá ênfase à necessidade de acompanhar os dados de inflação e atividade, sem deixar claro se haverá mais cortes ou pausa nos juros.
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Hoje, o número oficial de julho divulgado pelo IBGE ficou acima do consenso do mercado, que projetava uma variação mais tímida, entre 0,01% e 0,03%. Com esse desempenho, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,64% em junho para 4,44%, levemente abaixo do teto da meta, que é de 4,5%. No acumulado de 2026, o índice registra um avanço de 3,44%.
| Período | Taxa (%) |
| Julho de 2026 | 0,07 |
| Junho de 2026 | 0,16 |
| Julho de 2025 | 0,26 |
| Acumulado no ano | 3,44 |
| Acumulado em 12 meses | 4,44 |
Inflação impõe cautela
A economista Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, sintetiza o sentimento de cautela que tomou conta das mesas de operação, falando que “a fotografia melhorou, mas saiu menos bonita do que o mercado havia encomendado”. Ela reforça a necessidade de sobriedade na leitura dos dados. “Inflação abaixo do teto ajuda. Inflação acima da expectativa lembra que o teto nunca foi a meta. O número permite comemorar a direção, não decretar a chegada”, avalia.
Deflação de alimentos
O grande contrapeso que evitou uma aceleração maior do IPCA de julho veio do setor de alimentação, amplamente beneficiado por fatores sazonais característicos do meio do ano.
O grupo de alimentação e bebidas registrou recuo de 0,67%, com destaque para a alimentação no domicílio, que apresentou queda expressiva de 1,14%.
O consumidor sentiu o alívio provocado pelos fortes recuos em produtos in natura, com o tomate caindo -29,09%, a batata-inglesa, -19,59%, e a cenoura, -14,41%.
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Os bens industriais também colaboraram para conter a aceleração do índice geral, apresentando uma deflação de 0,10% na passagem mensal, impulsionado pelo arrefecimento no segmento de transportes, onde os combustíveis recuaram -1,44%. O etanol sofreu deflação de -2,26%, enquanto a gasolina, um dos itens de maior peso na cesta, recuou -1,37%.
No entanto, a economista Basiliki Litvac, da XP, alerta para a fragilidade dessa desinflação de curto prazo. A especialista ressalta que “a leitura interrompeu uma sequência de surpresas baixistas, mas o desvio ficou concentrado em itens voláteis”, o que exige máxima cautela na interpretação da melhora do índice cheio.
Serviços e energia elétrica pressionam IPCA
Se os alimentos in natura ficaram mais baratos, os gastos com a manutenção da casa e o setor de serviços mostraram força, surpreendendo os analistas de forma negativa.
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O grupo Habitação, por exemplo, acelerou para 0,99% em julho, puxado por um salto de 3,09% na tarifa de energia elétrica residencial. Esse aumento incorpora não apenas a manutenção da bandeira tarifária amarela, mas também reajustes aplicados por concessionárias em capitais como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.
O grande vilão para a política monetária, entretanto, continua sendo o setor de serviços, que registrou alta de 0,54% no mês, superando com o consenso de 0,40% projetado pelo mercado. No acumulado de 12 meses, os serviços estão em patamares incompatíveis com a convergência da inflação, entre 5,85% e 5,90%.
O banco norte-americano Goldman Sachs destaca que a pressão foi generalizada. O relatório, assinado pelo economista Alberto Ramos, aponta que 18 categorias de serviços tiveram variações mensais acima de 0,50%. Itens como passagens aéreas saltaram 11,67%, o transporte por aplicativo subiu 1,87%, o conserto de automóveis avançou 1,41% e a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% em junho para 0,55% em julho.
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A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, enfatiza a rigidez desse segmento, pontuando que os preços seguem elevados em categorias como a de serviços subjacentes. Essa métrica, monitorada pelo Banco Central porque exclui itens voláteis, acelerou de 0,22% em junho para 0,42% em julho. Outro termômetro sensível, os serviços intensivos em trabalho, acelerou no acumulado anual para 7,29%, reflexo de um mercado de trabalho superaquecido.
Núcleos de inflação e o impacto na Selic
A piora na composição qualitativa da inflação pode ser apontada pela média dos cinco principais núcleos acompanhados pelo Banco Central, que excluem os ruídos temporários. Essa média avançou 0,26% em julho, acelerando frente aos 0,21% de junho. O acumulado em 12 meses dessas medidas de tendência manteve-se resistente e praticamente inalterado, passando de 4,44% para 4,42%.
O cruzamento desses dados com a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na mesma manhã, balizou o humor do mercado. A ata ratificou o corte da taxa básica de juros para 14% ao ano, mas retirou sinalizações automáticas para os próximos passos, reforçando a extrema preocupação com a desancoragem das projeções futuras.
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Para João Debom, sócio da Supernova Investimentos, o Copom está em uma encruzilhada. “O IPCA de julho fala do presente — e o presente está comportado. A ata fala do futuro — e é sobre o futuro que o Banco Central segue desconfiado”. Debom orienta que investidores não se antecipem, pois “o ciclo de corte de juros continua, mas em ritmo mais lento e mais dependente de cada novo dado do que o mercado gostaria”.
Alberto Ramos, do Goldman Sachs, vai na mesma linha, alertando que o cenário de dinâmica inflacionária desafiadora, somado a estímulos fiscais e expectativas desancoradas, exige obrigatoriamente uma “calibração conservadora do ciclo de normalização da política monetária”, enxergando espaço limitado para a continuidade dos cortes.
O grau desse conservadorismo, no entanto, divide as instituições. Economistas do C6 Bank avaliam que a ata e a composição do IPCA justificam a manutenção da taxa Selic parada nos atuais 14% até o fim de 2026.
Em contrapartida, casas como Suno Research, Genial Investimentos e Ativa Investimentos leem que a inflação comportada no curto prazo garante sobrevida ao ciclo, apostando em mais uma redução de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro, ancorando a Selic terminal de 2026 em 13,75%.
Já o banco Inter figura na ponta otimista, mantendo projeções de cortes sistemáticos de 25 pontos-base que levariam a taxa para 13,25% até o encerramento do ano.




