Crédito rural, juros, fertilizantes, rodovias, ferrovias, impostos, licenciamento ambiental e combate às facções colocam Mato Grosso diante de escolhas distintas nos programas apresentados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para a eleição presidencial.
Em um Estado fortemente dependente do agronegócio, das exportações e da infraestrutura logística, parte das diferenças entre os dois projetos pode produzir efeitos diretos sobre o custo da produção, os investimentos e a atuação do governo federal.
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Lula aposta na manutenção do Estado como indutor do crescimento e mudou o tratamento dispensado ao agronegócio em relação ao programa apresentado em 2022.
Flávio, autor do plano “Para o Brasil Vencer o Atraso”, propõe redução mais intensa das despesas públicas, novo teto de gastos, diminuição do número de ministérios e ampliação de privatizações e concessões.
Para Mato Grosso, a disputa entre os dois modelos ultrapassa o debate ideológico.
Ela alcança questões concretas: quem financiará a produção, quanto custará o crédito, como avançará a infraestrutura, qual será a política para fertilizantes, que regras ambientais prevalecerão e quanto a União investirá na segurança da fronteira.
O Estado depende de investimentos federais em rodovias, ferrovias, energia, segurança e políticas de crédito, ao mesmo tempo em que possui um setor produtivo que cobra redução de impostos, menos burocracia, segurança jurídica e maior participação privada na infraestrutura.
É nesse encontro entre os dois modelos que estão alguns dos principais efeitos potenciais sobre Mato Grosso — num momento em que o Estado também organiza seus palanques para as disputas pelo Governo, Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa.
A definição sobre qual candidatura presidencial cada força estadual apoiará tende, assim, a aproximar a discussão programática das alianças locais.
DISPUTA PELO AGRO — Uma das mudanças mais significativas aparece no programa de Lula.
Diferentemente do documento apresentado na campanha de 2022, o novo programa atribui maior destaque ao agronegócio e reconhece explicitamente sua importância para a economia e para a balança comercial brasileira.
O documento defende ampliação e diversificação das fontes de financiamento, inovação, sustentabilidade, desenvolvimento tecnológico e maior integração entre produção agropecuária, pesquisa e ciência.
A mudança ocorre depois de quase quatro anos de uma relação marcada por divergências políticas entre o governo e parcela expressiva do setor.
Em Mato Grosso, essa tentativa de aproximação terá um teste particularmente importante.
Maior produtor nacional de soja, milho e algodão e detentor do maior rebanho bovino do país, o Estado concentra um eleitorado rural que, nas últimas eleições presidenciais, apresentou forte identificação com a direita.
Por isso, uma das perguntas da campanha será se mudanças na política agrícola e no discurso do governo serão suficientes para modificar a relação política entre Lula e o setor.
O programa de Flávio Bolsonaro também reserva espaço ao agronegócio, mas parte de outra orientação econômica.
Entre suas propostas estão incentivo à produção nacional de fertilizantes, simplificação regulatória, mudanças no licenciamento ambiental e medidas destinadas a reduzir despesas públicas e carga tributária.
A proposta de redução da dependência brasileira de fertilizantes importados possui interesse particular para Mato Grosso, um dos maiores consumidores desses insumos no país.
CRÉDITO E JUROS — Outra questão decisiva para Mato Grosso será o financiamento da produção.
O programa de Lula promete ampliar e diversificar mecanismos de crédito para o agronegócio, além de associar financiamento a inovação e modernização tecnológica.
A questão ganha importância num momento em que produtores mato-grossenses enfrentam margens menores, juros elevados e aumento dos casos de recuperação judicial.
Para o setor, portanto, não basta saber quanto haverá de crédito oficial.
Será necessário avaliar a que custo esse dinheiro chegará ao produtor e quais atividades terão acesso aos recursos.
Flávio aposta numa estratégia macroeconômica diferente.
Seu programa sustenta que uma redução mais intensa das despesas públicas e o controle da dívida criariam condições para uma queda estrutural dos juros.
A proposta prevê substituir o atual arcabouço fiscal por um novo teto de gastos, extinguir pelo menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados e combater supersalários e outras despesas consideradas excessivas.
Parte relevante dessas medidas, entretanto, dependerá de aprovação do Congresso.
Para Mato Grosso, o resultado dessa política teria efeitos tanto sobre produtores e empresas — pela eventual trajetória dos juros — quanto sobre a capacidade de investimento e transferência de recursos da União.
RODOVIAS, FERROVIAS E CONCESSÕES — A infraestrutura é outro ponto em que os modelos podem produzir consequências distintas.
Mato Grosso possui uma economia fortemente dependente da logística.
Milhões de toneladas de soja, milho, algodão e carnes precisam percorrer grandes distâncias até os mercados consumidores e portos.
O modelo defendido por Lula combina investimento público, atuação de bancos estatais e participação privada.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar privatizações e concessões e reduzir a participação direta do governo em determinadas atividades econômicas.
Para o Estado, a discussão deverá sair do campo ideológico e chegar aos projetos concretos.
Entre as questões que precisarão ser respondidas durante a campanha estão o futuro das BRs que cortam Mato Grosso, a expansão ferroviária, os investimentos em armazenagem e corredores de exportação e a participação do governo federal no financiamento dessas obras.
IMPOSTOS E MEIO AMBIENTE — As políticas tributária e ambiental também diferenciam as duas propostas — e ambas mexem diretamente com a economia mato-grossense.
No campo tributário, Flávio Bolsonaro propõe revisar a reforma já aprovada e reduzir exceções e benefícios como forma de permitir alíquotas menores. Lula defende dar continuidade à implantação da reforma vigente, discutindo, ao mesmo tempo, a revisão de benefícios fiscais e mudanças para melhorar as contas públicas.
Como Mato Grosso tem economia exportadora, grande produção primária e política própria de incentivos fiscais, qualquer alteração nessa área pode afetar tanto a arrecadação estadual quanto a competitividade das empresas instaladas no Estado.
Na área ambiental, o programa de Lula associa expansão da produção agropecuária a sustentabilidade, inovação tecnológica e redução do desmatamento, enquanto Flávio Bolsonaro defende maior agilidade no licenciamento e redução de obstáculos regulatórios para investimentos e produção.
Em um Estado onde convivem Amazônia, Cerrado e Pantanal, o licenciamento interfere diretamente na implantação de rodovias, ferrovias, hidrelétricas, mineração e empreendimentos agroindustriais.
Ao mesmo tempo, o desempenho ambiental influencia o acesso das commodities estaduais aos mercados internacionais.
O desafio para os dois candidatos será explicar como pretendem conciliar produção, infraestrutura, preservação ambiental e segurança jurídica.
SEGURANÇA — Outro contraste importante aparece na segurança pública.
Lula propõe maior integração entre União, estados e municípios, compartilhamento de informações e políticas de prevenção. Flávio Bolsonaro apresenta propostas de endurecimento penal e de combate às organizações criminosas, incluindo presídios federais de segurança máxima e tratamento mais rigoroso das facções.
Para Mato Grosso, o assunto possui uma particularidade geográfica: o Estado faz fronteira com a Bolívia e está situado em uma das principais rotas utilizadas para a entrada de cocaína no território brasileiro.
Além do tráfico internacional, organizações criminosas passaram a disputar territórios, controlar mercados ilegais e emitir ordens de dentro de presídios.
Por isso, mais do que conceitos gerais sobre segurança, a campanha presidencial deverá responder quanto a União pretende investir em fronteira, inteligência, Polícia Federal e integração com as forças estaduais em Mato Grosso.
LACUNAS NOS PROGRAMAS — Os dois planos ainda possuem propostas que dependem de detalhamento.
Algumas medidas exigirão aprovação do Congresso; outras não apresentam estimativas completas de custos, fontes de financiamento, metas ou cronogramas.
Essa limitação aparece inclusive em políticas sociais.
Na saúde, por exemplo, a comparação dos dois documentos feita por esta reportagem mostra que ambos os candidatos prometem ampliar serviços, mas seguem com lacunas sobre o financiamento de parte das propostas.
Para o eleitor de Mato Grosso, portanto, a comparação dos documentos representa apenas o começo da discussão.
Mais importante do que saber quem promete mais será acompanhar como cada proposta seria executada, quanto custaria, de onde sairia o dinheiro e qual seria seu efeito concreto sobre o Estado.
A disputa presidencial começa, assim, a chegar a Mato Grosso não apenas pela formação dos palanques eleitorais, mas pela escolha entre diferentes caminhos para crédito, infraestrutura, segurança, tributação, meio ambiente e participação do Estado na economia.





