A Operação Heritage deixou de produzir efeitos apenas no campo policial e judicial e passou a interferir diretamente na campanha eleitoral em Mato Grosso. Quase duas semanas depois de ser deflagrada pela Polícia Federal, a investigação já provocou mudança na chapa do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), abriu divergências entre aliados, entrou nos discursos dos candidatos e chegou a motivar proposta para limitar operações policiais durante o período eleitoral.
O episódio mais concreto foi a saída do deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) da candidatura a vice-governador. Alvo da Heritage, Garcia desistiu da composição com Pivetta e voltou à disputa pela Câmara dos Deputados.
A decisão ocorreu depois de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), impor medidas cautelares que restringiram o contato entre investigados, entre eles Garcia e o ex-governador Mauro Mendes (União), candidato ao Senado. Garcia afirmou que as restrições dificultavam a condução política da campanha.
Pivetta substituiu o deputado por Gisela Simona (União), preservando o partido na composição. A alteração, porém, não encerrou o assunto.
Nesta quarta-feira (19), Mauro Mendes afirmou que Pivetta cometeu um “equívoco” ao retirar Garcia da chapa. Embora tenha ressaltado que respeita a decisão do governador e afastado a hipótese de rompimento, Mauro afirmou que a escolha poderá produzir “algum desdobramento presente ou futuro”.
A manifestação evidencia que a Heritage atingiu uma área particularmente sensível da campanha governista: a articulação entre Pivetta, Mauro e o União Brasil.
INVESTIGAÇÃO VIRA DEBATE ELEITORAL – Deflagrada em 6 de agosto, a Heritage investiga suspeitas relacionadas ao acordo de R$ 308 milhões firmado pelo Governo de Mato Grosso com a Oi. A operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão e teve autorização para bloqueio de valores que podem chegar a R$ 316 milhões.
A investigação ainda está em andamento e não significa condenação dos envolvidos. Mauro Mendes e os demais citados têm negado irregularidades.
Mesmo assim, seus efeitos políticos já alcançam também o campo adversário.
O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), criticou a forma como investigações são exploradas politicamente. Para ele, operações policiais não podem ser impedidas, mas também não devem ser transformadas em “espetáculo” durante a campanha.
A discussão avançou dentro do próprio PL quando o deputado federal José Medeiros, candidato ao Senado, defendeu a criação de uma regra para impedir operações policiais contra candidatos nos seis meses anteriores às eleições.
A proposta provocou reação dentro do partido. O vereador por Cuiabá Rafael Ranalli (PL) rejeitou a ideia e argumentou que uma proteção desse tipo poderia estimular investigados a lançar pré-candidaturas para escapar de operações. A divergência mostrou que nem mesmo entre aliados há consenso sobre como tratar os efeitos eleitorais de investigações policiais.
Medeiros acabou recuando da proposta.
PIVETTA TENTA CONTER EFEITOS – Pivetta tem procurado separar a investigação da condução de seu governo e da campanha. Após a operação, afirmou considerar inoportuno o momento em que ela ocorreu, disse acreditar na inocência de aliados citados e acusou adversários de tentar extrair dividendos políticos do episódio.
Ao mesmo tempo, precisou reorganizar rapidamente a chapa e sustentar a aliança com Mauro Mendes e o União Brasil.
É justamente nesse ponto que a Heritage passa a ter consequências mensuráveis. Antes da operação, Pivetta tinha Fábio Garcia como vice e Mauro como principal candidato ao Senado de seu grupo. Depois dela, perdeu o vice originalmente escolhido, precisou refazer a composição e passou a administrar publicamente a discordância do ex-governador com a mudança.
CAMPANHA SOB NOVA PRESSÃO – A tendência é que a Heritage permaneça no centro da disputa. Os adversários deverão explorar politicamente a investigação, enquanto os atingidos buscarão separar suspeitas ainda sob apuração de responsabilidades efetivamente comprovadas.
Essa distinção será fundamental.
A existência de uma investigação não permite antecipar culpa, assim como o calendário eleitoral não pode servir de proteção contra a atuação dos órgãos responsáveis pela apuração de eventuais crimes. Cabe à Polícia Federal investigar, ao Ministério Público apresentar suas conclusões e ao Judiciário decidir dentro do devido processo legal.
Para o eleitor, o desafio será distinguir fatos comprovados, suspeitas investigadas e discursos produzidos pelas campanhas.
A Heritage já alterou a eleição de Mato Grosso antes mesmo de apresentar um desfecho judicial. Mudou uma chapa, tensionou alianças e colocou candidatos do mesmo campo político em posições diferentes sobre a atuação policial durante a campanha.
O tamanho do impacto daqui para frente dependerá do que as investigações revelarem — e também da capacidade dos candidatos de impedir que a disputa pelo Governo e pelo Senado seja reduzida a uma guerra de acusações.





