A eleição deste ano instalou novamente o debate sobre os debates: servem para quê? Beneficiam quem? Alguém vai assistir a isso na era das redes sociais de cortes curtos?
As eleições brasileiras têm um incômodo histórico de ausências em debates presidenciais. Geralmente, o favorito nas pesquisas não aparece. Mas, neste ano, foi bem pior.
Em 1989, Fernando Collor não compareceu a nenhum no primeiro turno, e foi a apenas dois no segundo, contra Lula.
Em 1994, foi o petista que faltou ao primeiro debate, da finada Manchete, por liderar as pesquisas. Mas o jogo virou para Fernando Henrique Cardoso (FHC), que passou a ficar mais seletivo quantos aos embates e acabou ganhando a eleição no primeiro turno.
Quatro anos depois, simplesmente não houve debate eleitoral, pois a lei determinava que todos os concorrentes deveriam participar (eram 12), e FHC ganhou de novo em primeiro turno.
“Fujão”
Em sua primeira campanha vitoriosa, em 2002, Lula foi apenas a um debate contra José Serra. Na eleição seguinte, o petista foi chamado de “fujão” por Geraldo Alckmin, hoje vice em sua chapa de reeleição, por não ter ido a nenhum encontro no primeiro turno.
Em 2010 e 2014, foi a vez de Dilma Rousseff escolher quando iria debater, mas ela teve uma disposição maior do que Lula para comparecer aos debates.
Em 2018, Jair Bolsonaro foi apenas aos primeiros debates, até levar a facada que o impediu de fazer campanha normalmente. Em 2022, ele tinha que reagir ao risco da candidatura de Lula, e participou de todos os confrontos, mesmo concorrendo à reeleição.
Fraldas
Desta vez, contudo, não foi apenas o favorito, Lula, que faltou, mas o segundo colocado nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e um terceiro candidato, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que precisa de exposição, mas optou por ficar de fora.
O debate ficou marcado pelas duas fraldas geriátricas levadas por Renan Santos (Missão) para debochar das ausências de Lula e Flávio e pelo cochilo de Gilberto Kassab (PSD), vice na chapa presidencial de Ronaldo Caiado (PSD), na plateia.
O sono de Kassab foi interpretado como a confirmação de que o debate estava chato. Mas todo debate político sempre foi chato, com alguns episódios de exceção, como erros, piadas e até uma agressão física, a famigerada cadeirada de José Luiz Datena em Pablo Marçal.
Dormindo
Isso não quer dizer que os candidatos que se ausentam devam ser exaltados como estrategistas. Por mais que pareçam defasados diante de tantos canais que os políticos têm para se comunicar, os debates sobrevivem como rito eleitoral e são um símbolo a ser respeitado.
Nada supera, contudo, a estratégia de Lula de competir por atenção com o debate ao conceder uma entrevista de dentro do Palácio da Alvorada que seria exibida na mesma hora do debate da Band.
Quando o assunto é democracia, tem muito mais gente dormindo do que se imagina no Brasil.
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