A divisão do PL de Mato Grosso em torno da disputa pelo Governo deixou de ser apenas uma questão de apoio eleitoral e passou a expor uma disputa interna que pode chegar ao comando político do partido depois das eleições. Enquanto a direção estadual sustenta a candidatura do senador Wellington Fagundes ao Palácio Paiaguás, prefeitos e lideranças da própria legenda aderiram ao governador Otaviano Pivetta (Republicanos), adversário direto do candidato liberal.
O conflito ganhou uma nova dimensão nesta sexta-feira (28), quando o candidato do PL ao Senado, José Medeiros, revelou que a filiação do prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira, enfrentou resistência dentro do próprio partido e só teria sido concretizada por intervenção do ex-presidente Jair Bolsonaro e do deputado Eduardo Bolsonaro.
“É possível que o nosso partido diga que vai lhe expulsar. Eu não duvido, até porque não lhe queriam no partido, foi Jair Bolsonaro que exigiu. Se não fosse Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, o Cláudio não tinha conseguido entrar”, afirmou Medeiros.
Segundo ele, o prefeito “entrou a fórceps” na legenda. A declaração expôs uma divergência anterior à própria candidatura de Wellington e indicou que o conflito envolve também diferentes grupos que disputam influência dentro do PL mato-grossense.
A reação da direção estadual veio por meio do presidente do PL em Mato Grosso, Ananias Filho, que criticou o comportamento de Cláudio e questionou seu compromisso com as decisões partidárias. O prefeito, por sua vez, sustenta que os interesses da população devem prevalecer sobre as determinações da legenda.
DISSIDÊNCIA NÃO É ISOLADA
O problema para Wellington é que a escolha de Cláudio por Pivetta não constitui um movimento isolado.
O prefeito de Primavera do Leste, Sérgio Machnic, também mantém apoio ao governador. Outro nome ligado ao movimento é Edilson Antônio Piaia, de Campo Novo do Parecis, eleito pelo PL e que posteriormente deixou a legenda. O boletim político relaciona os dois casos à dissidência aberta por prefeitos que preferiram Pivetta ao candidato oficial do partido.
A divisão ganhou ainda mais visibilidade em Rondonópolis. Pivetta participou, ao lado de Medeiros e de Cláudio Ferreira, do lançamento da candidatura a deputada estadual da primeira-dama Alessandra Ferreira (Podemos). Assim, no mesmo evento, um candidato ao Senado pelo PL dividiu espaço com o adversário do candidato do próprio partido ao Governo.
Rondonópolis possui peso adicional nessa disputa por ser uma das principais bases eleitorais de Wellington, que construiu parte de sua trajetória política no município.
“MELANCIA” ENTRA NA PROPAGANDA
Outro episódio acrescentou uma contradição à campanha liberal. Na estreia da propaganda eleitoral, Medeiros utilizou uma melancia para atacar políticos que, segundo o discurso adotado por setores bolsonaristas, apresentam uma posição conservadora por fora, mas mantêm vínculos ou posições associadas à esquerda.
O simbolismo tem repercussão interna porque Wellington já foi alvo desse tipo de crítica entre integrantes da direita devido a alianças e aproximações políticas construídas ao longo de sua trajetória.
A estratégia coloca Medeiros diante de uma equação delicada. Ao mesmo tempo em que integra a chapa de Wellington e disputa o Senado pela mesma coligação, procura consolidar sua candidatura junto ao eleitorado mais identificado com Bolsonaro e com uma linha ideológica mais rígida dentro do PL.
O episódio não significa, por si só, que a propaganda tenha sido dirigida a Wellington. Mas evidencia que parte do discurso utilizado pelo candidato ao Senado alcança características que adversários internos e externos já empregaram para questionar o candidato do próprio partido ao Governo.
BOLSONARO NO CENTRO DA DISPUTA
A presença de Jair Bolsonaro como referência dos dois grupos torna o cenário ainda mais complexo. Wellington busca a identificação nacional do PL e do bolsonarismo para sua candidatura ao Governo. Ao mesmo tempo, dissidentes como Cláudio Ferreira utilizam justamente a proximidade com Bolsonaro para sustentar espaço político dentro da legenda mesmo apoiando Pivetta.
A declaração de Medeiros de que Bolsonaro e Eduardo foram responsáveis pela entrada de Cláudio no PL reforçou essa divisão entre a estrutura estadual da legenda e lideranças com trânsito direto junto ao núcleo nacional do partido.
O racha também ocorre em um momento no qual Pivetta procura ampliar sua entrada no eleitorado conservador. Embora dispute pelo Republicanos, o governador tem recebido apoio de políticos do PL e já declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
ELEIÇÃO PODE REDEFINIR FORÇAS
A questão que começa a se desenhar, portanto, ultrapassa a eleição para governador. O resultado das urnas poderá determinar qual grupo terá maior força para conduzir o PL de Mato Grosso nos próximos anos.
Uma vitória de Wellington fortaleceria o grupo responsável pela candidatura própria ao Governo e a atual estrutura estadual. Uma eventual vitória de Pivetta, especialmente se acompanhada de desempenho expressivo nos municípios comandados por prefeitos liberais dissidentes, daria argumento político ao grupo que contestou a estratégia adotada pela direção partidária.
Até lá, o PL enfrenta uma situação incomum: possui candidato próprio ao Governo, mas parte de suas lideranças municipais trabalha pela eleição do principal adversário. Ao mesmo tempo, candidatos da legenda precisam conciliar a campanha de Wellington com a tentativa de preservar sua identificação com o eleitorado bolsonarista.
Mais do que uma divergência sobre quem ocupará o Palácio Paiaguás, o movimento começa a definir quem terá força para comandar o PL de Mato Grosso depois de outubro.





