Início GERAL Sisamnes chega perto de dois anos sem denúncia contra investigados

Sisamnes chega perto de dois anos sem denúncia contra investigados


Ministro do STF Cristiano Zanin rejeitou pedido para retirar a tornozeleira eletrônica do desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho, que usa o equipamento desde novembro de 2024

A Operação Sisamnes, que colocou sob investigação desembargadores, advogados, empresários e servidores por suspeitas de negociação de decisões judiciais em Mato Grosso e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), aproxima-se de completar dois anos ainda com investigados submetidos a tornozeleiras eletrônicas, bloqueios patrimoniais e outras restrições sem que tenha sido formalizada denúncia no núcleo investigativo que deu origem a essas cautelares.

A duração da investigação passou a ocupar o centro das decisões mais recentes do Supremo Tribunal Federal (STF). Na segunda-feira (31), o ministro Cristiano Zanin rejeitou pedido para retirar a tornozeleira eletrônica do desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho, que usa o equipamento desde novembro de 2024.

A defesa sustentou que a medida perdeu a necessidade depois da aposentadoria compulsória do magistrado, em novembro de 2025, quando ele completou 75 anos. Também argumentou que o monitoramento já se prolonga por aproximadamente um ano e nove meses sem denúncia formalizada.

Zanin, porém, considerou que a aposentadoria não elimina a capacidade de influência construída pelo magistrado após décadas no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e apontou que ainda existem diligências em andamento.

A decisão contrasta com outra tomada pelo próprio ministro poucos dias antes. Em agosto, Zanin retirou a tornozeleira eletrônica do advogado Flaviano Kleber Taques Figueiredo, também investigado na Sisamnes, ao entender que a manutenção da medida, depois de quase dois anos sem denúncia, havia se tornado desproporcional.

As demais restrições impostas a Flaviano foram mantidas, entre elas bloqueio de R$ 500 mil, proibição de acesso aos órgãos e sistemas do TJMT e retenção do passaporte.

INVESTIGAÇÃO COMEÇOU COM CELULAR DE ZAMPIERI

A Sisamnes foi deflagrada em 26 de novembro de 2024, a partir de elementos encontrados no celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023, em Cuiabá.

Na primeira fase, a Polícia Federal cumpriu um mandado de prisão preventiva e 23 mandados de busca e apreensão. Entre os principais alvos estavam os desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho, que já haviam sido afastados do TJMT pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Também foram alvo advogados, empresários, servidores do Tribunal e o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, apontado pela investigação como um dos articuladores do suposto esquema e único preso preventivamente naquela etapa.

A PF passou a investigar suspeitas de corrupção, organização criminosa, exploração de prestígio e violação de sigilo funcional. Segundo a apuração, valores seriam solicitados em troca de decisões judiciais favoráveis e também haveria negociação de informações sigilosas.

Uma segunda fase foi deflagrada em dezembro de 2024, direcionada à suspeita de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. A Justiça autorizou bloqueios, sequestro de imóveis e novas buscas.

PF APONTOU PROPINA

Em julho de 2025, informações de relatório da Polícia Federal vieram a público apontando que Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho teriam recebido vantagens indevidas relacionadas a decisões judiciais.

Segundo o relatório divulgado à época, os pagamentos investigados incluiriam transferências, relógios de luxo e até uma barra de ouro. As conclusões são da Polícia Federal e permanecem sujeitas ao contraditório e à eventual apreciação judicial.

As defesas dos investigados vêm contestando as acusações e as medidas cautelares.

No caso de Sebastião, a defesa sustenta, entre outros argumentos, que não foram identificadas transferências de Zampieri para contas do magistrado ou de familiares e questiona a vinculação dele a determinadas decisões mencionadas na investigação.

ZANIN COBROU CONCLUSÃO

A demora levou o próprio STF a cobrar uma definição.

Em fevereiro deste ano, Zanin determinou que a Polícia Federal apresentasse em 30 dias um relatório conclusivo ou circunstanciado sobre uma das frentes da investigação, destacando que já haviam sido autorizadas “sucessivas prorrogações”.

A determinação estava especialmente relacionada à situação de Andreson de Oliveira Gonçalves, que permanecia preso preventivamente.

Em abril, diante da duração da prisão, Zanin revogou a preventiva do lobista. Andreson havia passado cerca de um ano e cinco meses sob custódia, com um período de prisão domiciliar por razões de saúde.

Ele deixou a prisão, mas ficou submetido a medidas como tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno, proibição de contato com outros investigados e impedimento de acessar o STJ e seus sistemas processuais.

CAUTELARES COMEÇAM A SER REVISTAS

A decisão envolvendo Flaviano abriu uma nova discussão entre os demais investigados.

Cinco deles — Mirian Ribeiro Gonçalves, Valdoir Slapak, Haroldo Augusto Filho, Rodrigo Vechiato da Silveira e Rafael Macedo Martins — tentaram obter a retirada da tornozeleira utilizando como precedente a decisão favorável ao advogado.

Zanin recusou os pedidos. Segundo decisão divulgada no fim de agosto, a situação jurídica desses investigados não seria idêntica à de Flaviano e, por isso, a retirada automática das medidas não seria cabível.

A operação alcançou originalmente um conjunto que incluía, além dos dois desembargadores, Andreson, Mirian, Flaviano, Valdoir, Haroldo, Mauro Thadeu Prado de Moraes, Rodrigo Vechiato, Rafael Macedo Martins e Victor Ramos de Castro, além do escritório e dos dados deixados por Roberto Zampieri.

SITUAÇÃO DOS PRINCIPAIS INVESTIGADOS

Sebastião de Moraes Filho — aposentado compulsoriamente em novembro de 2025. Continua usando tornozeleira eletrônica após Zanin rejeitar novo pedido de retirada do equipamento. Também responde a procedimento disciplinar relacionado às suspeitas.

João Ferreira Filho — permanece afastado do TJMT e submetido a medidas cautelares. Em abril, pediu ao STF a retirada da tornozeleira e o acesso integral à investigação. O CNJ arquivou três procedimentos específicos contra ele em junho, mas outros procedimentos e a investigação criminal permaneceram em curso.

Andreson de Oliveira Gonçalves — apontado pela PF como articulador do esquema, deixou a prisão preventiva em abril por decisão de Zanin, mas continua sujeito a tornozeleira e outras restrições.

Flaviano Kleber Taques Figueiredo — teve a tornozeleira retirada em agosto em razão do excesso de prazo, mas segue submetido às demais cautelares.

Mirian Ribeiro Gonçalves, Valdoir Slapak, Haroldo Augusto Filho, Rodrigo Vechiato e Rafael Macedo Martins — tentaram usar a decisão de Flaviano para retirar o monitoramento eletrônico, mas tiveram os pedidos recusados por Zanin no fim de agosto.

A situação individual de todos os demais alvos não pode ser estabelecida integralmente pelos atos públicos disponíveis, uma vez que partes da investigação permanecem sob sigilo.

DOIS ANOS DEPOIS

A Operação Sisamnes completará dois anos em 26 de novembro.

Nesse período, produziu afastamento de desembargadores, prisão preventiva, monitoramento eletrônico, bloqueio de patrimônio, buscas, relatórios da Polícia Federal e procedimentos administrativos no CNJ.

Agora, entretanto, a duração das cautelares passou a disputar espaço com o próprio mérito da investigação.

Ao retirar a tornozeleira de Flaviano e revogar anteriormente a prisão de Andreson, Zanin reconheceu que a passagem do tempo precisa ser considerada na avaliação da proporcionalidade das restrições. No caso de Sebastião e de outros investigados, porém, o ministro concluiu que ainda existem elementos suficientes para manter parte das cautelares.

Assim, quase dois anos depois da primeira operação, a Sisamnes permanece em uma fase incomum: a investigação continua produzindo diligências, enquanto o STF já precisa decidir, caso a caso, por quanto tempo os investigados poderão permanecer submetidos às restrições sem o início de uma ação penal.

CRONOLOGIA — SISAMNES

Dez/2023 — advogado Roberto Zampieri é assassinado em Cuiabá; perícia no celular abre novas frentes de investigação.

Ago/2024 — CNJ afasta Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho.

26 nov/2024 — PF deflagra a Operação Sisamnes; Andreson é preso e desembargadores passam a usar tornozeleira.

20 dez/2024 — segunda fase mira lavagem de dinheiro e patrimônio.

Jul/2025 — vem a público relatório da PF apontando suspeitas de pagamento de vantagens indevidas.

Nov/2025 — Sebastião é aposentado compulsoriamente aos 75 anos.

Fev/2026 — Zanin cobra da PF relatório conclusivo após sucessivas prorrogações.

Abr/2026 — STF revoga prisão preventiva de Andreson por excesso de prazo, mas mantém cautelares.

Ago/2026 — Zanin retira tornozeleira de Flaviano Taques, citando quase dois anos de investigação sem denúncia; rejeita pedidos semelhantes de outros cinco investigados.

31 ago/2026 — STF mantém tornozeleira de Sebastião, considerando que sua aposentadoria não eliminou a influência construída no Judiciário.





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