O Brasil virou uma espécie de fábrica global de fundos de investimento regulados. Em 2014, assumiu a primeira posição em número dessas estruturas e, de lá para cá, descolou dos demais países, segundo números agregados pela IIFA, sigla em inglês para Associação Internacional de Fundos de Investimento.
A entidade reúne informações de 44 jurisdições, incluindo o Brasil, representado pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
No período, o número de fundos regulados do Brasil no levantamento da IIFA passou de 14,4 mil para 32,3 mil ao final do primeiro trimestre deste ano —quase o dobro do segundo colocado, a Coreia do Sul, que ao final de março tinha 17,3 mil.
Três tipos de fundos respondem por 47,2% desse boom brasileiro, segundo dados da Anbima: multimercados, FIPs (fundos de investimento em participações) e, sobretudo, Fidcs (fundos de investimento em direitos creditórios). São veículos que podem dar origem a estruturas pouco transparentes.
A comparação internacional da IIFA não considera todos os fundos. O dado reúne os fundos que são abertos, que têm cota resgatável e contam com limites pensados para proteger o cotista, como restrição de diversificação ou alavancagem para aplicação do recurso. É o produto com porta de saída e mecanismos de proteção contra riscos. Em resumo: fundos regulados para a proteção do investidor.
A classificação não engloba, por exemplo, os fundos de private equity ou os hedge funds dos EUA, que somavam 58.891 fundos ao final de 2025, segundo a SEC (Securities and Exchange Commission). Eles têm oferta restrita, voltada a investidores qualificados, e a regulação recai sobre o gestor, não sobre o fundo.
Os fundos brasileiros equivalentes, como o FIP, são contabilizados pela IIFA. Mesmo não sendo abertos, eles são regulados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e têm alguns limites de aplicação.
A CVM, porém, não foi preparada para elevar a proteção dos investidores durante esse boom. O que se viu no período foi o seu enfraquecimento, acompanhado de um número crescente de investigações criminais, que apuram o uso de fundos para fraudes, ocultação de patrimônio, desvio e lavagem de dinheiro até pelo crime organizado.
Do trio de fundos que mais cresceram, o multimercado é o mais flexível, com grande liberdade de alocação. Investe em diferentes tipos de ativo, misturando renda fixa, ações, crédito, derivativos e cotas de outros fundos, fazendo uso de diversas estratégias, inclusive alavancagem.
Já o FIP compra participações em qualquer tipo de empresa, listada ou não. No extremo do pior exemplo, é possível que o FIP esteja até numa empresa de fachada sem que isso esteja claro. Usado em cadeia, pode tornar mais difícil de se descobrir quem é o real investidor de uma companhia.
Como o nome diz, o Fidc investe em “direitos creditórios”, ou seja, compra à vista, com desconto, títulos de dívida que serão pagos no futuro, como duplicata, fatura de cartão de crédito, cheque, carnê de lojas, contrato de aluguel, crédito de empresa em dificuldade. Como o fundo frequentemente mistura papéis de inúmeros credores, é difícil para o investidor de fora ver a qualidade de cada título, quem é o devedor ou o histórico daquele crédito.
De 2014 a 2018, o número de Fidcs dobrou; depois, quadruplicou, acumulando uma alta de 810% até março deste ano. Segundo a Anbima, foram criados 3.757, mais que em renda fixa (3.593), previdência (3.318) e ações (2.085). Nos 12 meses até julho, foram quase dois por dia. O patrimônio está em R$ 960 bilhões, segundo a CVM.
Com o crescimento dessa indústria, parte da oferta do crédito no país, tradicionalmente feita pelos bancos, foi substituída por Fidcs, à medida que as instituições financeiras ficaram mais seletivas na liberação de empréstimos com o aumento da inadimplência. Entre os maiores credores na recuperação judicial da Casas Bahia, por exemplo, está o Fidc IBCB-AF01, com mais de R$ 1 bilhão a receber e usado para financiar a varejista.
Na semana que passou, o Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central destacou que o uso dos fundos em cadeias múltiplas está dificultando a avaliação do risco assumido por agentes econômicos nesse mercado de crédito, especialmente com o uso crescente de estruturas com Fidc.
“É motivo de preocupação a expansão desses fundos para financiar empresas”, diz o economista Marcos Lisboa.
Quem atua no combate ao uso criminoso dos fundos lembra que quase tudo pode ser embalado nessas estruturas mais flexíveis —para o bem e para o mal. “Ainda que totalmente legais, fundos com várias camadas, protegidos por sigilo, dificultam a identificação do dono do dinheiro”, explica o delegado da PF (Polícia Federal) Alexandre Custódio Neto.
Deflagrada pela PF em 6 de agosto, a Operação Heritage investiga peculato e lavagem de dinheiro em um suposto desvio de R$ 308 milhões em acordo entre a Oi e o governo de Mato Grosso, com dois Fidcs. Os alvos negam irregularidades.
A Operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, avalia 40 fundos, entre FIPs, multimercados, imobiliários e Fidcs, suspeitos de dissimular patrimônio e lavar dinheiro de pessoas ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Alguns dos fundos investigados pela Carbono Oculto também fizeram parte do esquema de fraude do Banco Master, de Daniel Vorcaro, segundo denúncia do Banco Central. Eram administrados pela Reag, gestora liquidada pelo BC.
“Não tenho nada contra o fundo em si. É uma opção legítima para quem quer investir, mas algumas estruturas estão a serviço do crime. Nos deparamos com fundos não apenas na Carbono Oculto, mas em todas as recentes operações contra o PCC —Fim da Linha, Hydra e Última Parada”, afirmou à Folha o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público do Estado de São Paulo, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado.
O risco dos fundos ganhou novos contornos com os EUA declarando PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e prevendo punições para quem se relacionar economicamente com essas facções.
Na 6ª edição do Integrity Conference, da International Chamber of Commerce Brasil, que discutiu como empresas devem se precaver dos riscos associados ao crime organizado, o diretor de governança e conformidade da Petrobras, Ricardo Wagner de Araújo, falou à plateia sobre uma lista de checagem que incluía a seguinte pergunta na hora de fazer negócios: “Tem fundo?”.
Araújo disse à Folha que a estatal escrutina vínculos com fundos antes de contratar. “Se a gente estiver investindo ou fazendo parceria, e a empresa é composta por algum fundo, precisamos conhecer no detalhe”, disse.
“É importante saber quem é o beneficiário, se a pessoa teve processo, condenação oficial ou participou de alguma operação, e se a instituição do fundo é um banco tradicional ou um banco virtual com meia dúzia de clientes. Descoberto isso, queremos saber de onde veio o dinheiro.”
Especialistas atribuem a expansão dos fundos locais a questões regulatórias e tributárias.
A Lei da Liberdade Econômica, de setembro de 2019, deu segurança jurídica a cotistas e prestadores de serviço e permitiu estruturas mais sofisticadas.
Em 2022, duas mudanças regulatórias convergiram para turbinar o setor: a lei n.º 14.430 deu segurança jurídica à securitização de qualquer tipo de recebível, e a resolução 175 da CVM reorganizou e simplificou as regras dos fundos, incluindo os Fidcs.
As mudanças coincidiram com a expansão das gestoras independentes e a desconcentração da indústria, antes dominada pelos grandes bancos.
A tributação também é um motivo para o uso do veículo. “Você pode tributar pessoas jurídicas e físicas. O fundo não é um nem outro —fica no meio, com tratamento diferenciado”, explica o advogado Thiago Giantomassi, sócio de fusões, aquisições e mercado de capitais do Demarest.
Em estruturas em cascata, operações entre empresas podem ser tributadas; entre fundos, a tributação recai sobre o investidor, sob regras do fundo.
Críticos ainda veem distorções nos fundos de fundos. Segundo a IIFA, o Brasil lidera em número (10,7 mil) e proporção (33,1%) nessa categoria, à frente da Coreia do Sul (2.000; 11,9%) e dos Estados Unidos (1.268; 10%).
O advogado Bruno Becker, professor da ESPM, compara em tese de doutorado pela USP a indústria de fundos de 147 jurisdições. Até 67% dos fundos têm até cinco cotistas, e 44%, um.
A avaliação dele é mais crítica: entende que parte da disparidade na comparação internacional ocorre porque a maioria dos fundos no Brasil não é fundo na prática. “Atua como organização patrimonial, como holding, mas não como instrumento de poupança coletiva. Chamam-se fundos porque alguém assim os registrou, e a CVM aceitou o registro.”
Segundo Becker, no mundo, fundo de investimento reúne investidores em carteira diversificada; no Brasil, fundo também é tipo jurídico, mesmo sem função econômica.





