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Brasil rechaçou exigências dos EUA e isolou pressão eleitoral em negociações sobre o tarifaço – CartaCapital


A primeira proposta formal apresentada pelo governo de Donald Trump ao Brasil para negociar o tarifaço de 50% incluía 21 exigências e misturava temas comerciais a demandas ligadas à política interna brasileira. O documento chegou à equipe do chanceler Mauro Vieira em Washington em outubro de 2025 e foi levado ao conhecimento do ministro. A orientação do governo brasileiro foi não aceitar a inclusão de assuntos domésticos na negociação. As 21 exigências foram reveladas pelo jornal O Estado de S.Paulo nesta quinta-feira 17.

Entre os pontos estava a exigência de que o Brasil assegurasse eleições presidenciais “livres e justas” em 2026 e não prendesse ou restringisse arbitrariamente a participação de “dissidentes políticos”. Embora Jair Bolsonaro (PL) não fosse citado nominalmente, o governo entendeu a formulação como uma referência ao ex-presidente, então já condenado pelo Supremo Tribunal Federal e inelegível.

A questão, porém, não chegou a ser tratada como uma pauta negociável. Mauro Vieira recebeu o documento durante a missão brasileira a Washington e determinou que os norte-americanos fossem informados de que aquelas condições não serviriam de base para uma conversa ministerial. O episódio também foi comunicado ao presidente Lula (PT).

A posição adotada pelo governo seguia uma linha definida desde o início da crise tarifária: questões comerciais poderiam ser discutidas, mas democracia, soberania e assuntos políticos internos não seriam moeda de troca em uma negociação.

A avaliação no Palácio do Planalto é que a tentativa mais explícita de interferência havia ocorrido antes, em julho de 2025, quando Trump publicou uma mensagem em defesa de Bolsonaro e atacou diretamente o processo contra o ex-capitão. Na ocasião, Lula respondeu que a defesa da democracia brasileira cabia aos brasileiros e rejeitou interferência ou tutela externa. O episódio abriu uma nova fase de tensão entre os dois governos.

Os 21 pontos não eram, contudo, inteiramente políticos. A maior parte tratava de comércio e economia. Os Estados Unidos exigiam, por exemplo, redução de tarifas sobre produtos como etanol, químicos, máquinas e veículos, e incluíam demandas relacionadas a minerais críticos, trabalho forçado, desmatamento e comércio digital.

Um dos itens tratava do Banco Central e exigia que o Brasil adotasse o princípio da “neutralidade competitiva” em relação à atuação da autoridade monetária na regulação e na supervisão dos arranjos de pagamento. No governo brasileiro, a formulação foi interpretada como uma referência ao Pix e à forma como o sistema de pagamentos é regulado.

Parte desses assuntos reapareceu posteriormente nas negociações comerciais e em investigações abertas pelo governo Trump. Etanol, comércio digital, desmatamento e trabalho forçado, por exemplo, voltaram a aparecer em diferentes momentos da relação bilateral e justificaram, do ponto de vista norte-americano, a adoção de outros tarifaços. A questão eleitoral, porém, não teve o mesmo percurso.

Na reunião entre Lula e Trump realizada na Malásia, em outubro de 2025, o tema político não voltou à mesa. As conversas seguintes se concentraram nos pontos comerciais que continuaram a ser discutidos entre os dois governos.



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