Nascido em Brasília, mas criado em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, Douglas Rocha Almeida, 31 anos, é o mais novo terceiro-secretário da carreira de diplomata do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Ele foi nomeado pelo ministro Mauro Vieira em dezembro último e deverá tomar posse do cargo no próximo 20 de janeiro.
“O concurso foi homologado no dia 5 de novembro de 2025. No início de dezembro, fui ao MRE para entregar documentos e exames, para a minha admissão. O Itamaraty já tinha antecipado a data provável da nomeação. Ainda assim, surtei de felicidade quando vi minha nomeação no Diário Oficial da União, em dezembro de 2025”, afirma o diplomata.
Doulgas competiu com 8.861 inscritos, que disputaram 50 vagas, resultando em uma demanda de cerca de 177 candidatos por oportunidade.
De família humilde, ele começou a trabalhar cedo. Dos 15 aos 27 anos, atuou como garçom em restaurantes, casas de festa infantis e eventos em geral, mesmo quando já tinha diploma de mestrado. A mãe, Cida, mineira que deixou a cidade de São Francisco aos 13 anos para trabalhar como empregada doméstica em Brasília, é diarista ainda hoje.
“Um dos motivos de eu ter estudado para passar nesse concurso é para que ela possa interromper suas atividades como empregada doméstica, que é digna, mas cansativa para ela que tem problemas no nervo ciático, Doença de Chagas e gordura no fígado. Meu próximo sonho é construir para ela um espaço para eventos, para ela alugar e ter renda própria”, afirma Doulgas.
Vida pré-aprovação
Douglas conseguiu se formar em relações internacionais pela Universidade Católica de Brasília (UCB) após conseguir bolsa de 100% do ProUni, além de também ter feito o curso de Letras Espanhol na Universidade de Brasília (UnB). O trabalho de garçom ficou para os finais de semana, até quando um professor o contratou para traduzir alguns livros para o inglês. “Como garçom, ganhava R$150 por dia, mais gorjeta, quando davam. Por ser freelancer, jamais recebi a taxa de serviço de 10%, a qual era repassada somente para os garçons celetistas.”
A escolha pela carreira de diplomata (hoje com salário inicial de R$ 22.558,56) teve, porém, um fundo trágico: a morte da irmã, Thayná, em 2017. “Eu já cursava relações internacionais e letras e, para muitos, já tinha ‘vencido na vida’. Ter essa perspectiva de futuro e não ter podido dividir os frutos com ela me destruiu. Foi provavelmente nesse ano que uma nova estrela (o nome da minha irmã significa estrela, em Tupi) surgiu na minha vida: a diplomacia. Desde então, fui alimentando esse sonho com uma formação sólida e com esperança, mas só comecei a estudar, de fato, em março de 2021, logo quando concluí meu mestrado.”
Antes de ser classificado no concurso para diplomata, Douglas disse que teve uma vida bastante complicada, sobretudo em termos financeiros e emocionais. “Estudei por quatro anos e meio aos ‘trancos e barrancos’, sempre atrás de bolsas e explorando ao máximo os materiais gratuitos. Trabalhei durante toda a preparação e tinha a meta de estudar ao menos três horas líquidas por dia. Em 2023, recebi os recursos da bolsa-prêmio de vocação para a diplomacia, um programa do Instituto Rio Branco que oferece bolsas de R$ 30 mil para pessoas negras. Com essa bolsa, pude contratar os cursos e professores que eu necessitava.”
Sobre a vida pessoal, normalmente deixada em segundo plano pelos concurseiros, Douglas disse que teve “alguma”, até mesmo para manter a sanidade mental. Viajou com a mãe para que ela visse o mar pela primeira vez em Porto Seguro, passeava com a sua cachorrinha Pilar e manteve firme o relacionamento com Hellen Leite, jornalista que começou a namorar e chegou a casar após a homologação do certame, em novembro passado. “Minha esposa sofreu bastante, pois, durante o namoro, eu só a via aos fins de semana e, mesmo assim, já tarde da noite.”
Apesar da distância, Hellen declar seu maior orgulho pelo marido: “Douglas é o personagem do pagode do Revelação: “guerreiro não foge da luta, não pode correr; ninguém vai poder atrasar quem nasceu para vencer”.
Conselho de diplomata
Para pessoas humildes que, assim como ele, também têm um sonho que parece inalcançável, Douglas parafraseia o grupo de rap Racionais MC’s: “Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia – aliás, o rap e o hip-hop foram essenciais na minha aprovação. Dos Racionais ao Emicida. Do Sabotagem à Duquesa.”
“Embora seja difícil analisar todas as variáveis, ao menos duas foram imprescindíveis: políticas públicas e esforço individual. O Estado teve grande importância tanto na minha formação acadêmica como na minha subsistência. Sempre estudei em escola pública, mesmo os idiomas estrangeiros, tendo sido formado em Inglês e em Francês no Centro Interescolar de Línguas (CIL). Fui, ainda, bolsista do ProUni, na Universidade Católica de Brasília. Também fiz licenciatura em Letras Espanhol na Universidade de Brasília. Ademais, concluí mestrado na prestigiada Escola Superior de Guerra”, afirma ele. “Por fim, sobre esforço individual, foram quatro anos e seis meses de muito estudo. Houve suor. Houve lágrimas. As lágrimas, hoje, deslizam sobre um rosto alegre. Alimentam um espírito que quer esforcar-se ainda mais, a fim de entregar uma diplomacia à altura das necessidades e das potencialidades do Brasil”, completa.
A posse do novo diplomata será um evento no auditório do Instituto Rio Branco, na capital federal. “Vou poder levar somente duas pessoas para a posse, por limitação do espaço. E nunca tive a menor dúvida que essas pessoas serão a minha mãe e a Hellen. Logo após a posse, serei lotado no Instituto Rio Branco, para fazer o Curso de Formação de Diplomatas.”







