A alta de 0,84% em fevereiro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) surpreendeu o mercado pela intensidade, já que uma aceleração já era esperada devido à sazonalidade do mês. O avanço, que foi a maior surpresa de alta desde 2003, colocou o mercado em alerta, mas não a ponto de descartar o início do ciclo de corte de juro em março.
O consenso da Bloomberg projetava um índice menor, de 0,56%. Já as demais estimativas do mercado giravam em torno de 0,60%. O indicador funciona como a prévia da inflação oficial do país.
Para a XP, a análise do IPCA-15 de fevereiro mostra um resultado negativo nos indicadores de serviços – que já vinham pressionando a inflação ao longo de 2025 – mas, na leitura geral, houve recuo, o que mostra a efetividade da restrição da política monetária. No acumulado em 12 meses, a taxa caiu de 4,50% (até janeiro) para 4,10% nos 12 meses anteriores a fevereiro.
Viva do lucro de grandes empresas
| Período | Taxa |
| Fevereiro de 2026 | 0,84% |
| Janeiro de 2026 | 0,20% |
| Fevereiro de 2025 | 1,23% |
| Acumulado no ano | 1,04% |
| Acumulado nos últimos 12 meses | 4,10% |
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Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo, afirma que a surpresa com o IPCA-15 deve ser analisada com cautela. “O desvio em relação às expectativas e a maior pressão dos núcleos de inflação merecem atenção, mas a leitura corrente tem peso limitado para a condução da política monetária”, afirma. Para ele, a inflação observada hoje reflete decisões passadas de política monetária. Já as próximas decisões “dependem sobretudo da trajetória projetada para o horizonte relevante de 18 meses à frente”, diz.
Educação e Passagens Aéreas lideram altas
A principal surpresa para o indicador veio do setor de serviços, que foi impactado pelos preços das passagens aéreas e pelos seguros de veículos.
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As passagens aéreas tiveram um salto expressivo de 11,64% na comparação com o mês anterior, figurando como um dos principais fatores de desvio em relação às expectativas de mercado.

O grupo de Educação também exerceu forte pressão no índice, refletindo a alta de 6,18% nos cursos regulares, um movimento impulsionado pela sazonalidade típica do reajuste de matrículas escolares neste período do ano.
Juntos, os grupos de Transportes e Educação responderam por 80% de toda a inflação observada no mês de fevereiro.
A tabela abaixo detalha as principais variações e surpresas observadas na composição do índice:
| Grupo | Variação/Janeiro (%) | Variação/Fevereiro (%) |
| Índice Geral | 0,2 | 0,84 |
| Alimentação e bebidas | 0,31 | 0,2 |
| Habitação | -0,26 | 0,06 |
| Artigos de residência | 0,43 | 0,21 |
| Vestuário | 0,28 | -0,42 |
| Transportes | -0,13 | 1,72 |
| Saúde e cuidados pessoais | 0,81 | 0,67 |
| Despesas pessoais | 0,28 | 0,2 |
| Educação | 0,05 | 5,2 |
| Comunicação | 0,73 | 0,39 |
De acordo com a XP, os preços dos cinemas não apresentaram a queda esperada e os serviços com uso intensivo de mão de obra avançaram 0,66%, refletindo ainda um mercado de trabalho aquecido.
O Bradesco pontuou que os bens industriais registraram uma alta ligeiramente acima do esperado, puxada em grande parte pelo grupo volátil de higiene pessoal, embora o segmento mantenha uma trajetória de desaceleração na variação anual.
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A deterioração do índice na margem foi um ponto comum nas análises, mas com diferentes perspectivas sobre a sua gravidade.
André Valério, economista sênior do Inter, explicou que o indicador veio acima do esperado e que o qualitativo do índice continua apresentando deterioração na margem. Valério apontou, contudo, que essa piora era esperada devido à sazonalidade do mês e que o processo de desinflação da economia persiste.
| Grupo/Item | Variação mensal | Impacto/Surpresa |
| Passagens Aéreas | +11,64% | Principal surpresa altista |
| Cursos Regulares | +6,18% | Alta sazonal esperada |
| Seguros de Veículos | +5,6% | Surpresa altista |
| Bens Industrializados | +0,44% | Praticamente em linha com as expectativas |
| Produtos Alimentícios | +0,09% | Acima da expectativa de deflação |
Por outro lado, Gustavo Gonzaga, economista da Necton Investimentos, ponderou que “do ponto de vista qualitativo, as medidas mais relevantes para a política monetária contrariaram nossa expectativa de normalização após a virada do ano e se mostraram mais pressionadas mesmo à luz da sazonalidade adversa”.
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Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, complementou as preocupações ao afirmar que “o resultado acende um sinal de alerta em relação à perspectiva de melhora estrutural da inflação ao longo do ano”.
Impactos nos juros e decisão do Copom
A leitura mais pressionada do IPCA-15 traz implicações diretas para a condução dos juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
Para Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, apesar de o acumulado em 12 meses ter recuado para 4,10%, abaixo dos 4,50% anteriores, o dado corrente traz um “sinal de alerta importante”. “A inflação de serviços e os núcleos seguem pressionados, o que reduz o espaço para um início mais agressivo do ciclo de cortes”, diz. Ele pontua que a reação do mercado foi imediata, o que fez os juros futuros subirem cerca de 15 pontos. No entanto, o corte de juro não está descartado. Para Spyer, ele deve ocorrer, mas a probabilidade é que o Copom seja mais cauteloso nesta intensidade.
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Gustavo Gonzaga, da Necton Investimentos, também destacou uma certa “mensagem incômoda” para o Copom às vésperas do esperado ciclo de cortes de juros, previsto para março.
Já a XP avalia que as expectativas de inflação arrefeceram, e que a tendência desinflacionária de preços em industrializados e alimentos permanece. Com isso, a casa mantém a previsão de redução da taxa Selic em 50 pontos-base na reunião de março do Copom, chegando a 14,50%.
Para o Goldman Sachs, estamos em frente a um cenário de “dinâmica inflacionária ainda desafiadora”. O banco cita o setor de serviços com inflação em 6,1% ao ano, as expectativas de inflação de curto e médio prazo sem ancoragem, um hiato do produto positivo, o mercado de trabalho restrito e as medidas contínuas de estímulo fiscal e de crédito, o que “exige uma calibragem conservadora da política monetária”.
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Apesar desta leitura, o Goldman Sachs não descarta o corte de juro em março. “A política monetária restritiva está operando conforme o esperado (crescimento moderado, crédito desacelerando, expectativas de inflação caindo lentamente, valorização do real), criando espaço para o início de um ciclo de normalização das taxas de juros, provavelmente na reunião de março”, diz a instituição.
Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo, afirma que esta dinâmica da inflação representa impedimento para o Banco Central iniciar o ciclo de corte de juros na reunião de 18 de março. “Avaliamos que o arrefecimento da atividade econômica, das expectativas de inflação e o elevado nível das taxas de juros reais justificariam uma redução”, diz.
No que diz respeito às perspectivas futuras, as instituições financeiras mantêm suas projeções de médio prazo ancoradas.
A XP Macro projeta o IPCA acumulado em 2026 no patamar de 3,8%. O Bradesco compartilha da mesma visão, esperando uma alta acumulada da inflação de 3,8% para o final de 2026, com o entendimento de que a surpresa atual foi disseminada em itens voláteis e não altera a tendência principal de desaceleração rumo à meta. O mercado segue acompanhando a evolução dos preços de serviços e os efeitos das sazonalidades para calibrar as projeções dos próximos cortes de juros.





