Início FINANÇAS Apesar da guerra, ainda há espaço para volta dos IPOs, diz especialista

Apesar da guerra, ainda há espaço para volta dos IPOs, diz especialista


O mercado ainda espera a volta das aberturas de capital nos próximos meses, depois de quase quatro anos sem nenhum IPO, apesar de toda a turbulência provocada pela guerra no Oriente Médio e da queda do Índice Bovespa neste mês.

Segundo Daniel Laudisio sócio da área de Mercados de Capitais do TozziniFreire Advogados, pelo menos por enquanto, a instabilidade não impactou a expectativa de movimentações para o primeiro semestre, que deve ser o mais ativo deste ano para as ofertas iniciais de ações. “O terceiro trimestre em particular se torna mais difícil pela questão local das eleições”, afirma.

Eleição pesa a partir de junho

Segundo ele, a eleição conta, mas de certa forma já está nos cálculos para quem está saindo com ofertas no curto prazo. Mas, depois de junho, quando a data da votação se aproximar, é provável que empresas e investidores prefiram esperar o resultado. E, dependendo do desfecho da eleição, o movimento pode ser maior que o esperado nos últimos meses do ano.

Viva do lucro de grandes empresas

Para Laudisio, a expectativa de retomada de ofertas iniciais no primeiro semestre se mantém. “Por enquanto, da forma como a guerra se encontra, ela não teve efeito nas operações que a gente estava preparando, tanto que fomos mandatados em operações de equity (oferta de ações) na semana passada, já com a guerra acontecendo”, diz. “O que não significa que não irá afetar”, acrescenta. Para ele, só um eventual agravamento da guerra, especialmente com algum tipo de disrupção da cadeia de suprimentos, especialmente de petróleo, que afetasse a economia mundial, poderia complicar o cenário para as ofertas.

Um fator favorável é que os setores que apresentam maior atividade para abertura de capital não são diretamente afetados pelos preços do petróleo. “Apenas se o conflito se acentuar e levar a uma crise global e a uma restrição de capitais em geral haveria um impacto nas ofertas, mas a leitura geral é que neste momento ainda não há esse cenário”, afirma Laudisio.

Ele diz também que não há sinais sobre a redução de interesse do investidor estrangeiro por ofertas no Brasil. “A percepção que temos recebido de tanto das empresas quanto dos bancos continua igual, os processos estão seguindo normalmente”, afirma. Ele admite que a guerra traz um fator de imprevisibilidade, mas a expectativa é de que o conflito tende a diminuir daqui por diante, e não piorar, como indicou ontem o presidente americano Donald Trump em entrevista, o que provocou uma recuperação dos mercados de risco globais.

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Maior previsibilidade

Mesmo as ofertas que estavam previstas para sair no curtíssimo prazo não devem ser adiadas, acredita Laudisio. “Até porque, quando se olha para as empresas que estão na fila para abrir capital, tem muita coisa de setores regulados, em que há previsibilidade de faturamento e a receita é local”, diz.

Ele destaca que já havia expectativa de volta das ofertas antes da guerra, mesmo com um ambiente macroeconômico local desfavorável para ações, com juros bastante altos e certa instabilidade política. Além disso, há um movimento de saída de capitais dos Estados Unidos para outros países e o Brasil acaba se sobressaindo diante das opções internacionais.

Saneamento e energia

Laudisio acredita que a retomada dos IPOs deve começar com setores regulados, como saneamento e energia, por sua maior previsibilidade de receita, o que torna mais fácil a avaliação pelos investidores. “São empresas que apresentam uma volatilidade menor e menos exposição a soluços de mercado que podem afetar outros setores”, afirma.

Outro segmento que pode ter aberturas de capital é o imobiliário, além de outros mais específicos. “A gente tem algumas propostas de empresas do setor de comércio eletrônico, bastante coisa do setor de ciência e tecnologia que pode vir, mas se eu tivesse que especular um setor predominante, eu diria que é o de regulados”, diz o advogado.

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Onda de ofertas

Ele espera uma onda grande de ofertas quando as empresas estiverem com as demonstrações financeiras anuais prontas, o que deve ocorrer até o fim deste mês. “Claro que não será nada parecido com o que a gente viveu naquele salto de pandemia, em 2021, mas devemos ter muitas operações”, diz.

Riscos para as ofertas

O fim do jejum das aberturas de capital em breve não é, porém, uma unanimidade. Para Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore, consultoria especializada em mercados de capitais, a instabilidade geopolítica vem trazendo volatilidade ao mercado de tal forma que a janela de IPOs vai precisar, novamente, aguardar por mares mais calmos. “E com a eleição presidencial se aproximando, há o risco de que nem tenha oportunidade dessa janela abrir em 2026”, afirma.

Para os próximos IPOs, Wainstein acredita que o mercado deve priorizar empresas com sólido histórico de lucro, geração de caixa e governança sólida. Setores como infraestrutura, energia, saneamento, saúde, seguros, serviços financeiros e empresas ligadas ao agronegócio tendem a ser candidatos naturais. “O ciclo atual favorece previsibilidade, o investidor está menos disposto a financiar apenas crescimento e mais focado em qualidade”, diz.

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Tributação de dividendos

Para ele, a tributação de dividendos que passou a valer este ano entra diretamente no modelo de precificação/valuation do investidor. Mas o impacto varia bastante conforme o tipo de investidor. Para a pessoa física brasileira, o efeito é mais direto, porque o dividend yield líquido diminui. Isso pode reduzir a atratividade de empresas muito focadas em distribuição de dividendos. Para investidores institucionais locais, o impacto é mais técnico, ligado à eficiência fiscal e à estrutura do fundo, mas eles tendem a olhar o retorno total. Para o investidor estrangeiro, a análise é comparativa. “O ponto é se o retorno líquido no Brasil continua competitivo em relação a outros mercados”, diz. Se houver compensação tributária no país de origem, o impacto é menor.

Ainda assim, olhando historicamente, juros reais e estabilidade macro pesam muito mais na decisão de abrir capital do que a tributação isoladamente, acredita Wainstein.

Questão de confiança

O Brasil já tem uma estrutura institucional razoável para o aumento dos IPOs, afirma. O desafio, diz, é estrutural. “Precisamos ampliar a poupança doméstica de longo prazo voltada para ações, reduzir fricções regulatórias para empresas médias e estimular liquidez e cobertura após o IPO”, afirma. “No fim do dia, um IPO é uma decisão de confiança, confiança no ambiente macro, na estabilidade jurídica e na previsibilidade das regras”, explica. Sem isso, a janela sempre será curta e cíclica, conclui.



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