Não são só os fundos de ações que estão se beneficiando da forte alta da bolsa brasileira. Os fundos multimercados macro, que buscam ganhar com os impactos do cenário macroeconômico sobre os investimentos, acumulam rentabilidade de até 30% em 12 meses encerrados no dia 27 de janeiro, reflexo de ganhos também com juros e moedas e com investimentos no exterior.
Uma lista com 15 fundos de estratégia macro e mais de R$ 500 milhões de patrimônio com melhor desempenho, feita pelo InfoMoney com dados da Economática, mostra oito fundos com ganhos acima de 20%, ou mais de 140% do CDI, referencial da renda fixa.
Apenas neste ano, alguns fundos renderam mais de 3%, quase o triplo do CDI no período. Entre os melhores desempenhos há fundos mais arriscados, com volatilidade alta, de 9% em termos anuais, o que significa que podem perder até 9% no ano no pior cenário, mas também multimercados com baixa volatilidade, com pouco mais de 3% (ver tabela).
Viva do lucro de grandes empresas
| Fundo | Gestora | Retorno 1 ano (%) | % CDI | Retorno 2026 (%) | Retorno trimestre (%) | Volatilidade (% a.a.) | Patrimônio R$/mil |
| Parcitas Hedge Master | Parcitas | 33,33 | 229,54 | 6,58 | 12,86 | 9,00 | 764.666 |
| Kapitalo Zeta Merídia Master | Kapitalo Ciclo | 30,56 | 210,46 | 5,95 | 13,64 | 8,92 | 4.763.465 |
| Kapitalo K10 Máster Fundo | Kapitalo Ciclo | 29,86 | 205,63 | 3,25 | 6,06 | 7,16 | 7.155.135 |
| Vinland Macro Master | Vinland Capital | 24,88 | 171,29 | 2,39 | 4,63 | 3,55 | 740.161 |
| Capstone Macro Master | Capstone | 23,63 | 162,71 | 4,56 | 6,97 | 6,32 | 12.293.156 |
| Kapitalo Kappa Advisory | Kapitalo Ciclo | 21,84 | 150,41 | 3,58 | 8,71 | 5,24 | 515.757 |
| Verde Master | Verde Asset | 20,97 | 144,38 | 3,88 | 6,07 | 3,62 | 5.798.508 |
| Legacy Capital Alpha Master | Legacy Capital | 20,35 | 140,16 | 3,00 | 4,94 | 8,38 | 2.816.038 |
| Itaú Gdp Centralizador | Itau Asset | 19,95 | 137,40 | 2,74 | 4,74 | 3,31 | 4.338.065 |
| Bahia Asset Maraú Master | Bahia Asset | 19,89 | 136,96 | 2,37 | 4,39 | 2,59 | 1.054.814 |
| Opportunity Total Master | Opportunity Gestão | 19,37 | 133,36 | 2,18 | 4,66 | 9,73 | 2.298.320 |
| Ace Capital Master | Ace Capital | 19,36 | 133,34 | 2,85 | 4,25 | 3,36 | 697.078 |
| Ibiuna Hedge St Master | Ibiuna Macro | 19,18 | 132,05 | 4,93 | 5,62 | 5,12 | 3.176.695 |
| Legacy Capital Edge | Legacy Capital | 18,71 | 128,82 | 2,87 | 4,58 | 8,31 | 1.108.331 |
| Itaú Global Dinâmico Plus | Itau Asset | 18,42 | 126,84 | 2,49 | 4,29 | 3,16 | 1.460.946 |
Entre os fundos com maior rentabilidade está o Parcitas Hedge Master, da gestora Parcitas Investimentos, casa fundada há 14 anos e focada em multimercados e fundos de ações. Segundo Rodrigo Gatti, sócio e diretor de operações da gestora, o fundo multimercado Hedge Macro tem 11 anos e apresentou bom retorno nos últimos três anos, mas mais recentemente a performance foi “mais pujante”.
“No início de 2025, vimos que a renda variável, especialmente no Brasil, apresentava boa relação risco-retorno, especialmente em ações de Utilities (empresas de serviços públicos), que têm um perfil parecido com renda fixa, com bons dividendos regulares, e estavam com desconto grande”, lembra. Desde então, o fundo vem investindo nessa classe de ações até o limite de risco.
Investimento no exterior
Outra aposta em ações foi no exterior, com o entendimento antecipado sobre empresas de inteligência artificial. “Foram as principais teses que tivemos em 2025 e com frutos até hoje”, diz, destacando os papéis da Axia no Brasil e do Google e da fabricante de semicondutores de Taiwan TSMC, que puxaram a performance da carteira. O fundo também fez um pequeno investimento em ouro diante do enfraquecimento do dólar e por questões geopolíticas que levaram os bancos centrais de vários países a trocarem títulos americanos pelo metal em suas reservas. “Pegamos o rali desde o início”, diz.
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O Parcitas Hedge manteve neste ano praticamente as mesmas estratégias, mas trabalha com um cenário um pouco mais cauteloso para o Brasil por conta da eleição. “Mas o foco maior que monitoramos é essa manutenção de cenário internacional, com dólar fraco, fluxo de alocação saindo dos EUA e indo para outros países e o Brasil é favorecido, assim como o real e os ativos de risco locais”, diz. A volatilidade do fundo é relativamente alta, 8% a 10% ao ano, mas é compatível com o nível de risco necessário para compensar a taxa de administração de 2% ao ano mais 20% do que superar o CDI, afirma Gatti.
Dispersão de resultados
Os multimercados vêm entregando bons resultados desde o ano passado, mas com uma grande dispersão de desempenho, diz Andressa Bergamo, especialista em investimentos e sócia da AVG Capital. “Os gestores que souberam navegar melhor juros altos, câmbio volátil e movimentos táticos em bolsa conseguiram capturar boas oportunidades”, diz. Já os fundos mais posicionados ou com menor flexibilidade sofreram mais.
Neste ano, o cenário continua favorável para bons gestores, com oportunidades principalmente em juros e bolsa, mas com maior risco de volatilidade. “Não considero um bom ano para investimentos em fundos passivos ou muito alavancados”, diz Andressa. Ela defende que os bons multimercados continuam sendo um ativo importante de diversificação de carteira, especialmente para investidores que não querem depender exclusivamente de um único cenário econômico.
Ajuda do kit Brasil
Os multimercados tiveram um desempenho sofrível em 2023 e, especialmente, em 2024, afirma Bruno Perri, economista chefe e sócio fundador da Forum Investimentos. Ele usa como parâmetro o índice de hedge funds IHFA, calculado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Esse índice ficou bem atrás do CDI nesses dois anos, o que afastou os investidores. Já em 2025, a média do IHFA ficou acima do CDI, e muito desse ganho veio do chamado kit Brasil, estratégia de aposta na alta da bolsa, queda do dólar e dos juros. Neste ano, o IHFA até o dia 27 de janeiro teve um retorno de 2,5% ante um CDI acumulado em torno de 1,11% no mesmo período, mais que o dobro de retorno, em grande parte pela valorização da bolsa. “Tivemos recordes atrás de recordes no Ibovespa e isso favoreceu os ativos de risco e os multimercados comprados em bolsa, em sua grande maioria”, diz Perri. “Houve ganhos também com a aposta na queda do dólar”, acrescenta.
Ano mais difícil
Olhando para esse ano, Perri acha que a expectativa é de os gestores seguirem comprados no kit Brasil. “Claro que essa valorização significativa recente do mercado pode fazer com que eles mudem um pouco essas posições, mas entendemos que vai ser o desempenho do mercado brasileiro que vai direcionar a boa performance dos multimercados”, diz.
Ele afirma, porém, que está um pouco cético, já que, apesar da queda dos juros, a Selic média do ano deve ficar em torno de 13% ao ano, ainda bastante alta, o que torna um desafio para os investidores superarem o referencial e ainda cobrirem as despesas com taxas de administração de 2% ao ano mais performance.
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Flexibilidade para mudar
Os fundos multimercados têm como diferencial a flexibilidade para mudar as posições de acordo com o mercado, diz Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos. Nos últimos anos, porém, os investidores se afastaram desses fundos diante de resultados abaixo do esperado. “O que acabou prejudicando a classe foi a quebra de correlação entre alguns ativos nos últimos anos”, explica.
Ela dá o exemplo de 2022 e 2023, anos em que houve alta dos juros nos Estados Unidos e da bolsa americana. “Em geral os multimercados usavam posições vendidas em bolsa para se proteger da alta dos juros, mas depois da pandemia essa correlação mudou e isso acabou prejudicando os multimercados como um todo”, diz. No ano passado e neste ano, porém, a rentabilidade voltou e, em janeiro, os multimercados captaram cerca de R$ 17 bilhões, afirma Clara, citando dados da Anbima.
Para Clara, o investimento em multimercados deve ser estrutural, independentemente do cenário, pois permite ao investidor ter na carteira um ativo que se adapta a diferentes momentos do mercado. Ela dá o exemplo do ano passado. Levantamento da XP em janeiro mostrava que 67% dos gestores estavam vendidos em real, apostando na alta do dólar e, em março, a partir do tarifaço do presidente americano Donald Trump, inverteram as posições e passaram para 67% vendidos em dólar, apostando na queda da moeda americana.
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Em janeiro deste ano, esse número subiu para 72%. Os gestores também estão se beneficiando da alta da bolsa, com 42% afirmando que estão comprados em ações brasileiras. E apostando na queda dos juros, com 58% comprados em taxas prefixadas. “Se você não tem agilidade para ficar trocando posições na carteira, tenha um instrumento que faz isso”, diz Clara.
A especialista lembra também que é importante o investidor observar a volatilidade dos fundos. No caso da XP, a preferência é por fundos de baixa volatilidade. Os desempenhos dos gestores também são muito diferentes. Estudo da XP indica que, nos últimos 36 meses, o grupo dos multimercados mais rentáveis teve rendimento de 42%. O segundo grupo teve ganho de 32% e o terceiro, de 25%. A conclusão é que o investidor precisa escolher os fundos com cautela ou optar pela ajuda de um especialista ou por um fundo de fundos, que faça a seleção pelo investidor.
Estratégias tradicionais
Eduardo B. Marocke, head de Fundos de Investimento, Previdência e Alternativos na Faz Capital, observa que os multimercados estão normalmente aplicados em juros e bolsa e se beneficiam de cortes na taxa e da alta da bolsa de valores. “São posições tradicionais e vão muito bem em ciclos de corte de juros, mas a bolsa desta vez disparou não tanto pelo juro local, mas porque o estrangeiro está vindo para cá por conta de uma desvalorização do dólar”, diz. Com a queda eventual do juro, os dois fatores acabaram criando o cenário perfeito para os multimercados. Mas, como alocador de recursos, Marocke alerta que é preciso separar bem a casas de gestão, conhecer suas estratégias para não generalizar e acabar se animando demais. “Mas existe uma retomada gradual e isso vem beneficiando os multimercados”, diz.
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Marocke dá preferência para grandes casas de gestão, mais tradicionais, normalmente independentes, com gestores que saíram de tesourarias de bancos e com o passar do tempo tem indicadores quantitativos e qualitativos mais consistentes. Para ele, a consistência tem de ser testada de várias formas, na prática, especialmente nas crises de mercado. Com o tempo e a proximidade, o alocador acaba conseguindo aumentar a confiança.
Perfil do investidor também conta
Ele acredita também que é preciso olhar mais para o perfil do investidor, que no Brasil se acostumou com investimentos sem marcação a mercado e, portanto, não percebe a volatilidade. “Vejo muitos que poderiam estar em um investimento de risco que iria bem no tempo, mas não aguentam a jornada de volatilidade até lá”, diz. Outras vezes o investidor se anima demais com a euforia do mercado, aplica em fundos de maior volatilidade e quando tem performance um pouco pior em seis, 12 meses acaba saindo. “O multimercado deveria ser tratado como opção de médio prazo, dois anos”, diz.





