Início NACIONAL Trump, Bibi e a política do delírio – CartaCapital

Trump, Bibi e a política do delírio – CartaCapital


Em reportagem assinada por Donald Swan e Maggie Haberman, o New York Times nos conta uma história fabulosa. Não vou repeti-la, mas sim comentá-la.

No último dia 11 de fevereiro, Benjamin Netanyahu chegou à Casa Branca acompanhado de muitos assessores, entre eles o diretor atual da Mossad (David Barnea). O grupo se dirigiu à chamada Situation Room (a Sala de Crise), onde foi recebido por muita gente: Marc Rubio (secretário de Estado), Pete Hegseth (secretário de Defesa) e o general Dan Caine (chefe das Forças Armadas). A reunião tinha por objetivo apresentar a Donald Trump o projeto israelense de ataque ao Irã, composto de quatro objetivos: 1. Eliminar o aiatolá; 2. Prejudicar a capacidade iraniana de atacar seus vizinhos; 3. Produzir uma insurreição popular no Irã; 4. Forçar, no Irã, uma mudança política pró-Ocidente (pasmem, fala-se inclusive em patrocinar a ascensão do filho de Reza Pahlavi, que vive até hoje exilado em Nova York e se intitula “Príncipe Herdeiro do Irã”, na Wikipedia).

A história é realmente fabulosa porque nela se misturam aspectos centrais da situação global que estamos atravessando.

O primeiro aspecto é o seguinte: Trump, segundo relato, sensibiliza-se mais pela convicção de quem fala do que pelo conteúdo daquilo que é dito. Existe uma atração do presidente pela firmeza, pela assertividade, mais do que pela realidade. É uma atração evidentemente fálica. Faz sentido que ela se faça em Trump, por dois motivos.

Um é de ordem pessoal: é a lógica do líder empresarial, que procura em seus colaboradores a “virtude” da certeza, que serve ao propósito da liderança. Napoleão arrastou 400 mil franceses para a invasão da Rússia, no maior suicídio coletivo da história humana. Para fazê-lo, precisou de uma retórica firme, convencendo a soldadesca de seu delírio.

O outro é de ordem cultural: quem conhece os desenhos animados norte-americanos está familiarizado com suas mensagens: “querer é poder”, “tudo é possível”, “não ligue para quem duvida” etc. Essas mensagens têm um lado edificante para as crianças, mas são facas de “dois gumes”. De um lado, estimulam a autoestima e a autoconfiança dos indivíduos. De outro, apagam os limites entre realidade e delírio. Na lógica trumpista, não parece existir interesse por coisas ordinárias como probabilidade, pertinência ou lições do passado. As entrevistas do presidente fornecem uma coleção infindável de sintomas dessa mania. Trump, nesse sentido, é um americano bastante comum — por isso, popular.

O segundo aspecto de interesse da reportagem — afora o seu texto saboroso — é que existe na reunião uma única pessoa, digamos, “lúcida”, e essa pessoa é o general Caine. Aqui, façamos um parêntese: grita no leitor brasileiro da matéria o contraste com a realidade local, como vimos no julgamento da trama golpista de janeiro de 2023. Em seus depoimentos à Justiça, o generalato brasileiro forneceu aos amantes da ficção um calhamaço de decisões cômicas tomadas por personagens patéticas, completamente descomprometidas com a viabilidade de suas intenções e atravessadas por uma “leitura” bisonha do contexto — leitura que, por certo, envergonhou o orgulho estratégico da Escola Superior de Guerra. O general de Trump, em meio à profusão de demências que são ditas no encontro norte-americano, é a voz solitária que afirma: “‘É improvável que possamos causar uma troca de regime em Teerã”.

Existe ainda um terceiro aspecto, anedótico talvez, mas de altíssima importância se considerarmos a verborragia que hoje cerca a questão do antissemitismo. É que o tal general, ao tomar a palavra, afirma não estar inteiramente convencido do plano apresentado por Netanyahu — apesar da convicção demonstrada. Na verdade, acredita ele, esse plano se baseia no “procedimento operacional padrão israelense” [sic], que consiste (segundo ele) em oversell suas ideias e qualidades. O general explica que, por sua experiência, já sabe como isso funciona: “Eles inflacionam [oversell], e os planos deles nem sempre são bem desenvolvidos. Eles precisam de nós, por isso estão forçando [hard-selling]”.

O general, se fosse brasileiro, deveria ser preso por Tabata Amaral. Observem, afinal de contas, que as entrelinhas de sua precaução se apoiam em uma evidente adaptação da velha caricatura antissemita, o estereótipo do comerciante judeu desonesto, adaptada por ele para essa “situação de crise”. Oversell, na língua inglesa, significa literalmente isso: inflar o preço de algo, inflacionar o valor de um determinado bem, enganar o comprador em relação às qualidades de uma mercadoria. A única “sutil diferença” é que a fala do general troca “judeu” por “israelense”, mantendo, porém, intacta a estrutura sintática do preconceito propriamente dito. Hard sell é o mesmo, isto é, empurrar um engodo para cima dos outros, mediante pressão.

Talvez até seja verdade que o governo israelense procure — retoricamente — angariar aliados para a sua causa. A reunião, entretanto, indica algo sobre a improvável aliança entre Washington e Tel Aviv — em prol dos “valores judaico-cristãos” (conforme a fala viralizada de Karoline Leavitt, atual porta-voz da Casa Branca). Na verdade, essa aliança tem ainda um bom quinhão de rachaduras políticas, provenientes da velha “batalha” confessional entre duas religiões que viveram sempre às turras. Aliás, conviria aos israelenses — e/ou judeus — lembrar que, na matemática da história, seus piores algozes (ainda não superados) não foram os muçulmanos, e sim os santinhos cristãos do pau oco. Os líderes israelenses optaram por esquecer-se disso à medida que Israel se convertia em instrumento simples do imperialismo ocidental no Oriente Médio, hoje irrefutável.

Essa doída lembrança virá logo mais, quando Trump e os fundamentalistas da Casa Branca deixarem Netanyahu à míngua. Afinal, como disse o próprio Trump, em resposta ao general prudente, “vamos seguir com os objetivos 1 e 2”. Os objetivos 3 e 4 “são problema deles”. Segundo os repórteres, ninguém na reunião entendeu se esse “eles” eram os israelenses ou os próprios iranianos.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.



FONTE

Google search engine