Captura de Maduro, 1ª demonstração de força desde a Nova Estratégia de Segurança Nacional, manda sinais para vários países
As consequências da operação de captura de Nicolás Maduro na Venezuela no sábado (3.jan.2026) tendem a ser amplas e duradouras. O presidente norte-americano, Donald Trump (Partido Republicano), busca reacomodar as forças no quadro global. O objetivo explícito é que os Estados Unidos passem a ter mais poder do que têm. Trump mirou a Venezuela para atingir o mundo todo.
A ação na Venezuela é a 1ª demonstração de força dos EUA desde a publicação, em 5 de dezembro de 2025, da nova Estratégia de Segurança Nacional. Leia a íntegra (PDF – 500 kB). O documento, assinado por Trump, tem a linguagem direta que o presidente aprecia. Diz que a política externa do país será pragmática, sem deixar de ter princípios.
O objetivo de Trump neste 2º mandato é assegurar um lugar de destaque na história. Ele quer ser lembrado por décadas, quiçá séculos. Para isso, remete ao passado que considera glorioso para os EUA: o final do século 19. Menciona a Doutrina Monroe, de James Monroe (1758-1831), que foi presidente dos EUA de 1817 a 1825.
A doutrina dizia que a América é dos americanos. Isso tinha, na época, sentido anticolonialista. Também o de afastar a influência de potências europeias da América Latina. Na leitura de Trump, essa 2ª parte é a que importa atualmente. No lugar de países europeus, entra a China.
A partir do documento e de outros elementos, é possível indicar consequências da operação dos EUA no sábado em várias frentes.
INTERVENÇÕES EM OUTROS PAÍSES
A indicação de Trump é que poderão se tornar mais comuns, como no caso de Maduro. Não quer dizer que os EUA farão intervenções de fato com frequência. Mas isso estará sobre a mesa. O modo de operar de Trump, que se tornou mais claro no 2º mandato, é elevar as ameaças para negociar a partir de uma posição mais vantajosa. Vale para a economia, para a política interna e para a diplomacia.
O documento do governo Trump diz que as intervenções em outros países não ferem princípios norte-americanos. Menciona a “predisposição à não intervenção”, contida na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas faz uma ressalva: “Para um país com interesses que são diversos e numerosos como os nossos, a rígida adesão ao não intervencionismo não é possível”. Afirma, contudo, que é algo a ser evitado. “Essa predisposição eleva o sarrafo para o que constitui uma intervenção justificada”.
OPERAÇÕES PONTUAIS
A captura de Maduro foi considerada um sucesso operacional. Pode ser usada em outras situações. Ou como precedente em casos de pressão dos EUA para que o líder de um país deixe o poder.
A operação de sábado foi feita em poucas horas por um grupo de operações especiais. O número de militares que participaram da ação não é público. Estima-se que tenham sido no máximo algumas centenas, incluindo os que participaram dos ataques a alvos militares venezuelanos.
É um grande contraste com a captura, em 1989, do então líder do Panamá, Manuel Noriega (1934-2017). Participaram da operação, na época, 27.000 soldados norte-americanos.
Operações especiais têm apoio na sociedade norte-americana por exigirem poucos militares, com chances pequenas de morrerem ou ficarem feridos. Os custos também são menores.
CHINA
O país é um dos principais alvos indiretos da operação na Venezuela. Uma das mensagens do governo Trump é que os EUA pretendem tomar o espaço econômico que a China conquistou nas últimas décadas na América Latina.
O governo de Maduro mantinha relações intensas com a China. Qiu Xiaoqui, enviado especial do país, encontrou-se com o venezuelano em Caracas na 6ª feira (2.jan), horas antes de ele ser capturado.
O país asiático possivelmente terá de recorrer a outras fontes para compensar o petróleo importado da Venezuela. Não será um grande problema por causa da diversidade de parceiros comerciais.
A China criticou a captura de Maduro e disse que ele deve ser libertado “imediatamente”. Mas não tem meios de elevar o tom nessa situação.
A China tem, porém, com o caso da Venezuela, um bônus moral para sua reivindicação de controlar Taiwan. A ilha, que tem um governo autônomo, é considerada parte do território chinês pelos EUA e por todos os países relevantes.
O argumento chinês poderá ser: se os EUA desrespeitam a soberania da Venezuela, nós temos o direito de fazer uma operação militar para anexar um território que nos pertence.
Paradoxalmente, o governo Trump dá alguns sinais de ser menos resistente a isso do que os governos de seus antecessores. A avaliação do Departamento de Guerra dos EUA é que a China poderá tomar Taiwan até o final de 2027.
O governo Trump espera que a própria ilha aumente seus gastos de defesa para impedir isso. Não demonstra pretender se empenhar muito na defesa da ilha. No passado, governos dos EUA já foram bastante enfáticos quanto a esse objetivo.
VENEZUELA
Trump disse que os EUA vão administrar a Venezuela no período de transição pós-Maduro. Afirmou também que a presidente interina do país, Delcy Rodríguez (MSV, esquerda) , demonstrou que poderá cooperar com os EUA – o que ela negou. Trump disse ainda que a líder da oposição, Maria Corina Machado, não tem apoio para comandar o país.
O presidente dos EUA não evita declarações contraditórias desde que sirvam para mandar mensagens. O conjunto de suas declarações indica duas situações, não necessariamente excludentes:
- os EUA negociariam com o governo venezuelano atual uma transição em que os custos econômicos e sociais sejam reduzidos e na qual seja possível assegurar maior presença de empresas norte-americanas na exploração de petróleo;
- os EUA negociariam com a oposição a participação do grupo nessa transição, sem deixar isso claro por ora para evitar o aumento da tensão social e política na Venezuela.
BRASIL
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está em uma situação delicada. Não pode deixar de criticar o ataque à Venezuela nem fazê-lo de forma que irrite os EUA, pois tenta reconstruir pontes diplomáticas com o país.
Lula tem experiência para operar em situações difíceis. A nota em que ele critica a operação do sábado menciona os ataques, mas omite qualquer menção aos EUA. É quase uma prática de ilusionismo diplomático.
O documento do governo Trump sobre a Estratégia de Segurança Nacional menciona a necessidade de fortalecer países estáveis na América Latina. Se o governo Lula aproveitará essa disposição para demonstrar que pode ser um desses países é algo ainda em aberto.
EUROPA
A Estratégia de Segurança Nacional reforça a disposição de Trump de impedir punições às big techs pela atuação na Europa. O governo dos EUA disse que não admitirá “censura extraterritorial”.
Trump também espera que os europeus gastem mais com a própria defesa e dependam menos dos EUA. O ataque à Venezuela demonstra qual é a prioridade da defesa norte-americana.
AMÉRICA LATINA
Aumenta a pressão sobre Colômbia, Cuba e Nicarágua para que façam concessões em negociações com os EUA. Trump considera os presidentes desses países líderes hostis.
A operação na Venezuela poderá ficar no ar ou ser usada pelos EUA como uma ameaça real em negociações.
No caso do México, a pressão dos EUA é por ações do governo do país contra cartéis. É improvável algum tipo de ação que viole a soberania mexicana por causa da relação próxima entre os 2 países.





