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Vai começar a investir em FIDCs? Veja o que fazer para aplicar com segurança


O investidor de varejo tem de tomar alguns cuidados antes de investir em fundos de direitos creditórios, ou FIDCs. Apesar de ser uma aplicação de renda fixa, esses fundos, também chamados de fundos de fomento, têm características específicas e maiores riscos.

A primeira coisa é não se deixar ludibriar pela falta de volatilidade aparente dos FIDCs e achar que é um produto sem risco, um “CDB turbinado”, afirma o consultor George Wachsmann. A segunda é entender que tipo de operação de crédito ele está comprando, para avaliar se está sendo remunerado por esse risco. É preciso ver também que tipo de cota o fundo tem, se é só sênior, se tem mezanino ou subordinada. “A sênior é mais protegida da inadimplência, mezanino um pouco menos e a subordinada é menos protegida”, lembra.

Outra preocupação é o risco de liquidez. O investidor precisa conferir se há equilíbrio entre os ativos do fundo, os recebíveis, e o passivo, que é o prazo de resgate. “O investidor quer fundo de 20, 30 dias, mas pode ser armadilha se ativos não têm o mesmo prazo e pode virar refém de aplicação sem liquidez”.

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Riscos ocultos

Além de entender o tipo de operação de crédito o investidor tem também de saber os riscos ocultos de cada tipo. Ele cita um FIDCs de duplicatas de fornecedores da Petrobras. “O risco de o devedor não pagar o crédito é baixo, já que é a Petrobras, mas se a duplicata for falsa ele perde dinheiro”. É preciso ver também se o FIDCs é de créditos performados, ou seja, nos quais o serviço ou mercadoria já foram entregues ao devedor. Se não tiver sido entregue, os chamados créditos não performados, o risco é maior.

Para Angelo Belitardo, analista da Hike Capital, o investidor precisa encarar o FIDC como crédito estruturado, não como “renda fixa simples de prateleira”, e por isso os cuidados são bem específicos. Antes de aplicar, ele deve olhar primeiro a qualidade da originação e do lastro: quem são os cedentes e sacados, se os recebíveis são pulverizados ou concentrados, qual é o setor econômico por trás e se existe dependência excessiva de poucas empresas.

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Um FIDC multicedente e multissacado, por exemplo, tende a ter um perfil de risco muito diferente de um fundo concentrado em poucos devedores, mesmo que o retorno prometido seja parecido.

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Subordinação reduz perdas

Em seguida, é fundamental analisar a estrutura de proteção do fundo, principalmente o nível de subordinação entre as cotas, a existência de cotas subordinadas relevantes, mecanismos de garantias extras, ou overcollateral, gatilhos de performance e regras de amortização e liquidação. “É essa engenharia financeira que define quem absorve primeiro as perdas em caso de inadimplência e quão protegido o cotista sênior realmente está”, explica.

Outro ponto crítico, alerta Belitardo, é a qualidade do gestor, do administrador e do originador. “FIDC é um produto que vive de processo: como é feita a análise de crédito, como funciona a cobrança, a política de recompras, o monitoramento de inadimplência e a reposição de carteira”, afirma. Gestores e originadores com histórico ruim ou estruturas pouco testadas aumentam muito o risco, mesmo que no papel pareçam bem montadas.

O investidor também precisa olhar com atenção os indicadores operacionais do fundo, como inadimplência, atrasos, Provisões para Devedores Duvidosos (PDD), índice de recompras, concentração por cedente e sacado e envelhecimento da carteira. “Com a padronização do informe mensal da CVM, hoje já dá para acompanhar isso de forma muito mais transparente, mas ignorar esses dados é basicamente investir às cegas”, diz.

Prazo maior

Outro cuidado importante é a liquidez. Muitos FIDCs não são fundos para resgate imediato e alguns têm janelas de 30, 60 ou 90 dias, ou até estruturas fechadas. O investidor precisa casar isso com o horizonte de uso do dinheiro e não tratar FIDC como substituto de caixa.

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Por fim, é essencial desconfiar de retorno alto demais para risco baixo, observa Belitardo. Se um FIDC está pagando muito acima do que outros fundos semelhantes, quase sempre isso vem de mais concentração, pior qualidade de crédito ou estrutura mais frágil. Em 2026, com spreads mais comprimidos nos fundos bons, a diferença entre um fundo bem estruturado e um fundo “empurrado por retorno” ficará ainda mais relevante, alerta.

Gestão especializada ajuda

Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos, acredita que a melhor forma do investidor de varejo ingressar no mercado de FIDCs é por meio de um fundo de cotas de outros fundos. O ideal também é que o investidor já conheça a dinâmica da renda fixa e tenha um horizonte de prazo mais alongado, sem necessidade de liquidez imediata. E que entenda o funcionamento da aplicação.

“São vários ativos dentro de uma cesta que o cliente tem de entender e se ele não tem esse conhecimento, é melhor ir para um fundo de FIDCs que tenha um gestor para selecionar de forma ativa as carteiras para o investidor, investindo de forma pulverizada”, diz.

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Para o investidor iniciante, a recomendação de Clara é estar bem acompanhando de um gestor. E lembrar que mesmo o FIDC tendo cotas estáveis, ele não está isento de risco. “O maior risco é o de crédito, de carteiras mal originadas, sem curadoria, e que podem gerar estresse”, diz.

O horizonte de investimento também deve ser maior e, para fundos com papéis mais longos, o ideal seria trabalhar com prazos de dois a três anos. É preciso ainda considerar o que tem dentro das carteiras e trabalhar com pulverização em segmentos, setores e riscos de crédito como um todo, para se proteger de um evento específico.

E entender a estrutura dos FIDCs. Se a subordinação das cotas não estiver bem calibrada e for baixa, aumenta o risco de o investidor ter perdas mesmo com cotas sêniores. Com esses cuidados é possível desfrutar das vantagens dos FIDCs, como a ausência come cotas, longo prazo, e uma aplicação em crédito descorrelacionada dos mercados tradicionais, conclui Clara.



FONTE

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