O mais antigo mestre de bateria em atividade no carnaval do Rio de Janeiro, o Ciça, foi o escolhido pela Viradouro para ser homenageado no seu desfile no grupo especial. Com o tema, a escola de samba se sagrou campeã de 2026 com uma passagem pelo sambódromo à altura e à importância de um digno regente de bateria de Carnaval.
Num ano marcado pelo “sequestro” do Carnaval de rua nas principais capitais brasileiras, com a apresentação desorganizada de megablocos patrocinados, caracterizados por shows de artistas do mainstream, distanciando a folia da cena carnavalesca local, a vitória de Ciça é muito simbólica.
Mestre Ciça começou em 1988 na Estácio de Sá e passou pelo comando das baterias da Unidas da Tijuca, Grande Rio e União da Ilha. Na Viradouro teve duas passagens, entre 1999 a 2009 e de 2019 para cá. Ciça é o símbolo do Carnaval numa atividade central da folia. A bateria é a identidade e a alma de qualquer agremiação.
Os blocos de Carnaval, quando começaram antes mesmo das escolas de samba, incluíam tambores e capoeira no cortejo. Depois, foram incorporados instrumentos musicais diversos. Formaram-se bandas e baterias, valorizando o espírito comunitário em bairros e cidades.
Coletivos carnavalescos com a participação efetiva da população na criação de fantasias, adereços e alegorias, tocando instrumentos, carregando estandartes, participando de ensaios e dos cortejos oficiais foram e são uma das maiores expressões de nossa cultura.
Estruturas carnavalescas pouco diferem das escolas de samba, um centro de sociabilização por excelência, para a atividade de convivência, canto, batucada e criação artística. Mestre Ciça surge nesse contexto extraordinário, com a responsabilidade de conduzir centenas de pessoas que se entregaram ali, na quadra, o ano inteiro, para colocar a escola na avenida.
Enquanto isso, vemos o crescimento desordenado dos megablocos, que não tem relação atávica com o carnaval, desarticulando estruturas carnavalescas que passam o ano inteiro contribuindo para o fortalecimento da identidade cultural e comunitária.
O que a gente quer é mais Mestre Ciça e menos K-Pop e Calvin Harris.





