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FIDCs de varejo crescem 43% no ano e estão perto do clube do bilhão


Os fundos de investimentos em direitos creditórios (FIDCs), velhos conhecidos dos grandes investidores institucionais, caíram no gosto do varejo. A aplicação, regulamentada no fim de 2023, ainda tem poucas carteiras disponíveis no mercado, mas que cresceram rapidamente e já estão bem perto do bilhão de reais.

No total, são R$ 2,7 bilhões investidos nesses fundos, um crescimento de 43% apenas neste ano, segundo dados da Uqbar, empresa especializada em finanças estruturadas, e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Fundos de varejo PL dezembro 2025* PL março 2026** Variação (%)
Solis Capital Antares Pioneiro FIC                    738,9                       979,5               32,6
Jive Bossanova90                    683,2                       948,0               38,8
Valora Vanguard FIC                    240,5                       352,1               46,4
Jivemaua Bossanova Créd Sec (Varejo)                    202,9                       211,5                 4,2
Jivemaua Bossanova Créd Sec II (Varejo)                           –                         177,8   ND 
Total                 1.865,6                   2.668,9               43,1
Fonte: Uqbar, Anbima. *Patrimônio em R$/milhões. **Até 27 de março. Obs.: O JiveMauá Créd Sec II foi criado em janeiro deste ano.

O Solis Capital Antares Pioneiro, criado em junho de 2024 e, como o nome já diz, o primeiro FIDC montado para varejo, já soma 15.352 cotistas e um patrimônio de R$ 979 milhões, um crescimento de 147% em relação aos R$ 394,9 milhões de março do ano passado. Apenas neste ano, o fundo apresenta um crescimento de 32,6%. “Tem mais pessoas físicas olhando os FIDCs como opção na renda fixa dentro do crédito privado, buscando uma forma mais pulverizada e descorrelacionada dos mercados tradicionais”, explica Delano Macêdo, sócio da Solis Investimentos.

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O Solis Pioneiro aplica em 48 outros FIDCs, o que garante maior diversificação e liquidez para a carteira. Do total, 40% deles são FIDCs de recebíveis multicedente e multisacado e 21% de consignado público. “Vemos o portfólio crescendo com a aquisição de FIDCs dessas classes, que entendemos que são as que mais protegem o investidor”, explica Macedo.

A carteira tem uma provisão para perdas de 8,5% em média e uma subordinação (percentual de cotas sujeitas ao risco de crédito antes de chegar ao investidor de varejo) de 33%. A carência do fundo é de 60 dias para resgate, o que se ajusta aos prazos dos recebíveis e dá tranquilidade para o gestor. “O interesse pelo fundo aumentou nos últimos meses, temos uma média de cem novos cotistas e R$ 3 milhões a R$ 4 milhões de novos investimentos por dia”, completa Ricardo Binelli, também sócio da Solis.

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Juro menor ajuda

A gestora atua há 20 anos no mercado de FIDCs, com R$ 29,5 bilhões sob gestão, um crescimento de 28,7% em 12 meses. Binelli destaca o crescimento desse mercado especialmente nos últimos anos, diante do menor custo das estruturas em relação às emissões de títulos e que as tornam mais acessíveis para as empresas que emitem os créditos.

Isso permite também oferecer maior rentabilidade para o investidor. No caso do Solis Pioneiro, a rentabilidade média tem ficado em torno de CDI mais 1,0% a 1,3% ao mês. A Solis espera um crescimento ainda maior dos FIDCs este ano com a queda dos juros básicos, o que deve ser bom para todo o mercado.

Do multimercado para o FIDC

Outro fundo de varejo que se aproxima do bilhão é o Jive BossaNova90, com R$ 948,1 milhões e 17.389 cotistas. Criado em 2023 a partir de uma carteira multimercado de crédito privado para investidores qualificados, o Jive BossaNova90 tornou-se um FIDC para o público em geral, incluindo varejo, em fevereiro do ano passado. Neste ano, o crescimento foi de 38,8% até 27 de março.

Como é voltado para o público em geral, o fundo tem também investidores qualificados e profissionais. Além dele, a JiveMauá tem outros dois fundos para o público em geral, mas fechados e com prazo definido, o BossaNova Crédito Securitizado e o Crédito Securitizado II, que somam mais R$ 370 milhões, o que eleva o total em fundos para varejo para R$ 1,3 bilhão, explica Samer Serhan, sócio responsável por crédito privado, infraestrutura e previdência da JiveMauá.

A casa tem hoje R$ 5,4 bilhões em crédito privado distribuídos em três estratégias: R$ 2,4 bilhões em fundos abertos, R$ 1,5 bilhão em fechados e R$ 1,2 bilhão em Previdência.

A opção da JiveMauá pelos FIDCs começou em 2023 com a mudança tributária que acabou com o come-cotas nesses fundos e fixou a alíquota única de imposto de renda de 15%, independente do prazo, o que trouxe vantagens sobre os fundos de renda fixa ou multimercados de crédito privado, explica Serhan. “Lançamos o BossaNova90 para público em geral no começo de 2025 e ele é um sucesso, com rentabilidade histórica desde o início superior a CDI mais 3%”, diz.

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Captação de R$ 20 milhões por mês

Segundo ele, a captação do BossaNova90 acelerou muito este ano, para cerca de R$ 20 milhões por mês, com muitos investimentos por conta e ordem nas corretoras e muita pessoa física interessada. Serhan diz que hoje não é mais o distribuidor que oferece o Fidc, mas o investidor que procura pela aplicação. “Está virando um mercado de balcão semelhante ao de CDB e ações”, afirma. Para ele, é um movimento saudável, já que os Fidcs contam com inadimplência baixa, nível de governança elevado, boa regulamentação e supervisão pela Anbima.

Ele acredita também que o crescimento dos Fidcs é um caminho sem volta, já que esses fundos devem ocupar o espaço dos bancos e das factorings, empresas que compravam créditos no passado. “Há também o crescimento do crédito, com empresas e pessoas físicas que não tinha acesso e passaram a ter como novas fintechs oferecendo cartões e empréstimos, e esse crédito precisa de funding, que está vindo dos Fidcs, que compram esses recebíveis”, afirma.

Perto do R$ 1 tri

 Ele espera que os Fidcs, hoje com R$ 800 bilhões de patrimônio, atinjam R$ 1 trilhão este ano, apesar de ter ressalvas com o ritmo de crescimento deste ano. “O crescimento não deve ser tão espetacular como em 2025 porque tivemos fatores exógenos”, diz, citando a novidade para o investidor, o que aumenta a atratividade, o efeito da quebra do Banco Master, que provocou uma forte movimentação no mercado em novembro e dezembro, e o vencimento de letras de crédito do BNDES, fatores que não se repetirão em 2026. Ele vê também um arrefecimento recente da economia. “Nas últimas três semanas, houve um desaquecimento da atividade como um todo e um aumento da aversão ao risco, depois de janeiro e fevereiro fortes”, diz.

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Crescimento de 46% no ano

Outra gestora de olho no pequeno investidor é a Valora Investimentos, que atua com FIDCs desde sua fundação, em 2005 e passou a oferecer uma carteira voltado ao varejo a partir de 2025, afirma seu CEO, Daniel Pegorini. A casa tem um patrimônio total de mais de R$ 10 bilhões em Fidcs, sendo R$ 4 bilhões em fundos de fundos, entre eles o Valora Vanguard, voltado para o varejo. O fundo tem hoje um patrimônio de R$ 352 milhões, com crescimento de 46,4% apenas neste ano.

Apesar do histórico reduzido comparado aos fundos mais longevos da gestora, Pegorini diz ver um interesse grande dos investidores nesse tipo de estratégia, dada a liquidez mais curta (carência de 45 dias úteis para resgate) e a alocação em cotas de FIDCs seniores que, em tese, possuem um nível de proteção maior. A procura é majoritariamente de clientes de plataformas de investimentos que buscam um retorno maior e com menos volatilidade dentro da renda fixa. “Além disso, entendemos ser um bom produto de “entrada” para o investidor que não possui investimentos em crédito estruturado”, acrescenta.

Segundo Pegorini, a demanda vem crescendo de forma consistente no varejo. Apenas em janeiro e fevereiro, o Valor Vanguard captou R$ 82 milhões e chegou a 5 mil cotistas. A carteira investe hoje em mais de 40 FIDCs, divididos em segmentos diferentes e não correlacionados, o que aumenta a pulverização do portfólio. Os setores investidos são: consignado público, consignado privado, multicedente multisacado.  O fundo está com uma rentabilidade acumulada de 110% do CDI desde o início.

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Mais opções no futuro

Ele acredita que o potencial do mercado de FIDCs abertos ao público geral seja significativo. “Historicamente, o investidor de varejo teve acesso muito limitado a fundos de crédito estruturado com carteiras pulverizadas”, diz. À medida que essa estratégia ganha escala e o mercado se consolida, esses investidores passarão a contar com produtos mais sofisticados e com perfil de risco mais controlado, uma vez que essas estruturas se apoiam exclusivamente na alocação em cotas sênior.

Segurança e simplicidade

O que se vê na prática é que o varejo deixou de ser um movimento experimental e passou a ocupar um espaço mais recorrente dentro da alocação em crédito, afirma Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue. “Existe demanda, sim, mas ela é seletiva”, ressalta. O investidor pessoa física está entrando via plataformas e buscando produtos que tenham previsibilidade de fluxo e leitura clara de risco. Fundos com lastro pulverizado, especialmente ligados a consumo e varejo, tendem a ter mais procura porque são mais fáceis de entender e acompanhar. “Não é uma demanda por complexidade, é uma demanda por crédito que funcione e que seja transparente”, explica.

As gestoras estão lançando Fidcs de varejo, mas o mercado ficou mais criterioso, diz Padula. Hoje não basta estruturar o veículo, é preciso ter operação de crédito de verdade por trás. Originação consistente, capacidade de análise e, principalmente, cobrança eficiente fazem diferença. Quem controla a cadeia do crédito, do início ao fim, consegue acessar o varejo com mais facilidade. Quem depende de terceiros ou não tem histórico acaba enfrentando mais dificuldade na captação, porque o investidor está mais atento à execução, afirma.

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Risco de crédito

Ele alerta que há risco de piora do crédito com o juro caindo mais devagar, principalmente em segmentos mais sensíveis ao custo financeiro. Para Padula, o principal risco para o investidor é tratar FIDC como renda fixa tradicional. Na prática, é crédito estruturado, com riscos específicos. Inadimplência da carteira, concentração de risco, baixa liquidez e estrutura inadequada de subordinação são pontos de atenção. Além disso, não existe cobertura do FGC. “Por isso, o investidor precisa olhar além da taxa, entender quem origina o crédito, como ele é cobrado e qual o nível de proteção da estrutura”, completa.

Maiores dificuldades no varejo

Os FIDCs de varejo estão em rápida expansão após a abertura regulatória da CVM, diz Volnei Eyng, CEO da Multiplike. Grandes casas já lançaram FIDCs voltados ao varejo, porém ainda são poucos frente ao total da indústria, observa. O movimento é crescente, mas exige adaptação operacional, educacional e regulatória. As principais dificuldades são a complexidade da estrutura, exigências de governança, necessidade de lastro performado, ou seja, com mercadoria ou serviço já entregue, maior transparência e custos operacionais. Além disso, há o desafio de comunicação e educação financeira para um público menos familiarizado com crédito estruturado.

Os riscos para o investidor em FIDC são de crédito, liquidez e complexidade do produto, observa Eyng. FIDCs não têm resgate imediato, dependem da performance dos recebíveis e exigem entendimento da estrutura de subordinação das cotas. Por isso, o varejo tende a ser direcionado às cotas seniores e fundos de cotas. Mesmo assim a perspectiva é de crescimento estrutural, com maior participação do varejo, avanço regulatório e amadurecimento das gestoras. “O segmento deve se consolidar como alternativa relevante de crédito privado, desde que acompanhado de governança, transparência e educação do investidor”, diz Eyng.



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