O Ibovespa (IBOV) fechou em alta nesta sexta-feira, renovando máximas e encerrando acima dos 197 mil pontos pela primeira vez, com agentes financeiros na expectativa de negociações de paz entre Estados Unidos e Irã previstas para o fim de semana.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 1,12%, a 197.323,87 pontos, novo recorde de fechamento, após marcar 197.553,64 na máxima da sessão, novo topo intradia. Na mínima, registrou 195.129,25 pontos. Na semana, avançou 4,93%.
O volume financeiro nesta sexta-feira somou R$33,7 bilhões.
Autoridades norte-americanas e iranianas reúnem-se em Islamabad, no Paquistão, a partir de sábado, poucos dias após o anúncio de cessar-fogo em uma guerra que começou no final de fevereiro com ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e se espalhou pelo Oriente Médio.
Não se espera uma discussão fácil para um desfecho definitivo e ainda existem muitas incertezas, mas, por ora, tem prevalecido a avaliação positiva de que EUA e Irã estão buscando um caminho para reduzir as tensões.
Sem aversão a risco para o Ibovespa
O Ibovespa tem resistido à aversão a risco e à busca por liquidez desencadeadas pelo conflito. Apesar do desempenho negativo em março, a bolsa ainda registrou entrada líquida de recursos, movimento que persiste em abril.
“Daqui para frente, assumindo que a trégua se mantenha, acreditamos que o Brasil continuará a apresentar bom desempenho”, avalia Emy Shayo, co‑head de estratégia de ações de mercados emergentes e chefe de estratégia para América Latina e Brasil, conforme relatório assinado também por Cinthya Mizuguchi.
Shayo ressaltou, porém, que vê uma rotação entre setores, com aqueles que mais sofreram desde o início da guerra — especialmente o setor financeiro — recuperando parte da liderança.
O JPMorgan tinha como cenário-base para o Ibovespa em 2026 o índice a 190 mil pontos sendo que, para ir aos 230 mil pontos no cenário otimista, exigiria uma mudança mais estrutural na história brasileira, com melhora fiscal mais crível, espaço maior para cortes de juros e compressão dos prêmios ao longo da curva.
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Isso reforça a diferença entre o bom momento tático e a construção de uma tese estrutural. No curto prazo, o Brasil segue atraente dentro do universo emergente.
Cabe destacar que, entre o fim de março e início de abril, algumas casas haviam reforçado otimismo com o Ibovespa. O Safra elevou a projeção para o Ibovespa para 220 mil pontos no fim deste ano, enquanto o BB Investimentos seguiu com preço-alvo de 205 mil pontos para o índice.
“O Ibovespa já está perto dos 200 mil pontos que era a avaliação no início de ano, para o nível em que estaria, para muitos analistas, no fim de 2026. Pensando agora no fim do conflito, pode ir uns 35 mil pontos além disso, caso o câmbio favoreça, com dólar em patamar mais baixo. E caso os juros venham a cair mesmo, quem sabe em ritmo maior”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos. Ele cita também a possibilidade de acomodação do petróleo em patamar mais baixo, por volta dos US$ 70 por barril que prevaleciam antes do conflito, o que reduziria a pressão sobre as expectativas de inflação resultante do aumento dos custos de energia em todo o mundo.
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Para Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital, “o Ibovespa tem sido favorecido pela redução do prêmio de risco global, que destrava o apetite dos investidores e mantém os emergentes como alternativa de diversificação”. Um grupo de mercados em que “o Brasil permanece em posição de destaque, o que explica essas renovações de máximas” para o índice da B3, acrescenta.
O investidor estrangeiro tem sido chave para o apetite por renda variável, considerando, também, o refluxo do dólar que acompanha esse movimento de retirada de prêmios de risco, que resulta em apreciação de moedas de emergentes como o real, diz Barros. “Há momento favorável para a entrada de capital estrangeiro também na Bolsa”, avalia. Nesse contexto, o dólar à vista chegou a ser negociado a R$ 5,0055 na mínima desta sexta-feira, em que fechou a R$ 5,0115, em queda de 1,03% na sessão e de 2,88% na semana. No mês, a moeda americana recua 3,23%.
“Mesmo com a fragilidade do cessar-fogo, o mercado comprou essa ideia, o que levou o Ibovespa a renovar máximas depois de algum tempo”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, em referência à interrupção momentânea da trajetória ascendente que se impôs ao Ibovespa ainda em meados de janeiro. E que de forma geral se estendeu, com poucos ajustes, até o fim de fevereiro quando eclodiu a guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã. A partir daí, a oferta global de petróleo foi afetada, revertendo o espaço benigno que havia, até então, para a redução de juros ante o efeito percebido, de imediato, sobre a inflação.
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“Há uma descompressão relevante dos ativos. O petróleo caiu forte: saiu de máximas em US$ 113 por barril para a região de US$ 90, as bolsas globais subiram e o dólar perdeu força. No Brasil, o Ibovespa surfou esse ambiente com ainda mais intensidade e renovou sucessivos recordes, chegando à região dos 197 mil pontos, enquanto o dólar se aproximou de R$ 5,00”, enumera Bruna Sene, analista de renda variável da Rico. Na semana, o cessar-fogo resultou em queda de 12,7% para o petróleo Brent, referência global, e de 13,4% para o WTI, referência dos EUA.
Neste cenário, melhor do que se via há poucos dias, mas ainda com desdobramentos e evolução incerta, os agentes do mercado financeiro brasileiro estão mais otimistas com o desempenho do Ibovespa na próxima semana. Na edição desta sexta do Termômetro Broadcast Bolsa, a parcela dos profissionais que esperam alta do Ibovespa ficou em 71,43%, enquanto para aqueles que esperam estabilidade foi de 28,57%.
“A reabertura plena da principal rota do petróleo da região, pelo Estreito de Ormuz, permanece incerta”, com efeito para os preços da commodity, observa Bruna Centeno, economista na Blue3 Investimentos, destacando certa cautela que prevaleceu nesta sexta-feira no exterior, enquanto não se conhecem os resultados da reunião, no fim de semana, entre representantes de EUA e Irã, no Paquistão.
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“Semana muito volátil com foco ainda no Oriente Médio. Cessar-fogo é uma condição não muito clara, mas foi o suficiente para trazer algum fôlego após um início de semana difícil. Mas a chance de que o conflito chegue ao fim ainda em abril parece ter crescido bastante na expectativa do mercado, embora um meio termo pareça difícil no momento”, aponta Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP. “Brasil segue, contudo, como um beneficiário relativo, ou mesmo absoluto, considerando a apreciação do real e o fato de o país ser um exportador de petróleo, sem dependência da oferta do Oriente Médio.”
Olhando para o curto prazo, nesta sexta-feira, além do cenário externo, investidores também repercutiram a pauta macroeconômica brasileira, com o IPCA de março subindo 0,88%, maior avanço em cerca de um ano, superando as previsões de economistas, que apontavam alta de 0,77%.
“Embora uma leitura cheia ruim, e que limita o Copom no curto prazo, parte significativa da surpresa altista veio de itens como combustíveis, refletindo impacto direto do choque dos preços do petróleo”, ponderou o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri.
“Se de fato houver a normalização desses preços, com um acordo de paz para o conflito, é razoável esperar a reversão desses efeitos (que pesaram no IPCA)”, acrescentou.
DESTAQUES DA SESSÃO
- Hapvida ON (HAPV3) disparou 13,05% após anunciar mudanças em sua administração. A companhia também afirmou perto do fechamento do pregão que não há uma decisão no momento envolvendo a venda de suas operações no Sul do país, citando que a região segue sendo importante para sua estratégia.
- Azzas 2154 ON (AZZA3) desabou 10,88%, em meio ao anúncio de que o presidente da unidade de Fashion & Lifestyle, Ruy Kameyama, vai deixar a empresa no final de abril para se dedicar a novos projetos pessoais e profissionais. A companhia não indicou substituto.
- Engie Brasil ON (EGIE3) avançou 4,64%, renovando máximas históricas e ampliando a alta em abril para quase 10%. No final de março, a companhia saiu como uma das vencedoras do leilão de transmissão de energia, conquistando o maior projeto do certame.
- Allos ON (ALOS3) subiu 1,92%, após firmar memorando de entendimento com a Kinea Investimentos para a potencial criação de um fundo de investimento imobiliário (FII), em uma transação que pode envolver oferta primária de cotas entre R$789,5 milhões e R$1,97 bilhão.
- Direcional ON (DIRR3) valorizou-se 0,77%, tendo de pano de fundo prévia operacional do primeiro trimestre, com alta de 19% nas vendas líquidas. No setor, Cury ON (CURY3), que também divulgou dados do primeiro trimestre, mas com expansão de 9,5% nas vendas líquidas, caiu 3,08%.
- Itaú Unibanco PN (ITUB4) avançou 0,7%, em mais um dia positivo para os bancos no Ibovespa. BTG Pactual Unit (BPAC11) foi exceção e fechou em baixa de 0,43%.
- B3 ON (B3SA3) subiu 1,83%, endossada ainda por relatório de analistas do Citi, que elevaram a recomendação das ações para compra e o preço-alvo dos papéis de R$19 para R$23.
- Petrobras PN (PETR4) valorizou-se 2,36%, mesmo com o declínio do petróleo no exterior. No setor, Petroreconcavo ON (RECV3) subiu 2,22%, Brava ON (BRAV3) fechou com elevação de 2,21% e Prio ON (PRIO3) avançou 3,36%.
- Vale ON (VALE3) encerrou em alta de 1,06%, mesmo com o fechamento negativo dos futuros do minério de ferro na China. No setor de mineração e siderurgia, Usiminas PNA (USIM5) caiu 6,12%, CSN ON (CSNA3) cedeu 5,45% e Gerdau PN (GGBR4) recuou 0,19%.
(com Reuters e Estadão Conteúdo)





