Início NACIONAL O alerta das Casas Bahia para executivos e eleitores 

O alerta das Casas Bahia para executivos e eleitores 


O Grupo Casas Bahia entrou nesta segunda, 17, com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, envolvendo R$ 17,3 bilhões em créditos. A empresa se juntou a uma lista crescente de nomes tradicionais que recorreram a essa medida. Casa & Vídeo, Tok&Stok e Marabraz também entraram em recuperação judicial. Americanas, Dia e Polishop já haviam seguido pelo mesmo caminho anteriormente.

O contraste veio poucos dias antes. Na última quinta, 13, o IBGE divulgou a Pesquisa Mensal de Comércio de junho. O volume do varejo restrito (que exclui veículos, material de construção e algumas outras atividades) cresceu 0,5% sobre maio, 2,9% sobre junho de 2025 e 1,9% no primeiro semestre.

Os números demandam interpretação. Como conciliar um setor que cresce com uma sucessão de grandes recuperações judiciais?

Por que isso importa

Indicadores do varejo estão entre os termômetros mais rápidos da atividade econômica. Eles permitem observar quase em tempo real mudanças no comportamento do consumidor e ajudam a formar expectativas sobre crescimento, inflação e juros.

No Brasil, a fotografia atual chama atenção para os efeitos da política monetária. A Selic está em 14% ao ano, e os segmentos mais dependentes de crédito mostram maior fragilidade. Juros altos atingem o varejo por vários canais ao mesmo tempo: encarecem a dívida das empresas, reduzem a capacidade de financiar estoques e operações e tornam mais caro o crédito usado pelos próprios consumidores. O endividamento das famílias acrescenta outra restrição.

Isso dá relevância política aos dados, uma vez que a campanha eleitoral começou oficialmente no domingo, 16. O ambiente de crédito, a trajetória dos juros e as condições para investimento privado dependem, em boa medida, das escolhas de política econômica que serão feitas a partir de 2027.

Mas há uma cautela importante: não é possível olhar para a recuperação judicial de uma empresa e atribuí-la mecanicamente à Selic. O ambiente macroeconômico aumenta ou reduz a pressão sobre os negócios, mas não determina sozinho quais empresas sobrevivem.

Panorama: uma transformação global

O Global Retail Industry Outlook 2026, divulgado pela consultoria Deloitte em janeiro e baseado em pesquisa com 330 executivos de diversos países, descreve um setor de varejo submetido a uma transformação simultaneamente tecnológica, financeira e comportamental. Consumidores passaram a buscar mais valor; inteligência artificial avança sobre precificação, planejamento e relacionamento com clientes; canais digitais e físicos se integram; cadeias de suprimentos são redesenhadas; e controle de custos e margens voltou ao centro da gestão. Mesmo diante de uma possível desaceleração econômica mundial, 96% dos entrevistados esperavam crescimento das receitas e 81% expansão das margens em 2026, apoiados justamente em produtividade, eficiência e tecnologia.

A mesma transformação aparece no Brasil, mas sob condições financeiras muito mais hostis. O consumidor pesquisa preços em marketplaces, compra de plataformas chinesas e distribui sua renda por um conjunto maior de serviços e despesas. Redes tradicionais continuam carregando lojas, pessoal, estoques, logística e, em muitos casos, estruturas próprias de financiamento. Nos Estados Unidos, onde as vendas totais de varejo e alimentação recuaram 0,6% em julho mas cresceram 5% o mesmo mês de 2025, o contraste entre canais também é forte. As vendas dos varejistas sem loja cresceram 10,2% no acumulado de 2026, enquanto móveis e artigos para casa recuaram 1,7%. No Brasil, a clivagem mais evidente ocorre entre produtos de consumo diário e compras de bens duráveis, dependentes de crédito.

Lupa: não é uma crise de todo o varejo

O varejo brasileiro não está em recessão generalizada. Em junho, como mostram os dados do IBGE, supermercados cresceram 1,1% e artigos de uso pessoal e doméstico, 2,4%. Como observa o site Infomoney, o setor de varejo opera em “duas velocidades”: gastos mais rotineiros permanecem sustentados pela desaceleração da inflação (inclusive com deflação de alimentos no domicílio) e desemprego em níveis; decisões de maior valor e que em geral dependem de financiamento sofrem muito mais com o aperto monetário.

É nesse segundo universo que aparecem várias das companhias em dificuldade. Casas Bahia, Marabraz, Casa & Vídeo e Tok&Stok cresceram historicamente com forte presença física. Consultores ouvidos pela Folha descrevem um modelo concebido para maximizar expansão e capilaridade — até com lojas da mesma rede a poucas centenas de metros umas das outras — que agora precisa colocar rentabilidade e sustentabilidade financeira acima da presença territorial.

Há ainda diferenças fundamentais entre os casos. A Americanas chegou à recuperação após a descoberta de graves problemas contábeis. A Marabraz carrega dificuldades de gestão, tributárias e disputas familiares. Casas Bahia vinha há anos implementando sucessivos planos de reestruturação. O choque macroeconômico é comum. As vulnerabilidades empresariais, não.

Casas Bahia e gestão empresarial

As Casas Bahia realizaram uma renegociação extrajudicial em 2024. A empresa fechou 298 lojas e realizou cerca de 3 mil desligamentos. Também procurou reorganizar seu balanço.

A recuperação judicial iniciada agora pode resolver o passivo, mas não resolve o modelo operacional.

Esse é um alerta para gestores de todos os tipos de negócio. Taxa de juros é variável exógena. Alavancagem, perfil dos vencimentos, liquidez, custo fixo, exposição a refinanciamento e velocidade de adaptação são decisões empresariais. Empresas não controlam o ciclo econômico, mas podem controlar quanto sua sobrevivência depende de um cenário macroeconômico favorável.

Casas Bahia e eleições

Os números do varejo mostram que uma redução rápida de juros pelo Banco Central não solucionaria o problema estrutural da economia. Pelo contrário, tenderia a criar novos desafios, uma vez que emprego e consumo permanecem aquecidos o bastante para que analistas não enxerguem espaço para uma flexibilização agressiva.

Compensar os juros com novos subsídios, linhas favorecidas de crédito ou estímulos fiscais ao consumo também reforçaria a causa das dificuldades.

A queda sustentável da taxa de juros passa, em primeiro lugar, por um ajuste fiscal crível, capaz de estabilizar a trajetória da dívida pública e reduzir a percepção de risco.

Alguns testes deveriam ser aplicados, portanto, às plataformas econômicas para o próximo governo. Há metas verificáveis para contenção da despesa? O candidato pretende enfrentar despesas obrigatórias, vinculações e crescimento automático do gasto público? Qual é sua estratégia para estabilizar a dívida? Pretende preservar a autonomia do Banco Central? Vai reduzir distorções tributárias, custos regulatórios e insegurança jurídica que encarecem o capital privado?

Há também uma agenda microeconômica: facilitar competição, investimento em tecnologia, digitalização, produtividade e reorganização empresarial. O relatório da Deloitte mostra que os varejistas globais esperam atravessar os desafios dos próximos anos aumentando eficiência e investindo em tecnologia.

Resumo da ópera

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia e o crescimento registrado pelo IBGE parecem contraditórios apenas à primeira vista. O varejo brasileiro cresce pouco e de maneira desigual. Itens cotidianos resistem; segmentos dependentes de financiamento já sentem fortemente os juros de 14%. Empresas tradicionais, endividadas e carregadas de custos fixos ficaram particularmente expostas.

Mas juros não explicam tudo. A onda de recuperações também reflete transformação tecnológica, mudança de hábitos, concorrência digital e, em vários casos, decisões empresariais ruins ou tardias.

Para executivos, a lição é de gestão de risco e adaptação. Para os candidatos à Presidência, é de política econômica: o objetivo não deveria ser produzir crédito barato artificialmente, mas reconstruir as condições fiscais e institucionais para que capital e crédito voltem a ficar mais baratos de maneira duradoura.





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