Início NACIONAL Governo Trump faz intervenção incomum no mercado para baixar juros

Governo Trump faz intervenção incomum no mercado para baixar juros


O mercado de títulos públicos americanos sofreu uma intervenção incomum na noite desta quarta-feira, 19. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent (foto), anunciou que o governo vai pelo menos dobrar, de 2 para 4 bilhões de dólares por operação, as recompras programadas de títulos do tesouro americano com vencimentos entre 10 e 30 anos. As operações ocorrerão entre setembro e o início de novembro e buscam conter a alta dos juros de longo prazo pagos pelo governo. 

A reação foi imediata. Os preços dos títulos subiram e os rendimentos, que se movem na direção contrária, caíram. O movimento espalhou-se pelos mercados globais de renda fixa e chegou ao câmbio.

Na manhã desta quinta-feira, porém, veio o rebote. O título de 30 anos, que havia caído com força após o anúncio, voltou a subir, chegando a 5,23%.

Até aqui, apenas os fatos: Washington entrou no mercado, os juros recuaram e, menos de 24 horas depois, recuperaram parte da queda.

Por que isso importa

A dimensão da operação é relativamente pequena diante do gigantesco mercado americano de títulos. A mudança de comportamento do Tesouro é bastante grande. 

A Bloomberg descreveu Bessent nesta quinta, 20, como o secretário do Tesouro mais intervencionista nos mercados financeiros em décadas.

Quando o Estado americano se dispõe a interferir numa área central da economia, há razões para preocupação.

Primeiro, a previsibilidade foi abalada. A administração da dívida americana tradicionalmente segue a doutrina de ser “regular e previsível”. A intervenção representa um afastamento desse padrão, que o próprio Bessent havia defendido meses atrás. O investidor agora precisa acrescentar uma pergunta às suas projeções: se os yields subirem novamente, Bessent intervirá outra vez?

Segundo, Tesouro e Federal Reserve (o BC americano) podem começar a emitir sinais contraditórios. Enquanto o Fed tenta calibrar as condições financeiras para conduzir a inflação à meta, Bessent procura reduzir justamente uma das taxas mais importantes da economia americana.

Terceiro, há uma questão política. As eleições legislativas americanas acontecem em novembro e juros longos elevados encarecem hipotecas, crédito empresarial e financiamento do governo. A intervenção abre espaço para a acusação de que o Tesouro está administrando a dívida com objetivos eleitorais, ainda que isso não demonstre que essa seja a motivação da medida.

Quarto, há consequências internacionais. Se Bessent conseguir reduzir estruturalmente os juros americanos, muda a remuneração relativa dos ativos no mundo inteiro. Se fracassar e aumentar a desconfiança em relação à política econômica americana, acontece o mesmo. Mas as duas possibilidades levariam o Brasil a lugares muito diferentes.

Panorama

O problema que Bessent tentou enfrentar é relativamente simples de descrever e muito difícil de resolver. Os Estados Unidos precisam financiar uma dívida pública gigantesca e déficits elevados. Ao mesmo tempo, inflação resistente, preços do petróleo, riscos geopolíticos e uma onda de emissões corporativas associada aos investimentos em inteligência artificial aumentaram a competição por capital. 

O retorno dos títulos de 30 anos do tesouro americano atingiu nesta semana o valor mais alto desde 2007. Isso importa porque esses papéis servem de referência para praticamente toda a economia americana. Quando pagam juros mais altos, encarecem também hipotecas, financiamento empresarial e inúmeras outras operações.

Bessent resolveu agir sobre a oferta. Ao recomprar mais títulos de longo prazo, o Tesouro aumenta a demanda por eles e, na teoria, força uma queda no retorno, ou seja, nos juros pagos. 

Funcionou, por algumas horas.

O repique na manhã desta quinta revela a limitação da estratégia. O Tesouro consegue interferir na quantidade de determinados papéis disponíveis no mercado. Não consegue, por meio de recompras, eliminar déficit fiscal, dívida crescente, inflação ou demanda por capital.

Há uma segunda complicação: o Federal Reserve. Presidido por Kevin Warsh, o FED continua preocupado com a estabilidade dos preços. Pode precisar justamente de juros mais altos para controlar a inflação.

As recompras de Bessent produzem, portanto, uma espécie de afrouxamento financeiro “clandestino”, por fora da política monetária. Quanto mais bem-sucedido for em baixar os juros longos, maior pode ser a necessidade de o Fed manter os juros curtos elevados caso a inflação continue resistente. 

Washington corre o risco de ficar com um pé no acelerador e outro no freio.

Há dois cenários bastante diferentes.

O primeiro é benigno. Bessent consegue impedir uma escalada dos juros longos sem provocar uma crise de confiança. Os títulos americanos passam a render menos, o dólar enfraquece e investidores internacionais procuram alternativas mais rentáveis para investir seus recursos. O Brasil entra naturalmente no radar por oferecer juros elevados e possuir mercados de câmbio, renda fixa e ações suficientemente grandes para receber capital internacional.

Se a situação perdurar, a cadeia de efeitos pode ser relevante: mais capital estrangeiro favorece a valorização do real, reduz a inflação importada e cria ambiente mais favorável para cortes da Selic, redução do custo de capital e valorização de ativos.

Seriam boas notícias para Lula. Um período de real mais forte, inflação mais comportada e juros em queda tenderia a melhorar o ambiente econômico e o humor dos eleitores.

Mas existe o segundo cenário.

A tentativa de Bessent de controlar os juros pode levar investidores a concluir que Washington está procurando administrar o preço da dívida porque não quer ou não consegue enfrentar seu desequilíbrio fiscal. A desconfiança poderia evolur para turbulência financeira.

Nesse cenário, o Brasil dificilmente seria o grande porto seguro do mundo. O movimento típico de uma crise internacional é aumento da aversão ao risco, procura por liquidez e redução da exposição a economias emergentes. Os prêmios exigidos para financiar o Brasil tenderiam a subir. O real poderia se depreciar, a curva brasileira de juros abrir e o espaço do Banco Central para reduzir a Selic, diminuir.

Resumo da ópera

Scott Bessent resolveu intervir no mercado de títulos mais importante do mundo e conseguiu fazer os juros recuarem… por algumas horas.

O repique desta quinta mostrou que é relativamente fácil comprar títulos; muito mais difícil e comprar confiança. O Tesouro americano pode alterar a composição da dívida e reduzir a oferta de papéis longos, mas não consegue desfazer o déficit fiscal, a inflação ou as dúvidas dos investidores sobre a trajetória da dívida americana.

Ao abandonar parte da previsibilidade tradicional da gestão da dívida, Bessent acrescentou uma nova variável ao mercado. Agora os investidores precisam antecipar não apenas as decisões do Fed, a inflação e o déficit, mas também quando e quanto o governo americano está disposto a intervir.

Para o Brasil, importa menos cada oscilação diária dos títulos americanos do que a natureza do movimento. Se ele conseguir reduzir os juros americanos, o país pode receber dólares, ganhar um real mais forte e encontrar condições mais favoráveis à queda interna dos juros.

Se estivermos assistindo ao começo de uma disputa entre Tesouro, Fed e investidores sobre quem determina o preço da dívida americana, a história muda. Em grandes turbulências financeiras internacionais, emergentes raramente são o lugar onde o dinheiro vai buscar paz. 





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