Cuiabá e Várzea Grande formam o maior aglomerado urbano de Mato Grosso, compartilham transporte, mercado de trabalho, hospitais, aeroporto, sistema viário e problemas ambientais, mas continuam convivendo com dificuldades que ultrapassam os limites administrativos das duas cidades. Em 2026, duas delas transformaram-se em símbolos desse descompasso: a longa implantação do BRT e a crise de abastecimento de água em Várzea Grande.
É nesse cenário que os programas apresentados à Justiça Eleitoral por Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD) e Rafaell Millas (Missão) precisam ser examinados.
A análise feita pelo DIÁRIO mostra uma característica importante: embora todos apresentem propostas capazes de atingir a Baixada Cuiabana, nem sempre Cuiabá e Várzea Grande aparecem como objeto de um plano metropolitano detalhado.
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Mobilidade, saneamento, habitação e infraestrutura aparecem nos programas. O desafio está em saber até que ponto essas políticas serão executadas de maneira integrada em duas cidades que, na prática, funcionam cada vez mais como uma única área urbana.
ÁGUA VIROU QUESTÃO ESTADUAL
Nenhum problema evidencia melhor essa relação do que o abastecimento de Várzea Grande.
O município convive com perdas elevadas de água, rede insuficiente e bairros submetidos a abastecimento irregular. Embora o saneamento seja de responsabilidade municipal, a dimensão da crise levou o Governo do Estado diretamente para a discussão.
Pivetta assumiu neste ano o compromisso de participar da solução.
Em julho, afirmou que se sentia “desafiado” a enfrentar o problema e anunciou a Aliança pela Água, articulando Estado e município. A proposta estabeleceu como objetivo garantir abastecimento a todos os bairros de Várzea Grande em 180 dias.
A iniciativa passou a envolver recursos estaduais e um Termo de Ajustamento de Conduta para intervenções no sistema. A execução, porém, depende também das decisões sobre o futuro do DAE e do modelo de prestação do serviço.
Isso cria uma situação peculiar para Pivetta: a principal promessa relacionada à Baixada começa a ser testada antes da eleição.
PIVETTA TEM BRT COMO VITRINE — E PASSIVO
O mesmo ocorre com o BRT.
Como governador, Pivetta herdou uma obra que já atravessou diferentes administrações, atrasos, alterações contratuais e a substituição do VLT pelo sistema de ônibus.
Ele promete entregar ainda em 2026 o eixo ligando o Aeroporto Marechal Rondon ao Centro Político Administrativo, com ônibus elétricos. Também anunciou a intenção de estruturar uma autoridade metropolitana para organizar o transporte entre as duas cidades.
Essa última proposta pode ser tão importante quanto a obra.
Hoje, a mobilidade entre Cuiabá e Várzea Grande envolve diferentes linhas, operadores e responsabilidades. Um sistema metropolitano exige decisões sobre integração tarifária, terminais, contratos, subsídios, operação e fiscalização.
Entregar a pista do BRT, portanto, não encerra a discussão.
A pergunta passa a ser: quem administrará o sistema metropolitano e quanto custará ao passageiro?
WELLINGTON QUESTIONA MODELO DO BRT
Wellington adotou postura crítica em relação à condução do projeto.
Em junho, levou o tema ao Senado e cobrou transparência sobre a operação do BRT, especialmente diante da possibilidade de contratação das empresas que já exploram o transporte coletivo metropolitano. O senador citou atrasos, aumento de custos e incertezas sobre o modelo operacional.
Seu programa registrado apresenta uma proposta mais ampla de “Mobilidade Urbana MT”, pela qual o Estado apoiaria os municípios na melhoria da circulação urbana.
Há também um “Mato Grosso Integrado”, destinado a fortalecer soluções compartilhadas entre municípios para mobilidade, saneamento e planejamento territorial.
É justamente esse conceito que pode ter maior impacto na Baixada.
Cuiabá e Várzea Grande possuem administrações independentes, mas os deslocamentos cotidianos ignoram a divisa municipal. Transporte, emprego e serviços formam um sistema metropolitano.
A questão para Wellington será explicar como sua proposta de integração se traduzirá especificamente no BRT e na relação entre as duas prefeituras.
WELLINGTON INCORPORA SANEAMENTO AO PLANO
O saneamento também entrou formalmente no programa de Wellington.
O candidato propõe um Pacto Municipalista do Saneamento, com apoio técnico às prefeituras para elaboração de projetos, formação de servidores e acesso a financiamento. Também prevê uma plataforma para acompanhar indicadores, contratos, investimentos e metas, além de mecanismos de tarifa social.
Isso significa que a discussão sobre Várzea Grande não ficou restrita às declarações de campanha.
O plano contém instrumentos que poderiam ser utilizados pelo Estado para auxiliar municípios com dificuldade de universalização.
Mas não estabelece, no trecho analisado, uma solução individualizada para o DAE de Várzea Grande.
Há diferença entre propor uma política estadual de apoio ao saneamento e dizer exatamente como resolver a crise do segundo maior município de Mato Grosso.
MUDANÇA NO ICMS PRECISA SER DETALHADA
Wellington também vinha defendendo uma discussão sobre a distribuição das receitas estaduais aos municípios e citando Várzea Grande como exemplo de cidade que precisa ampliar sua capacidade financeira para enfrentar problemas como o abastecimento.
Esse debate ganhou importância com a reforma tributária.
O plano registrado determina apoio técnico aos municípios para avaliar os impactos da mudança tributária sobre suas receitas, mas a proposta de uma redistribuição específica capaz de beneficiar Várzea Grande precisa ser distinguida desse compromisso mais geral.
Ou seja: a preocupação municipalista aparece formalmente no programa; uma nova fórmula específica de ICMS para resolver o desequilíbrio de VG exige detalhamento adicional da candidatura.
Essa distinção é importante para não transformar manifestação política em compromisso formal que o documento não estabeleça nos mesmos termos.
NATASHA CITA CUIABÁ E VG DIRETAMENTE
Entre os programas analisados, Natasha apresenta uma das referências mais explícitas à questão metropolitana.
Seu plano propõe “retomar a mobilidade estruturante de Cuiabá e Várzea Grande com cronograma público e marcos trimestrais”.
É uma crítica direta à história de atrasos que começou com o VLT e prosseguiu após a substituição pelo BRT.
A candidata propõe definir traçado, responsabilidades e prazos, com prestação pública de contas sobre os compromissos assumidos por União, Estado e municípios.
A diferença de Natasha, nesse ponto, está menos na escolha de um novo modal e mais na cobrança de cronograma vinculante e transparência.
O desafio para a candidatura será ir além disso e dizer o que fará com a estrutura que estiver pronta em janeiro de 2027.
Se o BRT estiver operando, o problema deixa de ser concluir a obra e passa a ser melhorar o sistema.
Se não estiver, Natasha herdará novamente a necessidade de terminá-lo.
SANEAMENTO TEM META REGIONAL COM NATASHA
O programa de Natasha também estabelece a universalização do saneamento com metas por região.
O diagnóstico apresentado pela candidatura aponta que a média estadual esconde desigualdades e propõe acompanhar anualmente abastecimento, coleta e tratamento de esgoto.
Isso tem aplicação evidente em Várzea Grande.
A candidata também propõe uma política habitacional estadual própria, com linha de financiamento popular e metas de unidades por região, acompanhada de mutirões de regularização fundiária urbana e rural.
Na Baixada, onde ocupações irregulares e expansão periférica aumentam a pressão sobre transporte, saneamento e equipamentos públicos, habitação e mobilidade não podem ser tratadas separadamente.
Construir moradia longe dos empregos e sem transporte adequado apenas transfere o problema para outra área da administração.
MILLAS ENFATIZA GESTÃO E INFRAESTRUTURA
Millas apresenta sua agenda urbana dentro de uma proposta mais ampla de modernização da infraestrutura e da gestão pública.
Seu programa enfatiza eficiência, tecnologia, planejamento e integração dos investimentos como instrumentos para melhorar os serviços urbanos.
Nesse caso, a cobrança para a Baixada deve ser especialmente objetiva: quais intervenções específicas pretende executar em Cuiabá e Várzea Grande?
Essa é uma diferença importante em relação a propostas que citam nominalmente problemas metropolitanos.
Um programa pode possuir boas diretrizes estaduais, mas a Baixada concentra problemas com características próprias — BRT, travessias entre as duas cidades, Aeroporto Marechal Rondon, abastecimento de VG, expansão urbana e congestionamentos — que exigem respostas territoriais.
SAÚDE TAMBÉM É METROPOLITANA
A integração não termina no transporte.
Cuiabá concentra serviços de alta complexidade utilizados por pacientes de praticamente todo o Estado. O Hospital Central amplia ainda mais essa característica.
Várzea Grande, ao mesmo tempo, necessita ampliar sua capacidade hospitalar.
Pivetta anunciou em julho que pretende levar adiante a implantação de um Hospital Regional em Várzea Grande, chegando a prever licitação ainda neste ano.
Isso muda a lógica da rede.
Se efetivamente implantada, uma unidade de maior porte em VG pode reduzir parte da pressão sobre hospitais cuiabanos e reorganizar os fluxos de pacientes da região metropolitana.
Os demais candidatos precisam responder se manterão o projeto e qual papel atribuem a ele dentro da rede estadual.
HABITAÇÃO NÃO PODE SER ISOLADA
A habitação é outro ponto de convergência.
Pivetta pretende ampliar o programa habitacional associado à atual gestão e estabeleceu a meta política de 60 mil novas moradias no Estado.
Wellington prevê habitação, regularização fundiária e urbanização de assentamentos precários em seu programa, inclusive com infraestrutura, pavimentação e iluminação.
Natasha propõe uma política habitacional estadual com metas regionais.
Para Cuiabá e Várzea Grande, entretanto, a pergunta precisa ser mais específica:
onde serão construídas as novas casas?
A localização determina necessidade de escola, posto de saúde, ônibus, drenagem, água, esgoto e novas vias.
Uma política metropolitana deveria, portanto, conectar habitação ao planejamento territorial.
ACESSOS VIRAM GARGALOS
A expansão urbana também pressiona os acessos.
Avenida da FEB, Miguel Sutil, Fernando Corrêa, Estrada da Guia, Chapada, Mário Andreazza e os corredores que ligam novas regiões residenciais à área central mostram que a mobilidade não depende exclusivamente do BRT.
Duplicações, trincheiras, viadutos e novas ligações podem aumentar capacidade viária, mas também precisam ser combinados ao transporte coletivo.
Caso contrário, o aumento da frota volta a consumir o espaço criado pelas obras.
É justamente por isso que uma autoridade metropolitana, defendida por Pivetta, ou mecanismos de integração regional, presentes no programa de Wellington, podem assumir papel estrutural.
DUAS CIDADES, UM PROBLEMA
A eleição expõe uma contradição histórica da Baixada Cuiabana.
O morador pode dormir em Várzea Grande, trabalhar em Cuiabá, atravessar diariamente a ponte, utilizar hospital estadual, embarcar pelo aeroporto localizado em VG e depender de um sistema de transporte que precisa funcionar nos dois municípios.
Administrativamente, porém, são estruturas separadas.
É por isso que a discussão sobre região metropolitana talvez seja mais importante do que qualquer obra isolada.
Água, esgoto, resíduos, transporte, habitação e expansão urbana exigem planejamento que ultrapasse as fronteiras municipais.
O TESTE SERÁ CONCRETO
A Baixada oferece aos candidatos algo que nem todas as regiões proporcionam: problemas de resultado facilmente verificável.
Ou Várzea Grande terá água regularmente ou continuará convivendo com rodízios e falta de abastecimento.
Ou o BRT funcionará adequadamente ou continuará sendo uma obra.
Ou haverá integração do transporte ou o passageiro continuará enfrentando sistemas fragmentados.
Ou a expansão habitacional virá acompanhada de infraestrutura ou criará novas periferias carentes de serviços.
Para Pivetta, o desafio é maior porque parte dessas respostas começou a ser prometida e executada ainda durante seu governo.
Wellington apresenta municipalismo, integração regional e pacto para saneamento, mas terá de transformar essas diretrizes em soluções específicas para os dois municípios.
Natasha formaliza cronograma para a mobilidade de Cuiabá e Várzea Grande e metas regionais de saneamento e habitação, mas precisará explicar o modelo operacional.
Millas terá de demonstrar como sua agenda de eficiência, infraestrutura e gestão se traduz em compromissos específicos para a maior região urbana do Estado.
Na Baixada Cuiabana, mais do que em qualquer outro lugar, o próximo governador terá de responder a uma pergunta que já ultrapassou os limites de Cuiabá e Várzea Grande:
quem vai governar os problemas que pertencem às duas cidades ao mesmo tempo?





