A distribuição dos recursos partidários para as eleições de 2026 abriu uma corrida financeira desigual em Mato Grosso. Enquanto algumas candidaturas já receberam milhões de reais das direções nacionais, dezenas ainda aparecem sem transferências partidárias relevantes na prestação de contas. O movimento mostra que, além da disputa pelo voto, os candidatos enfrentam uma competição interna pelo dinheiro controlado pelas cúpulas das legendas.
Levantamento feito pelo DIÁRIO a partir das prestações de contas disponibilizadas pela Justiça Eleitoral e dos repasses divulgados até este sábado (29) identifica uma concentração principalmente nas candidaturas consideradas estratégicas para Governo, Senado e Câmara Federal.
A fotografia ainda é provisória. As campanhas estão em andamento, as prestações de contas são atualizadas e novos repasses podem alterar rapidamente a classificação. O próprio Tribunal Regional Eleitoral informa que o DivulgaCandContas permite acompanhar arrecadação e despesas declaradas pelas candidaturas.
O caso mais expressivo identificado até agora é o de Wellington Fagundes (PL), candidato ao Governo. A direção nacional do partido transferiu R$ 4,8 milhões para sua campanha, enquanto o diretório estadual acrescentou R$ 140 mil. Os R$ 4,94 milhões provenientes do PL correspondem a mais de 92% dos R$ 5,3 milhões que haviam entrado no caixa do candidato.
O montante partidário destinado a Wellington equivale sozinho a cerca de 69% do teto de R$ 7,115 milhões permitido para uma candidatura ao Governo de Mato Grosso no primeiro turno.
A Justiça Eleitoral estabeleceu ainda limites de R$ 3,811 milhões para o Senado, R$ 3,176 milhões para deputado federal e R$ 1,270 milhão para deputado estadual.
DINHEIRO SEGUE PRIORIDADES PARTIDÁRIAS – A concentração também aparece na eleição proporcional.
Na chapa do PL à Câmara Federal, a direção partidária havia distribuído R$ 7,775 milhões, mas o dinheiro não foi dividido igualmente.
Rodrigo da Zaeli recebeu R$ 2,675 milhões, maior aporte da chapa. Coronel Assis aparece em seguida, com R$ 2,1 milhões. Rafael Ranalli recebeu R$ 1 milhão. Outros candidatos ficaram com parcelas menores, enquanto havia nomes sem transferência registrada no momento do levantamento.
O valor colocado na candidatura de Zaeli, por exemplo, representa aproximadamente 84% de todo o limite de gastos de R$ 3,176 milhões permitido para um candidato a deputado federal.
Isso significa que, ainda no início da campanha, um único candidato já recebeu da estrutura partidária recursos suficientes para se aproximar do teto legal de toda a eleição.
Na disputa à Assembleia, a diferença também é grande. Alcino Barcelos recebeu R$ 600 mil do PL, enquanto candidatos que buscam novo mandato tiveram aportes significativamente menores. O levantamento anterior do DIÁRIO mostrou que Barcelos havia recebido seis vezes o valor destinado individualmente a dois deputados estaduais candidatos à reeleição.
LEITÃO RECEBE R$ 2,9 MILHÕES – Outro nome colocado entre as prioridades financeiras é o ex-deputado federal Nilson Leitão (PP).
Presidente estadual do Progressistas e candidato à Câmara, Leitão recebeu aproximadamente R$ 2,9 milhões da direção nacional. A campanha também registrou R$ 5 mil doados pela mulher do candidato.
O repasse partidário equivale a mais de 90% do teto permitido para uma campanha de deputado federal.
A diferença dentro da própria Federação União Progressista é expressiva. Magaly, candidata do PP à Câmara, aparece com R$ 600 mil recebidos da legenda. No União Brasil, Fábio Garcia havia registrado R$ 250 mil provenientes de doações, mas não aparecia com transferência da direção nacional, enquanto Virginia Mendes registrava R$ 25 mil enviados pelo diretório estadual. Victório Galli, Eduardo Sanchez e Sandy de Paula estavam entre os nomes sem recursos da direção nacional naquele recorte.
O quadro pode mudar à medida que União Brasil e outras siglas ampliem seus repasses.
SENADO TAMBÉM TEM LARGADA DESIGUAL – A diferença financeira aparece ainda na corrida pelas duas vagas ao Senado.
Margareth Buzetti (PP) largou com o maior caixa entre os candidatos no levantamento realizado pelo DIÁRIO. Foram R$ 2,983 milhões transferidos pela direção nacional do Progressistas. Acrescidos recursos de outras origens, a receita declarada chegava a aproximadamente R$ 3,18 milhões.
O valor a coloca perto do teto de R$ 3,811 milhões permitido para a campanha ao Senado.
José Medeiros (PL) recebeu R$ 1 milhão da direção nacional da legenda, além de R$ 100 mil provenientes de doação privada.
Mauro Mendes (União) também havia superado R$ 1 milhão em receitas, com transferências partidárias e doação particular.
Na outra ponta, candidaturas competitivas eleitoralmente apareciam sem aportes partidários equivalentes na fotografia inicial. É o caso de Janaína Riva (MDB), que estava entre os nomes mais bem colocados nas pesquisas, mas ainda não possuía caixa comparável ao de Buzetti quando o levantamento foi realizado.
A situação mostra que dinheiro e posição nas pesquisas não seguem, necessariamente, a mesma ordem.
ATÉ R$ 62,5 MIL NO NOVO – A comparação entre partidos revela outra dimensão da desigualdade.
Enquanto PL e PP colocaram milhões em algumas candidaturas, os valores registrados na chapa do Novo para deputado federal são bem menores.
Dados publicados neste sábado mostram repasses de até R$ 62,5 mil por candidato. Vilmar Rigo, o “Bolsonaro da Shopee”, Ana Paula de Oliveira Dantas, a “Carequinha”, Doutora Débora, Professor Haroldo e Vinicius Santana receberam esse valor.
Cabo Menegatti aparece com R$ 50 mil; Carlos Dorilêo Jr. e Gal Rodrigues, com R$ 37,5 mil cada. Caio Cordeiro ainda aparecia sem transferência da direção nacional.
Assim, apenas o R$ 2,675 milhões colocado pelo PL na candidatura de Rodrigo da Zaeli corresponde a mais de seis vezes o total distribuído nesse recorte aos candidatos do Novo à Câmara.
FUNDO TEM R$ 4,96 BILHÕES – A disputa estadual é uma pequena parte de um fundo público bilionário.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) de 2026 possui R$ 4.961.519.777. O dinheiro é proveniente do Orçamento da União e destinado ao financiamento das campanhas eleitorais.
O PL recebeu a maior cota nacional, aproximadamente R$ 881,7 milhões. O PT ficou com R$ 615,4 milhões e o União Brasil, com cerca de R$ 526,2 milhões. Juntas, as três legendas concentram aproximadamente 40% de todo o FEFC.
Depois que o dinheiro chega aos partidos, entretanto, não existe obrigação de divisão igualitária entre seus candidatos.
As executivas nacionais estabelecem seus próprios critérios de distribuição, respeitadas as regras legais, incluindo as destinações relacionadas às candidaturas femininas e aos critérios de raça. O TSE informa expressamente que a definição dos critérios é uma decisão interna das agremiações.
É justamente nessa segunda distribuição que surgem as diferenças observadas em Mato Grosso.
FUNDO ELEITORAL NÃO É FUNDO PARTIDÁRIO – A leitura das contas exige ainda uma distinção importante. Nem todo dinheiro transferido por um partido para uma candidatura pode ser tratado automaticamente como “fundão eleitoral”.
O FEFC é constituído especificamente para financiar as eleições. Já o Fundo Partidário é permanente e serve também para custear a estrutura e as atividades das legendas, embora possa ser utilizado em campanhas.
Além dessas duas fontes públicas, as campanhas podem receber recursos próprios dos candidatos, doações de pessoas físicas, financiamento coletivo e outras receitas autorizadas pela legislação.
Por isso, o levantamento do DIÁRIO considera separadamente a origem declarada dos recursos. Uma transferência feita por diretório partidário só pode ser classificada como FEFC quando a prestação de contas identificar essa origem.
REPASSES AINDA PODEM MUDAR O RANKING – A distribuição está longe de encerrada.
Alguns partidos começaram a ter acesso efetivo ao FEFC apenas neste mês. O TSE registra, por exemplo, liberação em 20 de agosto para PL, Progressistas, PSD, PSDB, PSOL, Solidariedade e outras siglas. Em outros partidos, o processo de disponibilização seguia cronograma próprio.
Isso ajuda a explicar por que candidatos de determinadas legendas já aparecem com milhões, enquanto outros ainda não registram dinheiro público de campanha.
A ausência de repasse neste momento, portanto, não significa que o candidato ficará sem fundo eleitoral até outubro.
Mas a primeira distribuição já revela as escolhas das direções partidárias. Wellington, Nilson Leitão, Rodrigo da Zaeli, Coronel Assis e Margareth Buzetti estão entre os candidatos que começaram a disputa com caixas abastecidos por transferências partidárias milionárias.
Enquanto os eleitores começam a acompanhar a propaganda eleitoral, outra disputa ocorre dentro das próprias legendas: a decisão sobre quem receberá os maiores recursos para transformar candidatura em campanha competitiva.





