Início GERAL Partidos perdem controle e eleição vira guerra de palanques em MT

Partidos perdem controle e eleição vira guerra de palanques em MT


Mauro Mendes

A eleição de 2026 em Mato Grosso está transformando as alianças partidárias firmadas nas convenções em acordos cada vez menos capazes de determinar quem sobe no palanque de quem. Lideranças do União Brasil apoiam adversários da coligação oficial, prefeitos do PL abandonam o candidato do próprio partido ao Governo e integrantes do MDB se aproximam da candidatura adversária. Em meio ao movimento, dirigentes já começam a aplicar punições, enquanto outros relativizam publicamente a própria fidelidade partidária.

O cenário levou o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), a resumir a situação nesta semana: “Essa eleição está uma bagunça”.

A frase foi dada ao comentar a destituição do prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira, do comando municipal do PL. A decisão foi tomada pelo presidente estadual da legenda, Ananias Filho, depois de Cláudio participar de um evento e declarar apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), adversário de Wellington Fagundes, candidato do PL ao Palácio Paiaguás.

O caso de Rondonópolis, porém, está longe de ser isolado.

Também filiada ao PL, a prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, declarou no domingo (30) apoio a Pivetta. Antes dela, o prefeito de Campo Novo do Parecis, Edilson Piaia, já havia tomado caminho semelhante.

Abilio afirmou que a direção partidária havia estabelecido previamente as regras para os prefeitos. Em reunião realizada em Brasília, eles foram autorizados a permanecer neutros na disputa estadual, mas não poderiam declarar apoio ou pedir votos para candidatos de outras legendas.

Na prática, a regra não conseguiu impedir as dissidências.

UNIÃO TAMBÉM SE DIVIDE – O mesmo fenômeno ocorre no União Brasil.

A convenção estadual decidiu não lançar candidatura própria ao Governo e aderiu ao projeto de reeleição de Pivetta. A decisão foi tomada depois de uma disputa interna entre o grupo do ex-governador Mauro Mendes e a ala que defendia a candidatura de Jayme Campos.

O resultado da convenção foi de 30 votos a 19 pela retirada da candidatura própria. Com Jayme fora da corrida pelo Paiaguás, parte de seus antigos apoiadores migrou para Pivetta. O líder do Governo na Assembleia Legislativa, Dilmar Dal Bosco, que havia defendido a candidatura de Jayme, está agora entre os aliados do governador.

Jayme, entretanto, tomou a direção contrária à definida pelo próprio União Brasil. Passou a apoiar Wellington Fagundes ao Governo e Janaína Riva (MDB) ao Senado, adversários dos candidatos sustentados pelo grupo majoritário de sua legenda.

O resultado é uma situação incomum: enquanto a direção e parte das principais lideranças do União estão no palanque de Pivetta, um dos nomes mais tradicionais da própria sigla trabalha pela eleição do principal adversário do governador.

“MELHOR TRAIR O PARTIDO” – Candidato ao Senado e uma das principais lideranças do União Brasil, Mauro Mendes foi além de reconhecer as divergências. Ele relativizou publicamente a importância da fidelidade partidária.

“É melhor trair o partido que trair o povo. A nossa fidelidade é a nossa esposa, a nossa família, a Deus e ao povo. Ponto. Partidos políticos no Brasil não representam muita coisa na cabeça do eleitor”, afirmou.

Segundo Mendes, a fidelidade partidária “não é algo que importa muito a um cidadão”.

Para ele, as divergências devem ser tratadas como parte da liberdade de escolha de cada liderança. O candidato argumentou que o eleitor estaria mais interessado no histórico e na experiência do político do que na legenda à qual ele pertence.

A flexibilização dos palanques alcança também o MDB. Embora o partido esteja na aliança de Wellington e tenha Janaína Riva como candidata ao Senado, integrantes da legenda declararam apoio a Pivetta. O próprio Abilio citou as dissidências emedebistas ao explicar que o fenômeno não está restrito ao PL.

“Se você for ver, tem candidatos a deputado do MDB que já manifestaram apoio ao Pivetta sendo do partido da Janaína, tem gente do partido de lá que também está manifestando para cá. Uma bagunça. Isso faz parte”, declarou o prefeito.

PALANQUES CRUZADOS – As dissidências criam uma campanha na qual a identificação partidária já não é suficiente para indicar automaticamente o candidato apoiado por determinada liderança.

No PL, Wellington tenta manter unido um partido no qual prefeitos importantes se aproximaram de Pivetta. No União Brasil, a direção está com Pivetta, enquanto Jayme trabalha por Wellington. No MDB, que integra o projeto eleitoral do senador do PL, há candidatos e lideranças locais apoiando o atual governador.

A situação também interfere nas campanhas proporcionais. Candidatos a deputado precisam conciliar a estratégia das próprias legendas com alianças municipais construídas ao longo dos últimos anos, algumas delas com prefeitos e grupos que escolheram candidatos diferentes para o Governo e o Senado.

As próximas semanas deverão mostrar até onde as direções partidárias pretendem tolerar esse modelo. O PL já deu o primeiro sinal de que existe limite ao retirar Cláudio Ferreira do comando da legenda em Rondonópolis.

Por enquanto, porém, a eleição estadual caminha com uma característica cada vez mais evidente: as coligações continuam formalizadas, mas os palanques políticos deixaram de obedecer integralmente às fronteiras dos partidos.





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