Início GERAL Milhões são anunciados, mas Cuiabá cobra dinheiro no caixa

Milhões são anunciados, mas Cuiabá cobra dinheiro no caixa


Levantamento preliminar feito pelo DIÁRIO mostra que existem registros de dezenas de milhões de reais anunciados ou articulados para projetos na Capital nos últimos anos

 

A cobrança do prefeito Abilio Brunini (PL) de que deputados e senadores precisam fazer mais por Cuiabá esbarra em uma diferença que pode valer milhões de reais: uma coisa é anunciar uma emenda; outra é o dinheiro efetivamente chegar ao destino.

Levantamento preliminar feito pelo DIÁRIO mostra que existem registros de dezenas de milhões de reais anunciados ou articulados para projetos na Capital nos últimos anos. Parte dessas cifras, entretanto, precisa ser confrontada com os sistemas oficiais de execução orçamentária para identificar quanto foi empenhado e, principalmente, quanto foi efetivamente pago.

A apuração começou depois de Abilio elevar o tom contra a representação política de Cuiabá. O prefeito afirmou que a cidade perde aproximadamente R$ 100 milhões por ano, criticou a Assembleia Legislativa e passou a cobrar nominalmente parlamentares.

 

INFO dinheiro para cuiabá

 

Na entrevista, a cifra dos R$ 100 milhões foi relacionada pelo prefeito à perda de receita, inclusive de ICMS. Por isso, esse valor não pode ser tratado automaticamente como dinheiro de emendas que Cuiabá deixou de receber. A Prefeitura ainda precisa apresentar a memória de cálculo que permita identificar exatamente de onde vem essa estimativa.

No caso das emendas, porém, Abilio também apresentou exemplos concretos.

Ele afirmou que o deputado estadual Wilson Santos (PSD) e o senador Carlos Fávaro (PSD) prometeram dinheiro para o Contorno Leste, mas que os recursos não chegaram.

Documentos e declarações públicas mostram que as promessas existiram.

Em julho de 2025, Wilson anunciou articulação com Fávaro para uma destinação de R$ 18 milhões voltada à desapropriação de áreas do Contorno Leste. Meses depois, o deputado falava em aproximadamente R$ 30 milhões em compromissos para o projeto, reunindo recursos atribuídos a ele próprio, a Fávaro e ao senador Wellington Fagundes.

A existência do anúncio, contudo, não significa que o dinheiro tenha sido pago.

É justamente nesse ponto que a cobrança feita por Abilio precisa passar pelo teste dos documentos.

CONTORNO TEVE MILHÕES PROMETIDOS – No conjunto de articulações divulgado em 2025, R$ 18 milhões foram atribuídos a Fávaro e R$ 3 milhões a Wilson Santos. Wellington teria sinalizado entre R$ 5 milhões e R$ 8 milhões.

Em janeiro deste ano, reportagem sobre a situação do Contorno Leste ainda tratava aproximadamente R$ 32 milhões como recursos anunciados ou comprometidos, enquanto a regularização permanecia pendente.

Isso permite confirmar uma parte da história: houve promessa pública de recursos.

O que ainda precisa ser comprovado na execução orçamentária é se as emendas foram formalizadas, empenhadas e pagas e, em caso negativo, em qual etapa ficaram paradas.

Assim, a declaração de Abilio de que Fávaro e Wilson “não mandaram um centavo” permanece como afirmação do prefeito, e não como conclusão do levantamento.

WELLINGTON ANUNCIOU R$ 16 MILHÕES – O próprio Wellington também aparece entre os parlamentares com recursos anunciados para a Capital.

Em maio deste ano, a Prefeitura de Cuiabá informou que o senador anunciou R$ 16 milhões para habitação, durante reunião com Abilio. O dinheiro seria utilizado em programas habitacionais relacionados ao Minha Casa Minha Vida. A agenda também incluiu discussão sobre recursos para a Saúde.

Novamente, o valor anunciado não deve ser automaticamente contabilizado como dinheiro recebido.

 

ABILIO ELOGIA LÚDIO POR R$ 3,5 MILHÕES – Enquanto cobra alguns parlamentares, Abilio reconheceu publicamente a participação do deputado estadual Lúdio Cabral (PT) em uma obra municipal.

O prefeito atribuiu a Lúdio R$ 3,5 milhões em emenda para o Centro de Especialidades Médicas do Coxipó.

O CEM está entre os investimentos de Saúde destacados pela atual administração. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, o projeto envolve reforma e ampliação da unidade e investimentos superiores a R$ 4 milhões somente nessa etapa.

A declaração chama atenção porque Lúdio está politicamente no campo adversário ao prefeito, mas foi nominalmente reconhecido por Abilio pela destinação dos recursos.

Também nesse caso, o levantamento definitivo deverá apontar o valor empenhado e pago.

BANCADA TEM RECURSOS QUE NÃO PASSAM PELA PREFEITURA – Existe outro problema para qualquer tentativa de responder simplesmente “quanto Cuiabá recebeu”.

Nem todo dinheiro destinado à Capital entra no caixa da Prefeitura.

Uma emenda pode financiar uma universidade, instituto federal, hospital, obra estadual ou outra instituição instalada em Cuiabá. O benefício fica na Capital, mas o município não recebe diretamente o recurso.

Um exemplo aparece no Orçamento de 2026.

A bancada federal de Mato Grosso aprovou uma emenda de aproximadamente R$ 85,6 milhões destinada ao IFMT em Cuiabá. É uma aplicação expressiva de recursos federais na Capital, mas não pode ser contabilizada como transferência para a Prefeitura — nem atribuída isoladamente a um deputado ou senador, porque se trata de decisão coletiva da bancada.

Essa distinção muda completamente um eventual ranking.

DIÁRIO VAI SEPARAR PROMESSA DE PAGAMENTO – Para chegar a uma comparação justa, o levantamento precisa dividir os recursos em pelo menos três estágios: indicado, empenhado e pago.

Também será necessário separar emendas individuais das emendas de bancada e distinguir recursos transferidos diretamente à Prefeitura daqueles aplicados por outros órgãos dentro do município.

A base oficial do Tesouro disponibiliza demonstrativos das emendas individuais e de bancada destinadas a Estados e municípios, permitindo acompanhar os exercícios utilizados no levantamento.

O recorte permitirá comparar os oito deputados federais e três senadores de Mato Grosso, além dos recursos coletivos da bancada.

Só então será possível estabelecer quem mais destinou recursos para Cuiabá e, sobretudo, quem conseguiu transformar a indicação orçamentária em pagamento.

R$ 100 MILHÕES SÃO OUTRA CONTA – A apuração também mostra que é preciso separar duas acusações feitas por Abilio.

A primeira diz respeito aos R$ 100 milhões que Cuiabá perderia anualmente, relacionados pelo prefeito à receita municipal e às transferências estaduais.

A segunda envolve a atuação de deputados e senadores na destinação de emendas.

Uma conta não comprova automaticamente a outra.

Para confirmar a perda anual de R$ 100 milhões, o DIÁRIO precisa obter da Prefeitura a memória de cálculo e comparar a evolução das transferências estaduais, especialmente aquelas relacionadas ao ICMS.

Para medir a contribuição dos parlamentares, é necessário rastrear individualmente as emendas.

A PERGUNTA AGORA É QUANTO CHEGOU – Os primeiros números já mostram que não faltaram anúncios milionários para Cuiabá.

Somente os compromissos relacionados ao Contorno Leste chegaram à casa das dezenas de milhões. Wellington anunciou outros R$ 16 milhões para habitação. Lúdio aparece com R$ 3,5 milhões reconhecidos pelo próprio prefeito. E há ainda grandes emendas coletivas da bancada aplicadas dentro da Capital.

Isso, porém, não responde à pergunta levantada por Abilio.

A resposta depende de abrir cada destinação e seguir o dinheiro até a última etapa.

Se os valores anunciados aparecerem como pagos, a tese de abandono da Capital perde força. Se grande parte estiver apenas no anúncio, a cobrança do prefeito ganha sustentação documental.

 





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