A reta final da disputa pelas duas vagas de Mato Grosso ao Senado abriu uma batalha paralela pelos apoios políticos já declarados. Quatro deputados estaduais ouvidos pelo DIÁRIO, sob condição de anonimato, afirmam que foram procurados pelo empresário Eraí Maggi e pressionados a retirar apoio à candidatura da deputada estadual Janaina Riva (MDB).
Segundo os relatos, a movimentação teria como objetivo fortalecer a candidatura à reeleição do senador Carlos Fávaro (PSD), de quem Eraí é aliado político. Nenhum dos parlamentares ouvidos aceitou falar publicamente sobre as conversas.
A atuação descrita pelos deputados ocorre em um momento no qual Janaina aparece entre os nomes competitivos para as duas cadeiras em disputa. Além dela e de Fávaro, a corrida reúne candidatos como o ex-governador Mauro Mendes (União) e o deputado federal José Medeiros (PL), entre outros.
Um dos deputados procurados por Eraí relatou ao DIÁRIO que a influência política do empresário ultrapassa o processo eleitoral.
“Independente de quem ocupe a chefia do Poder Executivo, Eraí Maggi praticamente manda em Mato Grosso e quer continuar mandando”, afirmou o parlamentar.
A declaração representa a avaliação do deputado e não há, até o momento, elemento apresentado à reportagem que demonstre interferência irregular do empresário sobre órgãos públicos ou Poderes constituídos.
Eraí Maggi foi procurado pelo DIÁRIO para comentar os relatos dos quatro deputados, mas não retornou as ligações até o fechamento desta edição.
Fávaro é aliado antigo
A relação política entre Eraí e Fávaro antecede o atual processo eleitoral.
Fávaro ganhou projeção estadual à frente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e, em 2014, foi eleito vice-governador na chapa de Pedro Taques. Rompeu com o então governador antes do fim do mandato e deixou o cargo para disputar o Senado em 2018.
Naquela eleição, terminou fora das duas vagas conquistadas por Selma Arruda e Jayme Campos. A posterior cassação de Selma pela Justiça Eleitoral abriu caminho para uma eleição suplementar.
Fávaro chegou a ocupar temporariamente a cadeira por decisão judicial e, posteriormente, venceu a eleição suplementar realizada em 2020. No terceiro governo do presidente Lula, assumiu o Ministério da Agricultura.
Eraí também mantém uma trajetória própria de participação nos bastidores da política mato-grossense. Em 2002, foi candidato a suplente de Dante de Oliveira na disputa pelo Senado. Dante, que deixava o governo após dois mandatos, acabou derrotado.
Mais recentemente, Eraí esteve entre os empresários que participaram, em 31 de agosto, de encontro com o presidente Lula no Palácio da Alvorada. A defesa da candidatura de Fávaro faz parte de sua movimentação política na atual campanha.
Mauro também busca ampliar espaço
A pressão sobre a base de Janaina, conforme apurou o DIÁRIO, não estaria restrita à articulação em favor de Fávaro.
Mauro Mendes, também candidato ao Senado, vem procurando prefeitos, vereadores e outras lideranças para consolidar apoios à própria candidatura. Dentro desse movimento, há disputa direta por lideranças que também mantêm compromissos políticos com Janaina.
É um componente especialmente importante em uma eleição na qual cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado.
Essa característica permite alianças cruzadas. Uma liderança pode pedir voto para dois candidatos pertencentes a campos políticos diferentes, assim como um candidato pode disputar o primeiro voto de determinado eleitor sem necessariamente controlar sua segunda escolha.
É justamente sobre esse segundo voto que parte da batalha política da reta final tende a se concentrar.
Fantasma de 2002
No grupo político de Mauro, a eleição de 2002 permanece como referência histórica dos riscos de uma disputa ao Senado, mesmo para candidatos que chegam às urnas depois de ocupar o governo.
Naquele ano, Dante de Oliveira deixou o Palácio Paiaguás após dois mandatos e altos índices de aprovação, mas não conseguiu se eleger senador.
Na disputa pelo governo, o candidato apoiado por Dante, Antero Paes de Barros, foi derrotado por Blairo Maggi. Para o Senado, Mato Grosso elegeu Jonas Pinheiro e Serys Slhessarenko.
O episódio costuma ser lembrado no meio político como demonstração de que aprovação administrativa, estrutura partidária e favoritismo não garantem automaticamente uma cadeira no Senado.
Duas vagas favorecem voto cruzado
O histórico eleitoral de Mato Grosso também mostra que, quando duas cadeiras estão disponíveis, o eleitor não necessariamente escolhe candidatos pertencentes ao mesmo campo político.
Em 1994, foram eleitos Jonas Pinheiro e Carlos Bezerra. Em 2002, Jonas e Serys Slhessarenko. Em 2010, Blairo Maggi e Pedro Taques. Em 2018, as duas vagas ficaram inicialmente com Selma Arruda e Jayme Campos.
Os resultados anteriores, porém, não permitem projetar automaticamente o comportamento do eleitorado em 2026. A composição das candidaturas, as alianças e o cenário político são diferentes.
Neste ano, a multiplicidade de candidaturas torna o segundo voto uma variável importante da campanha. É nesse espaço que Fávaro tenta crescer e Janaina procura preservar os apoios construídos até agora.
A disputa também alcança o campo da direita. Janaina busca votos de um eleitorado que também é disputado por José Medeiros, enquanto Mauro ocupa posição de destaque na corrida. Fávaro, por sua vez, tenta reunir partidos e lideranças do campo governista federal e ampliar sua votação para além dessa base.
Pressão aumenta na reta final
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, as campanhas entram agora no período em que apoios de prefeitos, vereadores, deputados e lideranças regionais ganham maior peso na mobilização dos eleitores.
Ao contrário das disputas para presidente e governador, a eleição para senador termina no primeiro turno. O mesmo ocorre com deputados federais e estaduais.
É nesse contexto que se insere a movimentação atribuída a Eraí Maggi pelos quatro deputados ouvidos pelo DIÁRIO.
A questão agora é saber se a ofensiva produzirá mudança efetiva de apoios ou se as lideranças procuradas manterão os compromissos já assumidos. Para Janaina, preservar sua rede política tornou-se mais uma frente da campanha. Para Fávaro, conquistar parte desses apoios significa tentar ampliar espaço justamente no momento em que a disputa pelas duas cadeiras entra em sua fase decisiva.





