Início NACIONAL A “blusinha” que virou saia justa para Lula no setor produtivo

A “blusinha” que virou saia justa para Lula no setor produtivo


O setor produtivo decidiu colocar Lula “contra a parede” após o governo acelerar no Congresso o fim da chamada “taxa das blusinhas”. Enquanto o presidente aposta no apelo popular da medida, entidades da indústria alertam que a conta pode acabar sendo paga por empresas e trabalhadores brasileiros.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a manutenção da isenção pode colocar em risco 109 mil empregos e provocar uma perda de 21,8 bilhões de reais em produção doméstica somente em 2026. Para a entidade, zerar o imposto amplia a vantagem dos produtos importados diante daqueles fabricados no Brasil.

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também partiu para o confronto. A entidade afirma que a mudança cria uma competição desequilibrada entre empresas instaladas no país, submetidas a custos tributários, trabalhistas e regulatórios, e vendedores estrangeiros que operam pelas plataformas digitais.

“A indústria nacional precisa competir em condições equilibradas com os produtos importados”, afirmou Juliana Gagliardi, coordenadora da Gerência de Economia da Fiemg. Segundo ela, a diferença nas regras pode comprometer investimentos, empregos e a capacidade de geração de valor da indústria brasileira.

Conta pode ficar com o trabalhador

A reação ocorre justamente quando Lula tenta acelerar a votação da MP 1.357/2026. O presidente fechou um acordo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para destravar a medida antes das eleições.

A estratégia tem forte apelo eleitoral: o consumidor passa a pagar menos imposto em compras internacionais de até US$ 50. O problema, segundo a indústria, é o efeito do outro lado da equação.

A CNI calcula que, para cada 1 real importado pelo programa Remessa Conforme, deixam de ser gerados 3,11 reais ao longo das cadeias produtivas brasileiras. A indústria de transformação, especialmente os segmentos de vestuário, eletrônicos e outros bens de consumo, concentra parte relevante do impacto.

Importados avançam

Os números apresentados pela Fiemg ajudam a dimensionar a pressão sobre o mercado nacional. As vendas realizadas pelo Remessa Conforme chegaram a 2,32 bilhões de reais em julho, alta de 71,31% em relação ao mesmo mês de 2025. Em junho, primeiro mês completo após a mudança tributária, foram 2,6 bilhões de reais, crescimento de 101% em um ano.

A federação ressalva que não é possível atribuir todo o crescimento exclusivamente à mudança tributária. Ainda assim, avalia que os dados indicam uma aceleração das compras internacionais depois da redução do imposto.

O embate, portanto, coloca Lula diante de uma escolha politicamente incômoda: preservar uma medida de forte apelo junto ao consumidor ou atender à indústria nacional, que cobra condições menos desiguais para competir com os importados.

A comissão mista que analisa a MP foi instalada nesta sexta-feira, 28. O relatório deve ser votado na próxima segunda-feira, 31, e a proposta precisa ser aprovada pelo Congresso até 8 de setembro para não perder a validade. A relatora, senadora Leila Barros (PDT-DF), afirmou que pretende ouvir os setores produtivos contrários à medida.

Do lado do governo, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), presidente da comissão, defende a manutenção da isenção e afirma que a medida beneficia consumidores de menor poder aquisitivo.





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