O ciclo de inflação comportada e juros baixos que sustentou os portfólios entre 2009 e 2020 acabou, e a renda fixa precisa ser reavaliada no papel de proteção que exercia naquele período. A avaliação é de Thiago Ferreira, economista sênior da Vanguard, em painel da Expert XP 2026 nesta quinta-feira (23).
Segundo ele, a mudança está na origem dos choques. Reorganização das cadeias globais, disputas geopolíticas, tarifas comerciais, pandemia e conflitos internacionais passaram a provocar choques de oferta, o que altera de forma relevante o comportamento da inflação e a resposta da política monetária.
“Quando essas coisas acontecem, a inflação vai pra cima. E o que acontece é que o Banco Central fica ali no meio, naquele dilema: se ele corta juros para ajudar a economia, ele vai acelerar a inflação. Nesse momento, a renda fixa, que antigamente protegia, precisa ser reavaliada”, afirmou.
O ponto rompe com a lógica que funcionou por mais de uma década. No período entre 2009 e 2020, que Ferreira classifica como exceção histórica, cada desaceleração da economia vinha acompanhada de recuo da inflação, o que abria espaço para corte de juros.
Cesar Florido, head de Gestão da XP Asset US, tratou do mesmo problema pela ótica do retorno real. Ele lembrou que a inflação deixou de ser questão secundária na virada da década e voltou a rodar perto de 4% ao ano em termos anualizados.
“De 2009 a 2020, você não teve a inflação como um problema, e, de 2020 para frente, ela está em quase 4%, anualizada. Se você não tiver investimentos que te protejam, seu patrimônio vai corroer. É preciso gerar retorno real”, disse.
Para Florido, a volatilidade continuará sendo variável relevante na montagem das carteiras. Mesmo o investidor que já tem exposição internacional, na avaliação dele, precisa considerar ajustes no portfólio diante de um cenário influenciado por guerras, oscilações no preço do petróleo e desafios fiscais.
Onde estão as oportunidades
Apesar das taxas ainda atrativas no mercado local, os dois defenderam que a alocação fora do Brasil é cada vez mais importante para preservar e expandir o patrimônio, além de dar acesso a um universo maior de teses. Ferreira citou segmentos ligados a inteligência artificial (IA), data centers e semicondutores entre os que concentram as transformações mais relevantes.
O alerta veio junto. Muitos ativos já operam com valuations esticados, e o exercício, segundo o economista, é identificar onde estará a próxima onda de crescimento, não perseguir o tema da vez. Na leitura dele, o desenvolvimento da IA tende a avançar em direção ao usuário final, chegando a hospitais, sistemas de saúde e serviços financeiros com soluções mais eficientes e personalizadas.
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A IA, aliás, não configura para Ferreira um choque clássico de produtividade, mas muda de forma relevante a dinâmica dos mercados, o que por si só justifica revisão de portfólio. O economista também chamou atenção para a transição demográfica, com mais idosos e menos jovens no mercado de trabalho.
Dólar sem substituto
Diante das discussões sobre enfraquecimento da moeda americana, Florido foi direto ao dizer que o dólar não tem substituto claro no curto prazo e continua sendo o que sempre foi. Ele ponderou, porém, que a dinâmica muda conforme o investidor. Para o americano, é natural manter boa parte dos ativos dolarizada. Para o brasileiro, cuja geração futura de caixa segue em real, o quadro é diferente, o que não elimina a importância da moeda na estratégia de diversificação.
Ferreira acrescentou que a força dos Estados Unidos não se resume à moeda, apoiada também na robustez do mercado corporativo e na profundidade da liquidez local.
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Questionados sobre os ajustes práticos para os próximos dez anos, os dois separaram o que é tático do que é permanente.
Na renda variável, Ferreira defendeu ampliar a participação nas novas fontes globais de crescimento sem abandonar o método. “O que eu não mudaria seria a disciplina. A disciplina vem do que você consegue controlar: diversificar, manter custos baixos, ter horizonte de tempo e uma estratégia firme, sem cair em narrativas de curto prazo”, afirmou.
Na renda fixa internacional, Florido apontou que a classe voltou a oferecer retornos atrativos, o que amplia seu papel nas carteiras, com a contrapartida de exigir mais seletividade.
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“Antes, você pagava para investir, com juros negativos na Europa, como nos papéis alemães de 10 anos. Hoje, por conta desses novos riscos, ela voltou a pagar renda de verdade. Mas é nessa hora que você precisa ser seletivo para extrair renda de onde há qualidade”, destacou.





