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Abelardo de la Espriella derrota Cepeda e interrompe ciclo progressista na Colômbia – CartaCapital


O milionário advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella confirmou seu favoritismo neste domingo 21, derrotou Iván Cepeda (esquerda) no segundo turno da eleição à Presidência da Colômbia e encerrou o breve período sob um governo progressista.

Com 100% das urnas contabilizadas no preconteo, uma apuração preliminar realizada pelas autoridades eleitorais do país, Abelardo soma 49,7% dos votos, contra 48,7% de Cepeda. O anúncio formal do resultado, no entanto, dependerá do chamado escrutinio, a ser realizado nos próximos dias.

Atrás de uma barreira de vidro à prova de balas, de la Espriella celebrou o início de uma “nova história para a nação”. O presidente eleito tomará posse em 7 de agosto, como sucessor de Gustavo Petro — o primeiro representante da esquerda a ocupar a Casa de Nariño.

“Começa uma nova era, uma mudança de ordem, a pátria milagre”, afirmou em Barranquilla, cidade da costa caribenha, em seu primeiro discurso diante de milhares de simpatizantes. O advogado  chegou ao local em um veículo semelhante ao papamóvel.

Cepeda, por sua vez, declarou que não reconhecerá a derrota antes da conclusão da apuração, que deve se estender por alguns dias. O candidato pretende contestar 33 mil urnas e aposta no processo para tentar reverter o resultado.

“Não se pode proclamar nenhum presidente. É o escrutínio que determina quem é o presidente. Obedeço aos juízes”, publicou Petro, nas redes sociais, na noite de domingo 21. “A realidade nos mostra um país dividido ao meio, e interferência estrangeira nos tirando a liberdade. Impõe-se um acordo nacional se quisermos manter a pátria e a paz nos próximos anos.”

Quem é Abelardo de la Espriella

Apelidado de “O Tigre”, De la Espriella se inspira em figuras como Donald Trump, o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele. Disputou neste ano sua primeira eleição, após construir notoriedade como advogado de personagens ligados ao paramilitarismo, ao narcotráfico, à corrupção e ao mundo do futebol.

Ao longo da campanha, prometeu “reconstruir a República”, recuperar a segurança, defender a democracia “pela razão ou pela força” e se tornar um “inimigo ferrenho” da esquerda. Também à semelhança de seus ídolos, acumulou declarações homofóbicas e machistas sem que isso comprometesse sua competitividade eleitoral.

Defensor do porte de armas, De la Espriella propõe reduzir em 40% a máquina estatal e construir megapresídios. Em uma de suas formulações mais brutais, disse que os detentos ficariam “dez andares abaixo da terra” e seriam alimentados com “pão e água”. Seu programa prevê ainda o fim da política de “paz total” de Petro, militarização e uma agenda econômica liberal, com redução de impostos para empresas e incentivo à exploração de petróleo e gás.

Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella disputaram o segundo turno presidencial na Colômbia. Fotos: Luis Acosta e Raul Arboleda/AFP

Segurança e medo impulsionam vitória

“É impossível compreender a eleição colombiana sem entender a centralidade da segurança pública no debate”, explica a CartaCapital Renata Peixoto de Oliveira, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora do curso de Relações Internacionais e Integração da Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

Dez anos após o acordo de paz com as FARC, o tema continua em disputa. Em um país marcado pela escalada da violência e pela expansão de grupos armados, De la Espriella soube capitalizar a rejeição de parte do eleitorado às negociações conduzidas por Petro.

Na avaliação de Oliveira, o novo presidente tende a substituir o diálogo por uma política de confronto com guerrilhas e organizações criminosas. A guinada também pode aproximar Bogotá de Washington, depois das tensões entre Petro e a Casa Branca.

No campo econômico, acrescenta a professora, De la Espriella guarda semelhanças com Milei: representa os interesses do grande capital e do empresariado e pretende recolocar a Colômbia na trilha do neoliberalismo.

A derrota de Cepeda, porém, não elimina as pressões sobre a esquerda. Para Oliveira, até uma eventual vitória do candidato governista dificilmente seria interpretada como um aval irrestrito à gestão Petro: refletiria também o receio de parte do eleitorado diante do perfil mais radical de De la Espriella.

Segurança urbana, violência política, economia e serviços públicos continuarão no centro das cobranças. Sem respostas nessas frentes, a Colômbia pode voltar a assistir a uma onda de protestos, como a que marcou o país entre 2019 e 2021, e a uma erosão ainda maior da confiança no sistema político.



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