O estrangeiro foi atrás de commodities e energia, e o Brasil estava no lugar certo. Desde então, o Ibovespa praticamente dobrou, e ainda há boa chance de a maré continuar favorável para o País — o que abre espaço, segundo André Lion, sócio e gestor de renda variável da Ibiuna Investimentos, para que o local que ficou “preso” na renda fixa finalmente migre para ações.
Mas ele defende que a tese que alimenta o fluxo para o Brasil tem limites e falha “nos dois extremos”. Numa recessão global, o investidor busca segurança e sai dos emergentes; numa aceleração forte dos EUA, fica concentrado lá e não precisa diversificar. “No meio do caminho, o Brasil segue como destino natural”, diz Lion.
O problema, conta, é que “a maioria das pessoas físicas tem zero em bolsa, porque o brasileiro continua achando “a renda fixa o melhor ativo que existe”, mesmo tendo pagado 15% num ano em que o estrangeiro embolsou quase 100%.
As condições da Bolsa hoje são diferentes das que o estrangeiro encontrou lá atrás, mas, segundo o gestor, ainda será capaz de oferecer muito mais que a renda fixa se as variáveis certas se alinharem: se o juro real recuar para perto de 5%, ativos domésticos teriam potencial de subir 30% a 50%. “Tem oportunidades. A gente está comprando ativamente hoje.”
Em entrevista ao InfoMoney, Lion avalia o acordo em negociação entre EUA e Irã e o que ele significa para o fluxo de capital estrangeiro, discute o cenário eleitoral nos dois países e detalha as posições da Ibiuna na correção recente, com Petrobras (PETR4) e C&A (CEAB3) entre as principais apostas.
Confira os destaques da conversa.
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InfoMoney: Se o acordo entre EUA e Irã se confirmar, esse será o gatilho para o trade de emergentes voltar? A gente viu uma desaceleração do fluxo estrangeiro nas últimas sessões.
André Lion: O trade Brasil deu uma parada, e eu acho isso relativamente saudável. A gente viu em janeiro e fevereiro um fluxo desproporcional, que não era razoável. Depois começou a guerra, o fluxo continuou, mais errático e em menor intensidade, e nas últimas duas semanas ficou negativo. Mas não acho que isso, por si só, seja um grande sinal. O mercado oscila, vai para frente, volta um pouco.
Vamos pensar nos fundamentos. O que a guerra provocou foi uma alta no preço de energia no mundo, e essa alta tem duas partes. Uma é estrutural: mesmo acabando a guerra, ela não reverte completamente. Você tem o risco geopolítico aumentado, algum impacto em infraestrutura, capacidade de produção e transporte, e uma demanda nova criada porque todos os países do mundo querem ter mais reserva de petróleo e derivados hoje do que queriam em janeiro. A outra parte é conjuntural, o calor da guerra e a incerteza do momento. Quando o acordo acontecer, essa parte desaparece. A questão é que ninguém sabe se vai demorar um mês ou três meses.
Quando esse cenário se normalizar, os bancos centrais vão conseguir voltar à sua função de reação. No Brasil, isso significaria retomar o processo de redução da taxa de juros, que foi a 14,5% e ainda é bastante alta. E o Brasil, por estar mais na ponta, com juro real mais alto, tende a ser um dos maiores beneficiários dessa normalização.
O processo eleitoral já começou, mas o estrangeiro não vê um cenário necessariamente negativo de um Lula 4, como parte do mercado. Qual é a visão de vocês?
O Brasil está em pleno processo eleitoral, mas por causa do ruído da guerra isso está sendo deixado de lado pelo mercado, o que é correto. O problema é que daqui um, dois, três meses, quando a guerra sair do centro da incerteza, a gente vai estar em junho, julho, agosto, bem no momento em que o processo eleitoral vai estar ganhando potência.
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O que chama atenção hoje é que continua sendo uma eleição muito competitiva, aquele 50 a 49 de que todo mundo fala. Mas se você me perguntasse três meses atrás quem seria o 50, eu diria que seria o presidente Lula, e o 49 seria quem quer que fosse da oposição tentando fechar o gap. O que a gente está vendo pelas últimas pesquisas é o contrário. Estatisticamente não significa nada, está dentro da margem de erro, mas é curioso que está invertido.
A visão que o investidor estrangeiro tem é de uma assimetria clara: Lula 4 é mais do mesmo, um presidente conhecido, nada disruptivo. Se você tiver uma alternância de poder, potencialmente tem uma mudança estrutural, especialmente na parte fiscal, com queda do juro real e apreciação dos ativos. Então o estrangeiro vê essa decisão como: ou fica igual ou melhora muito.
Como vocês avaliam essa visão positiva do estrangeiro sobre o Brasil, e o que poderia mudar esse fluxo?
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Depois do tarifaço americano e da guerra, o capital global passou a buscar commodities, energia e ativos reais em vez de tecnologia e crescimento. O Brasil se encaixou muito bem nesse perfil, por liquidez, tamanho de mercado e pela própria composição da bolsa. E a tese continua funcionando, desde que a gente não vá para os extremos. Numa recessão global, o investidor busca segurança e sai dos emergentes. Numa aceleração forte dos Estados Unidos, ele fica concentrado lá e não precisa diversificar. No meio do caminho, o Brasil segue como destino natural.
O Brasil cai como uma luva para esse tipo de investidor: liquidez, tamanho dos ativos, capacidade de investimento. A América Latina encaixa bem nesse movimento de realocação global, e dentro da América Latina o Brasil encaixa bastante bem.
O único cuidado é que essa complacência do investidor estrangeiro está ancorada no cenário atual: dólar fraco, busca por commodities, alguma diversificação fora dos Estados Unidos. Se esse cenário mudar, se a gente entrar num ambiente de dólar forte ou de menor procura por commodities, essa complacência pode reduzir rapidamente. Concordo com o cenário base, mas não dá para tratar como 100% certo.
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As midterms americanas podem ser um ponto de virada para esse fluxo? Uma derrota do Trump mudaria essa dinâmica?
Uma derrota do Trump provavelmente indicaria uma segunda metade de governo muito menos ruidosa, porque ele perderia poder e a capacidade de fazer coisas se reduziria. Isso mudaria um pouco a percepção dos Estados Unidos como ativo, já que tem muita gente preocupada com o que está acontecendo lá. Mas não necessariamente encerraria esse cenário para o Brasil.
O que parece mais favorável é um resultado equilibrado, onde o Trump não perde as duas casas. Reduz um pouco a capacidade dele, mas a dinâmica continua. O que não pode acontecer é um dos lados levar tudo, seja os republicanos, que seria o povo americano referendando o caminho atual, seja o contrário, que seria parar e inverter completamente. Nos dois extremos, o Brasil e os emergentes tendem a sofrer.
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E o mesmo raciocínio vale aqui: se as pesquisas brasileiras começarem a mostrar uma migração clara do cenário 50 a 49 para um 60 a 40, para qualquer lado, o mercado se move antes da eleição. Não é uma data específica, é acompanhar e entender o que está acontecendo.
Mesmo com tudo a favor, o investidor local ainda não se animou com a bolsa. O que falta?
É uma situação incômoda. O que o investidor estrangeiro está fazendo é uma arbitragem de custo de capital. Ele opera com uma taxa de referência muito mais baixa do que a nossa: o custo de oportunidade dele não é o CDI nem o Tesouro IPCA+ a 7% ao ano. Então, quando ele olha para os ativos brasileiros, ele vê valuations baratos sem sentir o peso do juro real que corrói a atratividade relativa da bolsa para quem está aqui dentro. É por isso que ele entrou, investiu, ganhou muito dinheiro o ano passado inteiro e fez de novo em janeiro e fevereiro.
O investidor doméstico, por outro lado, fica preso nessa dinâmica do juro real e não consegue sair da renda fixa. O custo de oportunidade dele é real, está lá todo dia no extrato. A bolsa foi de sub-100 mil para quase 200 mil pontos, e quem ficou no juro ganhou 15%, o que não é pouco, mas não capturou essa valorização. O gringo já aproveitou melhor a oportunidade do que o investidor local. Comprou a 110 mil pontos e vendeu a 200 mil. Ele já brilhou.
O que vai fazer o investidor local se movimentar é uma redução gradual da percepção de que a renda fixa é o melhor ativo que existe. Esse processo já começou, mas é muito lento. A informação que a gente recebe é que a maioria das pessoas físicas tem zero em bolsa. Zero parece pouco.
Para o investidor que está zerado em renda variável: qual é o risco de ficar fora se o juro longo começar a ceder?
O juro real mais longo está oscilando entre 7% e 8% acima da inflação. Se a gente for para um cenário de juro real na faixa de 5% ou abaixo disso, tem ativos que podem subir 30%, 40%, 50%. São possibilidades de investimento relevantes.
O cenário construtivo é: solução do cenário internacional sem ruptura, quem quer que seja o novo presidente faz um ajuste fiscal razoável, a economia brasileira continua crescendo, a gente tem entregue entre 2% e 3% recorrentemente. Com esse juro real mais baixo, o potencial de valorização dos ativos domésticos é relevante.
O que vocês estão comprando nessa correção? Petrobras segue na carteira, e a temporada de balanços já começou.
Em Petrobras (PETR4), a mudança estrutural foi o nível do preço do petróleo. No começo do ano, a discussão era se o Brent ficaria a US$ 60 ou iria para US$ 50, com um equilíbrio de oferta e demanda mais baixista. Depois do evento da guerra, essa faixa mudou completamente. Hoje a gente discute preços de US$ 80, US$ 90, tirando o prêmio de risco que chegou a US$ 120. É razoável imaginar que o petróleo vai ficar nessa faixa por algum tempo, e isso muda completamente a história da Petrobras: a empresa volta a gerar muito caixa e pagar dividendos. Logo após o resultado do quarto trimestre, em março, a gente aumentou bastante a posição.
Fora de Petrobras, a gente está olhando empresas resilientes do ponto de vista de atividade: que continuam performando bem mesmo com juros altos e que têm alavancagem financeira mais controlada. Bem ou mal, as empresas estão pagando 14%, 14,5% de taxa de juros, e isso ainda é muita despesa financeira. Você precisa de uma empresa com alavancagem baixa para sobreviver a esse custo. A gente tem shopping centers, algumas geradoras de energia e algumas empresas de varejo que por motivos específicos estão em valuation muito atrativo.
A C&A (CEAB3) é um exemplo: estava sendo negociada a menos de 7 vezes o lucro, o que não faz sentido. Está executando operacionalmente bem, não de forma estelar, mas ok, e a expectativa é que continue assim pelo resto do ano. Tem que ser corrigido. A temporada de balanços está confirmando essa leitura: a gente está prestando atenção em se a empresa está fazendo a parte operacional ok e se tem algum sinal de problema à frente, seja de crédito, seja de demanda.
Para fechar: o que você diria ao investidor que ainda não tem nada em bolsa?
Tem oportunidades. Mas cuidado com a ideia de que está muito barato: oportunidades e muito barato são coisas diferentes. A gente está comprando ativamente hoje.
E a recomendação geral é que bolsa é um ativo como qualquer outro, e como qualquer outro, o investimento tem que ser equilibrado. Você nunca vai acertar o momento certo de entrar, então tem que ser um investimento recorrente, colocando um pouco de cada vez. Ter uma posição com a qual você consiga dormir à noite, que seja confortável para o seu perfil de investidor. Não tem que ter nem amor nem ódio pela classe de ativos de ações.





