Como o cenário macro impactou o varejo no 2º trimestre? A temporada de balanços do setor respondeu a essa pergunta de forma pouco uniforme — inclusive dentro de um mesmo segmento.
Juros ainda elevados, custo de crédito mais alto e um câmbio que só deve ajudar com mais força no segundo semestre pressionaram o consumo e, principalmente, o comércio eletrônico.
Mas o cenário macro não impediu que a Riachuelo entregasse resultado recorde, tampouco explica sozinho por que a Lojas Renner, do mesmo setor de moda, cortou o guidance de crescimento e viu as ações desabarem — sinal de que execução e competitividade seguem pesando tanto quanto o pano de fundo econômico.
Antes da divulgação dos números, casas de análise já sinalizavam que o 2º trimestre poderia surpreender positivamente após um primeiro trimestre fraco. O JPMorgan avaliou que o setor de vestuário teria um trimestre melhor do que o esperado, com demanda “mais resiliente do que o esperado”, citando como fatores favoráveis a queda de temperaturas no fim de maio — que estimulou as vendas de inverno —, estoques mais equilibrados e melhor execução comercial das varejistas.
O câmbio mais favorável também foi citado como driver, ainda que com efeitos mais visíveis apenas no segundo semestre.
Já o Morgan Stanley manteve postura seletiva, priorizando companhias com exposição a tendências estruturais de crescimento, como o comércio eletrônico, além de varejistas de desconto e empresas com baixa alavancagem — um recorte que ajuda a explicar por que o mercado tratou de forma tão diferente os resultados que vieram a seguir.
Na época, as ações do setor negociavam a múltiplos considerados atrativos, próximos de 8 vezes o lucro projetado para 2026, com C&A (CEAB3) por volta de 6 vezes e Lojas Renner (LREN3) a 8,7 vezes.
Para o 2º trimestre, os analistas projetavam crescimento de vendas em mesmas lojas de 3,5% a 5% na C&A, cerca de 6% na Riachuelo e por volta de 2% na Lojas Renner. O JPMorgan alertava, no entanto, que havia “pouco espaço para decepções nos resultados”, já que boa parte dos investidores locais já mantinha posições relevantes no setor.
Riachuelo: lucro recorde reforça a resiliência da moda
Entre as varejistas de vestuário, a Riachuelo (RIAA3) foi a que melhor validou a tese de recuperação. A companhia, controlada pela Guararapes, reportou lucro líquido de R$ 167,9 milhões no 2º trimestre, alta de 36,2% na comparação anual e o melhor resultado da história da empresa para o período.
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A receita líquida consolidada somou R$ 2,69 bilhões, crescimento de 3,3%, enquanto o Ebitda consolidado avançou 12,7%, para R$ 460,6 milhões, com margem de 17,1% — 1,4 ponto percentual acima do ano anterior e o maior nível histórico para um segundo trimestre.
A divisão de mercadorias foi puxada pelo vestuário, com receita de R$ 1,75 bilhão (+8,9%) e vendas em mesmas lojas subindo 7,8%, marcando o 12º trimestre consecutivo de crescimento nessa métrica. A margem bruta do segmento de vestuário chegou a 59,2%, alta de 1,9 ponto percentual.
Já a Midway, braço financeiro da companhia, teve receita líquida de R$ 684,2 milhões (+6,5%) e viu a inadimplência de curto prazo (15 a 90 dias) recuar de 7,5% para 6,9%, mesmo com a carteira de crédito crescendo 10,1%, para R$ 6,2 bilhões. O endividamento líquido pro forma somava R$ 943 milhões, com alavancagem estável em 0,5 vez o Ebitda.
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O mercado reconheceu o resultado: as ações RIAA3 fecharam o pregão de reação em alta de 2,45%, a R$ 7,96. O EBIT da companhia superou em mais de 10% as estimativas do JPMorgan, e o Ebitda ficou 3% acima do consenso. Bradesco BBI e XP destacaram a execução consistente da varejista e a “maior visibilidade de lucros frente aos últimos anos”.
Se a Riachuelo validou a tese de recuperação da moda, a Lojas Renner (LREN3) mostrou o outro lado da moeda. A companhia reportou receita líquida consolidada de R$ 4,2 bilhões no 2º trimestre, alta de apenas 1% na comparação anual, com vendas em mesmas lojas do varejo avançando só 0,5% — bem abaixo do que concorrentes e mercado esperavam. O lucro líquido ficou praticamente estável, em R$ 405 milhões, enquanto o Ebitda ajustado recuou 5%, para R$ 845 milhões.
O dado que mais pesou, no entanto, foi a revisão do guidance: a companhia reduziu a projeção de crescimento da receita varejista para 2026 de uma faixa de 9% a 13% para apenas 4% a 8%. Entre os motivos citados pela empresa estão o ambiente macroeconômico desafiador, a concorrência crescente de plataformas internacionais após mudanças tributárias e a queda no fluxo de consumidores durante a Copa do Mundo.
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Do lado positivo, a margem bruta do varejo atingiu recorde de 57,5% (+0,4 ponto percentual), beneficiada por maior participação de vendas a preço cheio, gestão de estoques aprimorada e ganhos logísticos — e o estoque com mais de 16 semanas caiu quase 12%, sinal de qualidade saudável. Já a Realize, divisão financeira do grupo, teve resultado de R$ 54 milhões (-22%), com índice de atraso subindo 0,6 ponto percentual, para 29%, e carteira de crédito recuando 1%, a R$ 6,4 bilhões.
O mercado reagiu mal: as ações LREN3 desabaram 8,09%, fechando a R$ 12,39. Bradesco BBI classificou o resultado como negativo, afirmando que o corte de guidance ofusca os avanços operacionais e enfraquece a tese de investimento.
JPMorgan e Goldman Sachs também esperavam reação negativa, com o primeiro apontando que o novo guidance confirma preocupações com a demanda e vai exigir aceleração significativa no segundo semestre, e o segundo citando a pressão competitiva das plataformas de e-commerce. A XP avaliou que os papéis devem refletir a surpresa negativa, ainda que o programa de retorno de capital da companhia, com yield de 5,8%, possa oferecer algum suporte.
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Do lado oposto, o Magazine Luiza (MGLU3) decepcionou o mercado. As ações fecharam em queda de 3,72%, a R$ 4,40, após a companhia reportar retração de 2,6% na receita líquida na comparação anual, para cerca de R$ 8,9 bilhões, com o GMV total recuando 5%. O principal ponto de pressão foi o canal online, cujo GMV caiu cerca de 12%, tanto nas vendas diretas quanto no marketplace — reflexo direto dos juros altos, que encareceram o crédito ao consumidor, e da alta no custo de componentes, que afetou a demanda por eletrônicos.
As lojas físicas, por outro lado, foram o principal ponto positivo: cresceram 10% em vendas totais e 9,7% em vendas mesmas lojas, beneficiadas pela demanda ligada à Copa do Mundo, especialmente na venda de TVs.
A margem bruta se manteve estável em 30,6%, e o Ebitda ajustado somou cerca de R$ 709 milhões, com margem de 8% — dado que o mercado tratou como sinal de melhora na rentabilidade, mesmo com a companhia registrando prejuízo líquido ajustado entre R$ 50 milhões e R$ 73 milhões, a depender da metodologia. A Luizacred, braço de crédito do grupo, seguiu como destaque positivo, com lucro de R$ 135 milhões e ROE de 23,5%.
Apesar da melhora de margem, XP e Goldman Sachs mantiveram recomendação neutra para o papel, enquanto JPMorgan e Morgan Stanley se mostraram mais conservadores, avaliando que a resiliência das lojas físicas ainda não é suficiente para compensar a fraqueza do e-commerce diante do cenário macroeconômico adverso.
Casas Bahia: prejuízo de R$ 10 bilhões reacende risco de recuperação judicial
O caso mais crítico da temporada foi o da Casas Bahia. A companhia reportou prejuízo líquido de mais de R$ 10 bilhões no 2º trimestre, impactado por R$ 9,1 bilhões em efeitos contábeis não recorrentes, sem impacto em caixa, relacionados ao redimensionamento das operações dentro da chamada “fase 2” do plano de transformação da empresa.
Como parte dessa reestruturação, a varejista fechou 298 lojas, medida que a administração diz que deve elevar em 1,4 ponto percentual a margem de contribuição das lojas remanescentes e aumentar a participação do carnê de 5,0% para 6,0% nesses pontos de venda.
O cenário se agravou depois que um investidor âncora recuou de um acordo de captação internacional e alternativas de empréstimo-ponte não se concretizaram como previsto, em meio a condições consideradas difíceis nos mercados financeiro e de capitais.
Diante desse quadro, a companhia afirmou não descartar “novos pedidos de recuperação extrajudicial ou judicial” como parte das medidas da fase 2, que tem entre as prioridades geração de caixa, redução da necessidade de capital, eficiência operacional, reorientação do canal digital, ajuste de estoques e redução de custos estruturais.
Fora do varejo tradicional brasileiro, o Mercado Livre (MELI34) também sentiu a reação do mercado, com as ações caindo 4,81%, a US$ 1.830, mesmo após reportar receita 50% maior na comparação anual — 5% acima das estimativas — e Ebit de US$ 683 milhões, em linha com as projeções.
O GMV no Brasil acelerou para crescimento de 39% ao ano, e o NIMAL da carteira de crédito subiu 290 pontos-base, para 20,7%. A queda das ações foi atribuída à pressão sobre as margens brutas, afetadas por incentivos no Brasil, custos de combustível, aquisição de equipamentos e um impacto de cerca de US$ 20 milhões ligado à recomposição de estoques no México. Ainda assim, o Bradesco BBI reiterou recomendação de compra, o Morgan Stanley projeta aceleração do Ebit no segundo semestre e a XP destacou a estabilidade das margens como sinal positivo.
Já a Vivara (VIVA3) recuou 2,15%, a R$ 21,81, após reportar receita ligeiramente abaixo das estimativas e lucro líquido 12% inferior ao esperado, com LPA ajustado de R$ 0,64 (-3% na comparação anual). A margem bruta, no entanto, seguiu resiliente, em 71,7%, e a companhia gerou R$ 103 milhões em caixa, com redução de 51 dias no prazo médio de estoques. JPMorgan e Goldman Sachs destacaram o “forte foco em disciplina de capital de giro” da joalheria.
O que os balanços revelam sobre o cenário macro
Lidos em conjunto, os resultados do 2º trimestre mostram um varejo dividido pelo próprio cenário macroeconômico — mas não só por ele. As varejistas mais expostas ao crédito ao consumidor e ao comércio eletrônico, casos de Magalu e, de forma mais extrema, Casas Bahia, sentiram com mais força os juros altos e o custo de capital elevado.
Já dentro do próprio setor de moda, o cenário macro afetou Riachuelo e Renner de formas opostas: enquanto a primeira converteu fatores pontuais, como a queda de temperatura no fim do outono, e melhoras estruturais de estoque e margem em resultado recorde, a segunda viu o mesmo pano de fundo corroer o crescimento de vendas a ponto de forçar um corte de guidance.
O contraste sugere que, além do cenário macroeconômico, execução, concorrência e disciplina de estoque seguiram sendo decisivos para explicar quem ganhou e quem perdeu. No meio do caminho, nomes como Mercado Livre e Vivara mostraram que, mesmo com crescimento operacional sólido, o mercado tem cobrado cada vez mais consistência de margem — não só de receita — para reagir positivamente aos balanços.




