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Eleição de 2026 redesenha base de Abilio na Câmara de Cuiabá


Abilio Brunini

A eleição de 2026 está redesenhando a correlação de forças na Câmara de Cuiabá e tornando mais complexa a relação do prefeito Abilio Brunini (PL) com os 27 vereadores. O Legislativo que entra na campanha eleitoral já não pode ser dividido apenas entre situação e oposição. Candidaturas próprias, alianças partidárias para o Governo e Senado, mudanças de partido e a disputa pelo comando da Casa criaram interesses que atravessam a base da Prefeitura e colocam antigos aliados em campos diferentes.

O levantamento feito pelo DIÁRIO mostra que o fenômeno vai além dos recentes confrontos entre Abilio e vereadores que participaram de sua base.

Pelo menos oito parlamentares foram lançados candidatos nas eleições deste ano. Samantha Iris (PL), Maysa Leão (Republicanos), Michelly Alencar (União Brasil) e Alex Rodrigues (Podemos) disputam vagas na Assembleia Legislativa. Katiuscia Manteli (Podemos), Rafael Ranalli (PL), Wilson Kero Kero e Eduardo Magalhães (Republicanos) aparecem nas chapas para a Câmara dos Deputados.

Isso significa que quase um terço da Câmara entra diretamente na campanha.

INFO base câmara

 

A partir de agora, esses vereadores precisam conciliar o mandato municipal com projetos eleitorais próprios, buscar apoios fora da Capital e estabelecer relações com candidatos ao Governo e Senado. A consequência é uma Câmara na qual as alianças municipais e estaduais já não necessariamente coincidem.

RUPTURAS COMEÇARAM ANTES

A fragmentação não nasceu com o início formal da campanha.

Ainda no primeiro semestre, um grupo de vereadores já mantinha posição de oposição à administração. Entre eles estavam Maysa Leão, Jeferson Siqueira, Dídimo Vovô, Adevair Cabral e Daniel Monteiro.

A situação tornou-se mais complexa durante as articulações para a próxima Mesa Diretora da Câmara.

Em julho, Abilio retirou do grupo de comunicação mantido com sua base vereadores que divergiram da estratégia do Executivo para a disputa interna da Casa. Entre eles estavam Alex Rodrigues, Eduardo Magalhães, Sargento Joelson, Katiuscia Manteli, Michelly Alencar e Dra. Mara.

Posteriormente, Dilemário Alencar e Baixinha Giraldelli também foram excluídos.

O episódio deixou claro que a maioria construída pela Prefeitura no começo da administração já não funcionava com a mesma unidade.

A disputa pela Mesa tornou-se, assim, uma espécie de antecipação do rearranjo que a campanha estadual agora aprofunda.

Ilde Taques, por exemplo, passou a defender maior independência da Câmara diante do Executivo e tornou-se uma das vozes do grupo que questiona a interferência do prefeito na sucessão do Legislativo.

PALANQUES ATRAVESSAM A CÂMARA

A eleição para governador acrescenta outra divisão.

Abilio pertence ao PL, que lançou o senador Wellington Fagundes ao Governo. Dentro da própria Câmara, porém, há vereadores ligados a partidos que integram o projeto de Otaviano Pivetta.

Republicanos, União Brasil, PP e Podemos estão entre as legendas que se posicionaram no campo de Pivetta. Já PSD e partidos da Federação Brasil da Esperança estão no bloco que sustenta Natasha Slhessarenko.

O resultado é uma situação incomum: vereadores podem continuar votando com a Prefeitura em assuntos municipais e, ao mesmo tempo, trabalhar contra o candidato a governador do partido do prefeito.

É justamente por isso que filiação partidária e apoio individual precisam ser separados.

O fato de um vereador pertencer ao União Brasil, Republicanos ou Podemos não permite concluir automaticamente que ele fará campanha para Pivetta. Da mesma maneira, estar no PL não significa necessariamente envolvimento com a mesma intensidade na campanha de Wellington.

Entre os casos em que há manifestação individual, as diferenças ficam mais evidentes.

Maysa Leão, que hoje está na oposição a Abilio e disputa uma cadeira na Assembleia pelo Republicanos, está politicamente alinhada ao projeto de Pivetta.

No PL, Rafael Ranalli tomou posição mais próxima de Wellington. Participou das articulações da composição com o MDB, defendeu a aproximação com Janaina Riva e declarou apoio a José Medeiros para o Senado.

Samantha Iris apresenta situação diferente. Embora seja uma das figuras mais próximas da administração e esteja no PL, demonstrou desconforto com a construção da aliança estadual e chegou ao início desse processo sem definir publicamente qual seria seu grau de participação na campanha de Wellington.

Esses exemplos mostram que nem mesmo dentro dos partidos o comportamento dos vereadores será necessariamente uniforme.

MICHELLY SIMBOLIZA MUDANÇA

O caso de Michelly Alencar talvez seja o exemplo mais visível dessa transformação.

A vereadora esteve próxima de Abilio desde o começo da administração. Seu marido, Jefferson Neves, comandou a Secretaria Municipal de Esportes, e Michelly integrava o grupo político que sustentava a Prefeitura.

A relação se deteriorou durante as articulações internas da Câmara e chegou ao confronto público.

Recentemente, Michelly cobrou obras da Prefeitura e criticou decisões da administração. Abilio reagiu publicamente, contestou a atuação da vereadora e passou a tratá-la como integrante de um grupo que deixou sua base.

Agora, Michelly entra na campanha como candidata a deputada estadual pelo União Brasil, partido integrante do bloco de Pivetta.

Não é possível atribuir a ruptura exclusivamente à eleição estadual — o desgaste vinha de antes. Mas a campanha oferece aos dois lados novos espaços políticos e tende a tornar mais difícil uma recomposição no curto prazo.

OITO VEREADORES NAS URNAS

As candidaturas proporcionais podem produzir efeitos ainda maiores.

Com oito vereadores buscando mandatos de deputado, a campanha entrará diretamente nos bairros de Cuiabá e nas bases eleitorais que esses parlamentares compartilham.

Em algumas regiões, vereadores que convivem na mesma Câmara disputarão o mesmo eleitor.

Samantha Iris, Maysa Leão, Michelly Alencar e Alex Rodrigues concorrerão por uma das 24 cadeiras da Assembleia. Isso os transforma também em concorrentes entre si.

Na disputa federal, ocorre movimento semelhante com Katiuscia Manteli, Rafael Ranalli, Wilson Kero Kero e Eduardo Magalhães.

O desempenho de cada um nas urnas terá consequências depois de outubro.

Mesmo quem não conseguir se eleger poderá voltar à Câmara com uma nova dimensão política, dependendo da votação recebida. Um vereador que obtenha votação expressiva em Cuiabá poderá aumentar sua capacidade de negociação dentro da Casa e também dentro do próprio partido.

Quem se eleger deixará uma cadeira aberta para suplente, alterando diretamente a composição do Legislativo.

SENADO FRAGMENTA AINDA MAIS

A corrida ao Senado torna o quadro ainda menos linear.

Cada eleitor terá direito a dois votos, e os partidos que convivem na Câmara estão distribuídos entre diferentes candidaturas.

José Medeiros está no PL; Janaina Riva, no MDB; Mauro Mendes, no União Brasil; Carlos Fávaro, no PSD. Há ainda outros concorrentes que podem receber apoio individual de vereadores independentemente da composição partidária.

Nesse caso, o DIÁRIO encontrou manifestações individuais de alguns parlamentares, mas não de todos os 27.

Por isso, não é possível apresentar neste momento um mapa fechado dos dois votos de cada vereador sem correr o risco de transformar decisões partidárias em manifestações pessoais.

A ausência de declarações também é politicamente significativa. Parte dos vereadores pode esperar o avanço da campanha antes de explicitar seus dois candidatos ao Senado.

MESA DIRETORA COMPLETA O TABULEIRO

Por trás da eleição estadual continua uma disputa essencialmente municipal: quem comandará a Câmara no biênio 2027-2028.

O controle da Mesa Diretora interessa diretamente a Abilio porque o próximo presidente estará à frente do Legislativo durante a segunda metade de seu mandato e no período em que começarão as articulações para a eleição municipal de 2028.

As divergências sobre a sucessão da Casa já provocaram algumas das principais rupturas entre o prefeito e vereadores de sua antiga base.

Isso criou três mapas políticos sobrepostos.

Um é o da relação com a Prefeitura.

Outro é o dos palanques de 2026.

E o terceiro é o da eleição interna da Câmara.

Os três não coincidem.

RESULTADO VAI ALÉM DE OUTUBRO

A eleição estadual, portanto, terá consequências para Cuiabá que vão além da escolha do próximo governador, dos senadores e dos deputados.

Ela funcionará também como uma medição da força eleitoral dos vereadores.

Os votos recebidos pelos oito candidatos da Câmara mostrarão quem possui base própria, quem depende mais da estrutura partidária e quem poderá reivindicar maior protagonismo político depois da eleição.

O resultado também poderá fortalecer ou enfraquecer os grupos envolvidos na disputa pela Mesa Diretora.

E há 2028 no horizonte.

A segunda metade do mandato de Abilio será justamente o período em que partidos e lideranças começarão a discutir a próxima eleição para prefeito. Vereadores fortalecidos em 2026 poderão reivindicar espaço nas composições futuras, enquanto os partidos usarão o desempenho deste ano para medir sua força na Capital.

O que a apuração dos 27 vereadores permite afirmar, neste momento, é que a base administrativa de Abilio e seu campo eleitoral deixaram de ser a mesma coisa.

Há aliados municipais em partidos de Pivetta, opositores em diferentes campos estaduais, vereadores com projetos eleitorais próprios e parlamentares que ainda não tornaram públicas todas as suas escolhas.

A Câmara não está simplesmente dividida entre Abilio e seus adversários.

Está dividida por várias eleições ao mesmo tempo.

E será o resultado das urnas de outubro que mostrará qual Câmara o prefeito terá diante de si nos dois últimos anos de mandato.





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