A decisão do governo brasileiro de expulsar o cidadão russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, apontado por investigações da Polícia Federal e do FBI como um agente da inteligência militar da Rússia, provocou uma reação imediata dos Estados Unidos e recolocou o Brasil no centro de uma disputa envolvendo espionagem, extradição e segurança.
Na quarta-feira 8, o Departamento de Estado americano afirmou estar “profundamente preocupado” com a medida adotada pelo governo Lula (PT). Segundo Washington, permitir que Cherkasov deixe o Brasil pode “enfraquecer os esforços internacionais para combater operações de inteligência estrangeira e comprometer a cooperação entre países nessa área”.
Mas a reação dos Estados Unidos vai além da expulsão em si. O motivo é que Washington tentava, há anos, obter a extradição de Cherkasov para que ele respondesse à Justiça americana por acusações de espionagem, fraude e lavagem de dinheiro relacionadas à atuação dele em território dos EUA. Com a decisão brasileira de expulsá-lo, o entendimento do governo americano é que aumentam as chances de o russo retornar ao seu país antes de enfrentar essas acusações.
Na nota oficial, os EUA afirmaram que a decisão brasileira “enfraquece nosso compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras e proteger a integridade de nossas instituições democráticas”. O governo norte-americano também declarou que o Brasil deveria considerar o precedente criado pela medida e continuar cooperando para responsabilizar pessoas que representem ameaça à segurança coletiva.
A expulsão foi publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira 6, mas não será imediata. Cherkasov continuará preso até cumprir a pena imposta pela Justiça brasileira ou até eventual autorização judicial para deixar o País antes do término da condenação. A pena atualmente é de 5 anos, 2 meses e 15 dias de prisão, por falsidade ideológica. Em tese, ele seria liberado em 2027. Quando a medida for executada, ele ficará proibido de retornar ao Brasil por 30 anos.
Entenda o caso
Segundo as investigações conduzidas pela PF em parceria com autoridades dos Estados Unidos e da Holanda, Cherkasov viveu no Brasil desde 2010 usando a identidade falsa de Victor Muller Ferreira. Durante mais de uma década, construiu uma biografia completa como cidadão brasileiro, obteve documentos oficiais e estudou no exterior para fortalecer sua cobertura.
Em 2022, ele foi impedido de entrar na Holanda quando tentava assumir um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia. A suspeita era de que pretendia usar a vaga para ter acesso a informações estratégicas. Deportado de volta ao Brasil, acabou preso por uso de documentos falsos. Desde então, sempre negou ser um agente de inteligência russo.
As investigações apontam que Cherkasov integrava o grupo conhecido como “ilegais”, formado por agentes treinados para viver durante anos sob identidades falsas em outros países. O objetivo seria construir uma história de vida convincente antes de serem enviados para missões de inteligência em locais considerados estratégicos. No caso dele, os investigadores afirmam que os principais alvos eram os Estados Unidos e países europeus, sem evidências de espionagem contra o Brasil.
A disputa entre EUA e Rússia
Desde a prisão de Cherkasov, Washington e Moscou passaram a disputar seu destino.
A Rússia pediu sua extradição alegando que ele responderia por tráfico de drogas em seu país. Já os Estados Unidos apresentaram um pedido próprio, sustentando que ele era um agente do serviço de inteligência militar russo que atuou clandestinamente em território norte-americano utilizando documentos brasileiros falsos.
O Supremo Tribunal Federal chegou a autorizar a extradição solicitada pela Rússia, mas condicionou a entrega ao encerramento dos processos e investigações no Brasil. Posteriormente, a Justiça brasileira concluiu que já não havia pendências capazes de impedir sua saída, abrindo espaço para a decisão administrativa do governo federal pela expulsão.
Base para espiões
O caso também revelou uma investigação mais ampla da Polícia Federal sobre o uso do Brasil como base para agentes russos construírem identidades falsas. Segundo as apurações, ao menos nove suspeitos utilizaram documentos brasileiros para criar vidas fictícias antes de seguirem para missões em outros países.
Os investigadores afirmam que o objetivo não era espionar o Brasil, mas aproveitar a documentação brasileira para facilitar a circulação internacional e tornar menos suspeitas futuras operações de inteligência em países considerados prioritários pela Rússia.
A vida no Brasil
Antes de ser apontado como um agente da inteligência militar russa, Sergey Vladimirovich Cherkasov passou mais de uma década construindo uma vida como brasileiro. Sob a identidade falsa de Victor Muller Ferreira, viveu no país desde 2010, obteve documentos oficiais, trabalhou em uma agência de turismo e câmbio no Rio de Janeiro e chegou a fazer aulas de forró em São Paulo para reforçar seu personagem.
Segundo as investigações, ele também elaborou uma biografia fictícia minuciosa, com detalhes sobre infância, familiares, hábitos e preferências, para tornar sua história convincente.





