O dia seguinte à eliminação de uma Copa do Mundo é tradicionalmente o momento de encontrar os culpados pela derrota. Aponta-se Carlo Ancelotti, que mexeu mal no time, Bruno Guimarães, que perdeu um pênalti, Endrick, que chutou para fora um gol feito, e Neymar Jr., que entrou em campo sem ter condição de jogo e desarrumou a estratégia reativa montada pelo treinador.
Mas não se pode ignorar o tumulto na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que trocou e destrocou de presidente no meio do ciclo de preparação para a Copa do Mundo 2026, numa confusão administrativa que impactou nas escolhas sobre o comando da Seleção brasileira.
Até a chegada de Ancelotti, apenas pouco mais de um ano antes do início do torneio, outros três treinadores foram testados, e um deles, Fernando Diniz, dividiu o comando de seu clube, o Fluminense à época, com a maior honraria para um treinador no Brasil.
A contratação do treinador italiano foi, desde a origem, uma tentativa de Ednaldo Rodrigues de se manter na presidência da CBF. Não deu certo para ele, mas foi usada pelo grupo que tomou seu lugar no comando da entidade.
Decano do STF
Quem participou com protagonismo da troca e destroca de presidente da CBF e merece sua parcela de culpa pela eliminação é o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes (foto).
Fundador do instituto de educação IDP, o ministro do STF assombra o futebol brasileiro desde que despachou a primeira decisão liminar para manter Ednaldo Rodrigues no comando da CBF.
Gilmar despachou sobre o assunto mais de uma vez apesar de o IDP, comandado por seu filho Francisco Schertel, ter uma parceria com a confederação, a CBF Academy.
O ministro sempre já negou que haja conflito de interesses no caso, mas ele é enxergado como ator interessado — e atuante — no meio do futebol.
Hoje, Francisco é tido como o comandante de fato na CBF, acima do presidente Samir Xaud, porque boa parte dos postos de comando na confederação é ocupada por gente do IDP.
Reportagem de Crusoé revelou, inclusive, que o grupo do IDP é identificado como ator contra a formação de uma liga independente no Brasil, para evitar a perda de protagonismo da CBF.
Tempo demais
Gilmar celebrou no mês passado 24 anos de STF. É tempo demais para alguém com a disposição dele para conversar com os políticos de Brasília, que o próprio já admitiu que tem.
O decano tem atuado em defesa dos colegas enrolados pelo caso do Banco Master e chegou a criticar publicamente — sem base, diga-se — a atuação do ministro André Mendonça, que é o relator do caso, algo não apenas deselegante, mas passível de questionamento formal.
O ministro mais velho do STF também carrega no currículo com orgulho o desmonte da Operação Lava Jato, que legou ao país um incômodo sentimento de impunidade.
A CBF nunca foi um exemplo de organização, e o futebol não é lá das questões mais importantes para um país, mas não deixa de irônico que o onipresente Gilmar Mendes tenha conseguido fazer parte também do rol de culpados pela derrocada da Seleção brasileira em uma Copa do Mundo.
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