Início NACIONAL nem Lula, nem Flávio querem filho feio

nem Lula, nem Flávio querem filho feio


Nos anos 1990, o programa americano The Maury Povich Show transformou testes de DNA em espetáculo. O apresentador anunciava, diante de uma plateia em êxtase, quem era — ou quem não era — o pai de uma criança. O formato trash virou fenômeno, inspirou atrações como o The Jerry Springer Show e acabou desembarcando no Brasil pelas mãos de Ratinho. O pai, não o filho.

Três décadas depois, a política brasileira produziu uma versão própria desse tribunal de paternidade. Só que, desta vez, ninguém quer reconhecer o filho. Afinal de contas, como diz o ditado, filho feio não tem pai.

Leia mais: Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece

Lula e Flávio Bolsonaro disputam, em praça pública, quem consegue convencer o eleitor de que o verdadeiro “pai” do tarifaço de 25% imposto por Donald Trump é o adversário.

A sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros dificilmente será lembrada pelo eleitor apenas como um episódio de política comercial. Flávio e Lula sabem disso. Por isso, ambos resolveram trazer para a arena política um debate que deveria ser estritamente técnico.

Tanto Lula quanto Flávio já colocaram nas ruas suas respectivas narrativas. Lula apresentou o tarifaço como consequência direta da aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump. Flávio afirma que a taxação é puro suco de incompetência do Itamaraty e da equipe de Mauro Vieira.

Os fatos mostram que a incompetência da gestão Lula se sobrepôs a qualquer tipo de acerto entre os Bolsonaros e o governo Trump. Mas, em tempos de pós-verdade, os fatos normalmente são engolidos pelas narrativas.

Ao nacionalizar o debate, Lula tenta desviar o foco das críticas sobre sua política externa e vestir o figurino de defensor da soberania brasileira. O presidente transforma um problema econômico em uma disputa entre patriotismo e alinhamento internacional.

Do outro lado, ao deslocar a origem do problema para o Palácio do Planalto, o bolsonarismo procura neutralizar o desgaste provocado pela proximidade histórica da família Bolsonaro com Trump. Em vez de responder por essa relação, tenta transformá-la em ativo, sugerindo que um governo ideologicamente alinhado aos Estados Unidos jamais enfrentaria uma retaliação dessa magnitude.

No fim, o tarifaço poderá produzir um efeito curioso. Em vez de unir governo e oposição diante de uma medida que afeta exportadores brasileiros, tende a aprofundar a polarização. A discussão deixará de ser sobre como reduzir os danos econômicos e passará a ser sobre quem merece carregar a culpa por eles.

Afinal de contas, ninguém quer ajudar a criar filho feio. Por isso, exames de DNA se tornaram tão populares mundo afora.





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